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Temer engendra Bolsonaro

O caos em que a sociedade se encontra hoje é o caldo de cultura ideal para a pregação totalitária

Deputado Jair Bolsonaro cercado de admiradores, em Pernambuco.
Deputado Jair Bolsonaro cercado de admiradores, em Pernambuco.

O presidente não eleito, Michel Temer, conseguiu um feito inédito. Nem mesmo seus adversários mais renhidos poderiam imaginar que, um ano após conspirar nos bastidores de maneira vil e covarde pela derrubada da presidente Dilma Rousseff, estaria ele comandando um país à beira do colapso econômico, totalmente à deriva do ponto de vista social e sem quaisquer perspectivas de solução política a médio prazo. Além disso, Temer se tornou o primeiro presidente da República, no exercício do mandato, a ser denunciado por corrupção junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Se ainda conta com algum apoio no Congresso Nacional – uma instituição desmoralizada, que tem a maioria de seus membros implicados em processos na Justiça –, sua notória incompetência e o viés autoritário de suas reformas isolaram-no da população e hoje Temer amarga o segundo maior índice de rejeição em tempos de democracia – seus 7% de aprovação, segundo a Datafolha, só são maiores do que os 5% que o presidente José Sarney, de tenebrosa memória, alcançava em 1989. Com uma taxa de desemprego em torno de 14%, índice de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) previsto para este ano de pífios 0,39% e uma alarmante explosão da violência urbana, só restaria a Temer renunciar. Mas ele não tem hombridade para isso.

Para além da atitude ignóbil e irresponsável de Temer, é desprezível a maneira como as lideranças dos partidos que sonham com a Presidência da República em 2018 vêm agindo. O PSDB, cujo presidente do partido afastado por denúncia de corrupção, senador Aécio Neves, disputou com Dilma Rousseff o segundo turno das eleições em 2014 (lembram-se?), agarra-se ao que resta do governo Temer como um cão faminto devorando cadáveres no campo de batalha. A débil Marina Silva (Rede) silencia-se, o despótico Ciro Gomes (PDT) vocifera. E o PT, dissimuladamente, torce para que as coisas piorem bastante, permitindo o ressurgimento, em grande estilo, do messiânico Luiz Inácio Lula da Silva. Nenhum deles, de fato, está preocupado com o Brasil.

Estivessem, prestariam atenção no fenômeno da ampliação da simpatia dos brasileiros pela pregação totalitária. O caos em que a sociedade se encontra – responsabilidade dos políticos que vêm conduzindo o Brasil – é o caldo de cultura ideal para a fermentação de soluções como as propostas oligofrênicas do deputado Jair Bolsonaro. Conforme pesquisa Datafolha, Bolsonaro tinha 8% das intenções de voto em dezembro de 2016, 14% em abril de 2017 e 16% em junho. Seu eleitorado potencial é constituído, em sua grande maioria, por jovens que ignoram o que foi a ditadura militar, mantida pelas Forças Armadas, hoje a instituição mais confiável pela população, segundo a mesma pesquisa, com 40% de aprovação dos entrevistados – a imprensa, base da democracia, aparece como a segunda instituição confiável, mal ultrapassando os 22% de aprovação.

Só os obscurantistas defendem que os 21 anos de ditadura militar foram período de estabilidade política, econômica e social. A cada sucessão brigavam entre si os vários setores das Forças Armadas para fazer prevalecer seus interesses – golpe de 1969 que guindou o general Garrastazu Médici ao poder; rebelião de militares linha dura contra o general Ernesto Geisel; pacote de Abril de 1977 que sufocou a oposição; rebelião de militares linha dura contra o general João Figueiredo. A inflação média no período da ditadura era de 20% ao ano (contra 7,5% ao ano no período democrático), e ultrapassava os 200% ao ano quando devolveram o poder aos civis. A dívida externa chegou a 54% do PIB – hoje não alcança 40%. A corrupção grassava nas mais de 500 empresas estatais existentes, que incluíam siderúrgicas, bancos, rádios, refinarias, etc. Havia censura aos meios de comunicação e a repressão, generalizada, resultou em mortes e tortura nos porões das prisões.

Os militares destruíram os sistemas de educação e saúde. Os militares ampliaram o fosso entre ricos e pobres – o bolo do chamado milagre econômico nunca foi repartido. Mas, principalmente, os militares engendraram essa geração que hoje comanda o país.

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