O dia histórico em que nada acontecia (até as bombas de gás na Paulista)

O impeachment de Dilma Rousseff não consegue despertar as paixões que levantou meses atrás

Polícia lança bombas de gás para reprimir ato na av. Paulista.
Polícia lança bombas de gás para reprimir ato na av. Paulista.NELSON ALMEIDA

“Não sabia que Dilma iria falar hoje, mas mesmo que soubesse tampouco ouviria”, explicou ao meio-dia Sonia de Souza, 47 anos, num banco da av. Paulista, no coração de São Paulo. Um passeio pelos estabelecimentos vizinhos, mostrou que, se Sonia está cansada de um processo cujo fim (a destituição de Dilma) muitos dão por certo, não está sozinha. “Eu sabia que Dilma falaria hoje, mas, o que ela vai dizer de diferente?”, protestou Jorge Bastos, administrador de 60 anos, quando saiu para almoçar. “Ela insiste que está sofrendo um golpe de Estado. Hoje não vai mudar nada.” Elcio Copesky, funcionário público de 55 anos, concorda: “Eu só quero que isso acabe agora porque esse processo está atrasando todo o país”, diz ele dando baforadas num cigarro. “É claro que [o presidente interino] Temer não vai mudar nada, porque é mais do mesmo, mas pelo menos o país voltará a andar.” O enfado geral tem reflexos nos números das pesquisas de opinião. Segundo pesquisa Datafolha, do mês passado, entre Dilma e Temer, 50% preferem que o presidente interino fique onde está. Mas 62% dizem estar de acordo com uma hipotética renúncia dos dois para que sejam convocadas novas eleições.

Em Brasília também se notou certo esgotamento em relação ao julgamento político da presidenta. Em abril, quando o processo ainda estava na Câmara dos Deputados, 100.000 pessoas saíram às ruas. Nesta segunda, no lado de fora do Senado havia uma centena de manifestantes que defendiam o Partido dos Trabalhadores de Dilma Rousseff, cercados por vendedores ambulantes que ofereciam churrasquinhos, pastéis ou bebidas. “Viemos nos manifestar a favor da democracia”, explicou Lucineide Lucinda, de 51 anos, que tinha viajado 550 quilômetros desde Minas Gerais. “Sabemos que aí dentro só tem ladrões”, insiste, apontando para o edifício em frente. Um funcionário público de Brasília, Valter Loiola, de 64 anos, concordou. “Não podemos entregar o país aos golpistas com a mão aberta”.

Durante meia hora foi possível encontrar cerca de 12 manifestantes, 52 policiais descansando dentro de um ônibus e dois vendedores ambulantes. “Não consegui vender nada. Nem uma bandeira nem um boné”, disse Paulo Anunciação Alves, de 44 anos. A baixa frequência desagradou especialmente André Rhouglas, publicitário desempregado de 55 anos. Ele foi o primeiro a chegar aqui para se manifestar a favor do impeachment porque Dilma “não pôs freios à corrupção”, conta. “As pessoas pensam que Dilma já caiu, mas ainda não caiu. Temos de vir aqui para pressionar os senadores. Caso contrário, corremos o risco de deixar Dilma na presidência”.

Essa seria a pior notícia que se poderia dar a Elcio Copesky, o funcionário público da avenida Paulista. “Eu só quero que isso acabe.” Não muito longe dele, Rodrigo Mendes andava pela rua com os olhos fixos no celular. Não estava acompanhando o impeachment da presidenta eleito, mas caçando Pokémon. “Eles sempre podem chegar a um acordo. Por isso eu não me interesso por política e não por isso não voto”.

Horas depois, a principal artéria de São Paulo e principal palco de manifestações da cidade veria a política e a repressão policial colocar a normalidade da zona de pernas para o ar de novo. Concentrados desde às 17h na região da Paulista com a Consolação, os manifestantes convocados pelas frentes pró-Dilma Povo Sem Medo e Brasil Popular iniciaram uma caminhada pela avenida, mas encontraram uma barreira policial. Quando tentaram rompê-la, a polícia respondeu com bombas de gás. Ao menos uma pessoa foi detida. Havia 2.000 pessoas no ato, segundo os organizadores e a PM não divulgou estimativa. 

Com informações da Agência Brasil