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Poeta, lésbica, modernista e brasileira de adoção: como o mundo está redescobrindo Elizabeth Bishop

Uma biografia e uma peça de teatro recuperam a figura da poeta norte-americana, que construiu parte de sua obra no Rio

Elizabeth Bishop, fotografada aos 43 anos na fazenda Samambaia.
Elizabeth Bishop, fotografada aos 43 anos na fazenda Samambaia.

Em 1951, aos 40 anos, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop parte de Nova York em um cargueiro com o desejo de dar a volta ao mundo. Não é uma simples turista em busca de prazeres e inspiração. Ao se expatriar, deseja soltar lastro, escapar de um pesado fardo cheio de episódios de depressão e alcoolismo, alternados com fortes ataques de asma e surtos de eczemas, que ameaçam truncar sua carreira como escritora. A competitiva cena literária nova-iorquina, somada à solidão que ali a invade, choca-se com seu extremado acanhamento e fragilidade emocional, marcados pela ausência de um pai que, morto prematuramente, não chegou a presenciar seu primeiro aniversário, e de uma mãe que, afundada pela dor, não tardou a ser internada num manicômio e a desaparecer por completo da sua vida.

Anotações que mostram o rigor com que Bishop tratava seus poemas.
Anotações que mostram o rigor com que Bishop tratava seus poemas.

A partir de então, Elizabeth ficará às vezes sob os cuidados da família paterna, e às vezes da materna, sem chegar a encontrar o calor de um verdadeiro lar. Na verdade, quando vive com as irmãs de sua mãe, seu “sádico” tio a submete a abusos que só confessará, décadas mais tarde, ao seu psiquiatra, como revela a recente biografia Miracle for Breakfast (“milagre no café da manhã”), de Megan Marshall. Não é de estranhar que, numa entrevista à The Paris Review, Bishop tenha confessado que quando menina se sentia como uma convidada. “Acho que sempre me senti assim”, dizia. Marshall, ex-aspirante a jovem poeta e ex-aluna dela em Harvard em 1976, conta por email que Bishop “não acreditava que se pudesse ensinar a escrever, e dizia que os poemas, no seu caso, começavam como um mistério e uma surpresa, e que os concluía à base um de grande esforço e de árduo trabalho”.

O navio SS Bowplate, cujo destino era a Terra do Fogo, faz sua primeira escala no porto de Santos, e a escritora a aproveita para visitar, no Rio do Janeiro, um compatriota dela e sua mulher, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, a quem havia conhecido quatro anos antes em Manhattan. A viagem toma então uma direção imprevista: obrigada a passar semanas de cama por causa de uma intoxicação virulenta, acabará por permanecer mais de quinze anos no Brasil. Sua anfitriã, a quem todos chamam de Lotta, nascera em Paris e era filha de um magnata da imprensa carioca.

Lotta de Macedo Soares, companheira de Elizabeth Bishop durante 14 anos.
Lotta de Macedo Soares, companheira de Elizabeth Bishop durante 14 anos.

Cosmopolita e envolvida na vida cultural e política do seu país, abre-lhe de par em par as portas da sua impressionante fazenda Samambaia, em Petrópolis, 70 quilômetros ao norte do Rio. Quando a relação entre ambas se estreita, Lotta, arquiteta e paisagista autodidata, manda construir um estúdio para a poeta. Suspenso no ar como um mirante de vidro, ergue-se de costas para a casa, alheio à azáfama doméstica e arrulhado pelas águas de um riacho.

O escritor Michael Sledge reconstrói em A Arte de Perder (Leya, 2011) a relação sentimental entre as duas mulheres. Uma história vivida com intensidade e com desenlace trágico: Lotta morreu de overdose – não se sabe se acidental – durante uma visita à sua já ex-amante em Nova York, em 1967. Durante os 14 anos de vida comum, a escritora cria memoráveis peças em prosa, nas quais recupera, por exemplo, os ecos da sua difícil infância na Nova Escócia (Canadá) e em Massachusetts; publica sua segunda coletânea poética, Uma Primavera Fria, prêmio Pulitzer em 1956, e concebe um terceiro, Questões de Viagem (1965), no qual lança a pergunta: “É falta de imaginação o que nos obriga a vir / a lugares imaginados, em vez de ficar em casa?”. A paisagista carioca, por sua vez, trabalha infatigável, durante os últimos anos do relacionamento, para dar à sua cidade o imponente Aterro do Flamengo: um projeto exaustivo, que cobrará um alto preço pessoal.

Tudo o que Lotta tem de expansiva e segura, Bishop tem de tímida e introspectiva, mas da combinação desses polos opostos surge um vínculo que transformará a vida e a obra de ambas. Para Bishop, isso representou fincar raízes pela primeira vez em um lugar e se permitir ser merecedora do amor de alguém: "Às vezes, parece que só as pessoas inteligentes são estúpidas o suficiente para se apaixonar, e que só as estúpidas são inteligentes o suficiente para se permitirem ser amadas", escreveu em um caderno. Quando seus caminhos se cruzam -- Bishop já havia publicado um primeiro livro de poemas, Norte e Sul. Sledge observa que sua "escrita era um trabalho tão rigoroso que deixar um poema em um ponto aceitável podia levar anos".

Mais do que criar um mundo, como fazem muitos poetas, Bishop descreve com sobriedade o que vê, sem nunca ceder ao sentimentalismo, que detestava, e parece encorajar sossegadamente o leitor ao observá-lo mais de perto. Sua poesia é de percepção, na qual as palavras transmitem uma verdade transitória, nunca absoluta, sem entrar em detalhes em confissões ou verter frases categóricas. Em sua obra convergem, estranhamente, o impessoal com o íntimo. Bishop evitava os rótulos, quaisquer fossem eles: mulher, lésbica, modernista ou norte-americana. Sua dúzia de histórias e quatro livros de poemas, um por década desde seu começo, são um bom exemplo da exigência com a qual enfrentava cada composição.

La poeta, à esquerda, com o arquiteto Harold Leeds, o diretor Wheaton Galentine e Lotta de Macedo Soares.
La poeta, à esquerda, com o arquiteto Harold Leeds, o diretor Wheaton Galentine e Lotta de Macedo Soares.

Megan Marshall, sua biógrafa, acredita que a popularidade da escritora continuará aumentando e menciona, entre outros exemplos, a recente obra de teatro de Sarah Ruhl, Dear Elizabeth, que condensa 800 páginas de relacionamento epistolar entre Bishop e o também poeta Robert Lowell. Em um de seus melhores poemas, Bishop nos lembra de algo muito simples, embora essencial, que viver é aprender a conjugar o verbo perder: "Perca um pouco a cada dia. / Aceite austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. / A arte de perder não é nenhum mistério".

A poetisa com a cozinheira e escritora culinária Rosemary Manell.
A poetisa com a cozinheira e escritora culinária Rosemary Manell.

Marshall aponta que Bishop nos "mostra que a perda é uma experiência universal, e, ao escrever tão bem sobre esse tema, consegue criar, paradoxalmente, algo que perdura". Acrescenta que a poeta era amante do espanhol, idioma que aprendeu quando adulta e ao qual se sentia unida "já que passou vários meses durante a Segunda Guerra Mundial no México, onde conheceu Pablo Neruda, e foi então que deve ter sabido da existência do poeta Miguel Hernández, cuja Elegia tentou traduzir em 1970, e que certamente influenciou a composição de seu imortal Uma Arte, sua elegia".

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