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COLUNA

A vaca no brejo

Temer tornará à sua insignificância quando deixar o cargo, mas seus estragos continuarão por anos

Michel Temer discursa no Palácio do Planalto no dia 11 de julho.
Michel Temer discursa no Palácio do Planalto no dia 11 de julho. AFP

O que menos importa na discussão que se inicia agora sobre a admissibilidade ou não da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o presidente não eleito, Michel Temer, por crime de corrupção passiva, é o seu desenlace. Temer já afirmou e reafirmou que não renunciará e que, se depender dele, permanecerá pendurado no poder até o fim, atitude que mantém a economia do País paralisada pelo resto do ano – agonia que, na verdade, poderá se estender até as eleições do ano que vem. Temer sempre foi um político medíocre e, ao deixar a Presidência, tornará à sua insignificância, mas os estragos proporcionados por suas reformas autoritárias e sua pequenez histórica, esses continuarão a reverberar por anos, afetando principalmente as camadas mais pobres da população.

Tivesse dignidade, Temer entregaria já o cargo – não tem, infelizmente. Assim como não têm grandeza os nossos dirigentes políticos. Este deveria ser o momento em que, pondo de lado diferenças ideológicas e interesses mesquinhos, os líderes partidários se propusessem a sentar à mesa para costurar um grande acordo na tentativa de salvar o que ainda resta do país, que vive a pior recessão de sua história, traduzida objetivamente em desemprego e violência, e subjetivamente em desesperança e apatia. Mas fazer o quê?: nossa cultura política medíocre não gerou estadistas e os partidos transformaram-se em agremiações destinadas apenas a organizar a pilhagem dos cofres públicos.

Luiz Inácio Lula da Silva, que em 2010 deixou a Presidência da República com uma popularidade recorde (na época, 87% dos entrevistados aprovavam seu governo), pouco a pouco enterra sua biografia. Embora alguns de seus homens mais próximos tenham sido presos e condenados por corrupção – José Dirceu, Antonio Palocci, João Vaccari Neto – e várias das empresas envolvidas com a Operação Lava Jato tenham se expandido durante seu mandato com generosos aportes de recursos do BNDES – como Odebrecht, EBX e JBS -, Lula finge não ter nada a ver com isso. Durante congresso do PT no mês passado, nenhuma palavra de autocrítica: o partido preferiu saudar Dirceu e Vaccari, “perseguidos injustamente”, como “heróis do povo brasileiro”, e Lula, arrogantemente, se limitou a afirmar que o Brasil nunca precisou tanto do PT como agora, eximindo-se assim de qualquer responsabilidade por esse desastre que somos hoje.

Arrogância que não falta, aliás, a outro ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, que, apesar da pose, não consegue sequer influenciar seu partido, o PSDB, que, sustentando a tradição de ambiguidade interesseira, continua a apoiar “criticamente” Michel Temer – na verdade, como uma hiena, refestela-se com a carcaça de um governo moribundo. E se o PT tem Lula – e só Lula -, os tucanos são muitos e quase todos possuem o bico manchado pela sujeira das denúncias de corrupção: o presidente afastado do partido, senador Aécio Neves; o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin; o ex-ministro José Serra... Correndo por fora, o fanfarrão marqueteiro prefeito de São Paulo, João Doria, que se tornou conhecido nacionalmente por aumentar a velocidade dos carros nas Marginais Tietê e Pinheiros, por priorizar uma guerra contra os grafiteiros e por tentar resolver a questão da Cracolândia na base da violência policial...

Se Lula e Fernando Henrique, que poderiam, em tese, se arvorar como lideranças políticas fortes o suficiente para propor um pacto pelo país, não o fazem, o que esperar então dos outros candidatos à sucessão no ano que vem? A evangélica Marina Silva (Rede) parece apostar na ideia de que quanto menos aparecer melhor, pois assim os eleitores não ficam conhecendo, de antemão, suas opiniões conservadoras e sua retórica vazia de “uma nova forma de fazer política”. A contraparte de Marina é Ciro Gomes (PDT), com seu estilo prepotente de quem tudo entende e sobre tudo opina. Herdeiro de uma família que comanda a região de Sobral, no sertão do Ceará, há mais de um século, Gomes começou sua carreira no PDS, antiga Arena, partido de sustentação da ditadura militar, e foi duas vezes candidato derrotado à Presidência da República, ambas pelo PPS: em 1998, tendo como vice Roberto Freire; e em 2002, com Paulinho da Força. Já o chefe da juventude marombada, Jair Bolsonaro, permanece à parte, com seu discurso fascistóide, secundado por uma militância entusiasmada, crédula, voluntariosa, agressiva e messiânica, que, aliás, lembra muito o ativismo petista em seus primórdios – na ação, não na intenção, evidentemente...

A vaca já está no brejo e, a cada movimento, mais afunda... O brejo é o Brasil, a vaca o Estado, em cujas tetas todos querem mamar. Se nos juntássemos, talvez ainda conseguíssemos preservar a vaca, mas não parece ser isso o que desejamos coletivamente. Morta a vaca, no entanto, é preciso lembrar, só restará o brejo...

 

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