FESTIVAL DE BRASÍLIA

'Martírio' retrata 100 anos de luta pela sobrevivência dos guarani-kaiowá

Documentário apresentado no festival de Brasília mostra o processo de exclusão da etnia indígena

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Martírio, documentário que estreou na competição do 49° Festival de Brasília, pretende acabar com essa ignorância – além de alertar o público para a situação de vulnerabilidade de cerca de 50.000 índios que têm seu direito à terra garantido pela Constituição. O filme, realizado pelo cineasta e indigenista Vincent Carreli em parceria com Ernesto de Carvalho e Tita, retrata a luta histórica dos guarani-kaiowá, resgatando seus momentos seminais, em contraposição às posturas ameaçadoras de deputados ruralistas que defendem no Congresso brasileiro os interesses de fazendeiros e do agronegócio. Sua exibição para um Cine Brasília lotado, na última quinta-feira, foi acompanhada de gritos, vaias e palmas da plateia, que não esperou a sessão acabar para manifestar sua comoção. “Foi uma reação emocionante, muito além do que a gente esperava”, confessou Carelli, que disponibilizará o filme em breve na Internet, além de distribui-lo em comunidades indígenas e instituições relacionadas a elas.

O longa percorre o tortuoso caminho entre o Mato Grosso do Sul, ao centro do poder, em Brasília, onde atualmente se decide – com a tramitação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215 – se a demarcação das terras indígenas deixará de ser tarefa exclusiva do Executivo, com a Funai, e passará ao Legislativo. Há muitos momentos marcantes. Vincent Carelli destaca os que para ele, foram impressionantes de viver além de retratar: a morte e o desaparecimento do corpo por pistoleiros do líder Nísio Gomes na comunidade do Guaiviry em 2011 (“Para os índios é muito desorientado não ter o corpo, não poder enterrar”); a mobilização dos índios na retomada de Pyelito Kue, quando foi divulgada a famosa carta (“Eles anunciavam que ficariam lá até serem mortos, não que se suicidariam, mas o entendimento geral de que haveria um suicídio ajudou muito a deter o despejo”); e o momento em que um policial federal pressiona os índios a desocupar essa mesma terra de ocupação tradicional indígena porque “uma ordem de despejo tem de ser respeitada a qualquer custo” . Esta última parte guarda uma curiosidade. “Essa foi uma cena gravada pelo tradutor que participava da conversa, a quem entregamos uma câmera”, conta Carelli.

Narrado em primeira pessoa, com farta documentação e imagens gravadas pelo diretor por mais de 40 anos, o documentário é denso e extenso, mas consegue manter desperto o interesse tanto de quem é familiar ao tema como de quem o desconhece totalmente.

Para o diretor do filme, sua grande contribuição é apresentar a gênese desse conflito, que remonta ao século XIX e à Guerra do Paraguai, tendo transitado a história brasileira até os dias atuais. "Ao longo desses 100 anos, o processo de exclusão e omissão em relação aos guarani é contínuo”, diz. Mas não só isso. Do lado dos índios, o diretor enxerga a importância de ter registrada sua narrativa, sobretudo para a reflexão das gerações atuais. “Muitos se sentem perdidos e, depois de ver ou de fazer um vídeo sobre a própria realidade, passam a pedir aos mais velhos que lhes contem a história e que lhes ensinem os costumes antigos”, revela Carelli, responsável pelo projeto Vídeo nas Aldeias – atualmente exposto na edição 32 da Bienal de Artes de São Paulo – desde 1986. Durante a produção, ele encontrou uma farta documentação que, a seu ver, tem de ser descoberta não só pelos índios, mas pela “parcela da sociedade civil que se incomoda”. "Há muitos documentos oficiais que registram esse processo e é preciso trazer tudo isso à tona”.

Martírio, cujo financiamento contou com cerca de 85.000 reais doados por mais de 1.000 pessoas via crowdfunding, é o segundo título de uma trilogia que tem início com Corumbiara – onde em 1995, em  Rondônia, 12 índios foram dizimados – e que terá fim com Adeus, capitão. Este último, ainda em fase de produção, pretende retratar, segundo Vincent Carelli, “os efeitos do capitalismo numa sociedade antes igualitária”. “O filme mostra a rede de sanguessugas que se instala ao redor dos índios que recebem indenizações financeiras e passam a se endividar”, explica. É um cinema como registro de um tempo que passa, sem nunca avançar.