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Agosto seco põe em xeque planos otimistas de Alckmin para crise hídrica

Obra para socorrer o Sistema Alto Tietê inaugurada dois meses atrás encalha em rio seco

María Martín

Desde o dia 26 de julho que São Paulo não vê chuva. A falta de precipitações escancarou uma realidade pior da prevista pelas autoridades e até o governador Geraldo Alckmin (PSDB), negacionista da crise hídrica, passou de dizer que ninguém ficou sem água a pedir à população para economizar. “Neste mês de agosto estamos enfrentando de novo um mês atípico. A média para o mês [de chuva] é em torno de 40 milímetros, nós estamos com zero e sem nenhuma previsão para os próximos dez dias”, disse Alckmin uma semana atrás.

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Sem chuvas no mês de agosto, uma das quatro obras emergências projetadas para evitar um rodízio drástico na região metropolitana de São Paulo não está em operação após quase dois meses de sua inauguração. O rio Guaió, com cuja água pretendia-se socorrer o Sistema Alto Tietê, corre esquálido de Mauá, no ABC, até Suzano. A transposição de 1.000 litros por segundo, prometida para “garantir o abastecimento hídrico durante o período seco” e que beneficiaria cerca de 300.000 moradores, está longe de cumprir as previsões. “Não há água para retirar do rio”, admitiu o superintendente de Produção da Sabesp, Marco Antônio Lopez Barros, durante uma apresentação sobre as obras emergenciais da empresa para o Comitê da Bacia do Alto Tietê.

Apesar das críticas, prêmio à transparência

A Sabesp acaba de ganhar o Troféu Transparência, iniciativa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (ANEFAC), em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (FIPECAFI) e a Serasa Experian.

A companhia, criticada precisamente pela falta de transparência na gestão da crise, divide o prêmio com outras empresas de capital aberto com receita líquida acima dos cinco bilhões de reais como Ambev, AES Eletropaulo ou a Vale.

Os contratos de demanda firme, que beneficiam mais de 500 grandes consumidores com tarifas diferenciadas apesar da seca, só foram divulgados graças a um procedimento administrativo do Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema) do Ministério Público Estadual sobre a crise hídrica. "É importante ressaltar que a Lei de Acesso à Informação não foi respeitada pela Sabesp. Estamos divulgando os documentos porque entendemos que garantir o acesso à informação pública é fundamental para garantir o direto humano à água", disse em maio Mariana Tamari, coordenadora do projeto de acesso à informação e direito à água da Artigo 19, responsável pela publicação junto à Agência Pública.

A Sabesp, procurada por este jornal, também não deu explicações de por que continuou assinando esse tipo de contratos após a agência reguladora Arsesp proibir em junho do ano passado, diante da gravidade da crise, que o fizesse.

A obra, que custou quase 29 milhões de reais, era “essencial” e assim foi apresentada enquanto o próprio Alckmin ligava as bombas – hoje desligadas, conforme constatou o diário Estado de S. Paulo – no dia 29 de junho. Alckmin, no entanto, nega. O governador disse na segunda-feira que a transposição “está funcionando”. O sistema Alto Tietê, o beneficiário dessa transposição, reserva hoje 15% da sua capacidade e está próximo do colapso.

No Cantareira, que hoje opera com 13% de capacidade contando o volume morto, o cenário supera as previsões mais pessimistas com as que a Sabesp trabalhava até hoje para avaliar riscos. O nível do reservatório caiu nesta terça pelo 17º dia consecutivo. Apesar da situação crítica, no mês passado, a Sabesp solicitou autorização aos órgãos reguladores para aumentar em agosto – e não reduzir, como acordado – a captação de água do Cantareira de 13.500 litros por segundo a 14.500. A petição contraria a estratégia da Sabesp de aumentar, mediante obras, a reserva do Alto Tietê para aliviar o Cantareira, mas é consequência do segundo atraso do principal dos projetos emergenciais da companhia para evitar o rodízio em São Paulo: a transposição do Rio Grande, braço limpo da represa Billings, para o Alto Tietê foi prometida para maio, mas só estará pronta em outubro.

Em Campinas, a situação é considerada crítica e, pela primeira vez na crise hídrica, empresas de saneamento, indústrias e agricultores terão que reduzir a captação de água em até 30% na bacia do rio Camanducaia, medida que afetará o abastecimento de sete cidades. As restrições, em vigor desde esta terça-feira, poderão impactar o rio Jaguari, grandes indústrias e o polo petroquímico de Paulínia, o maior da América Latina, e o mais afetado pela crise hídrica, segundo a avaliação da Federação de Indústrias de São Paulo (Fiesp). A bacia do rio Jaguari está em estado de alerta. A vazão hoje é de 3.820 litros por segundo e entrará em restrição também se cair até 2.000 litros por segundo.

Contas positivas

Apesar das dificuldades, a Sabesp pode comemorar os resultados financeiros do segundo trimestre. O lucro da companhia, de 337,3 milhões de reais, aumentou 11,5% em relação ao mesmo período de 2014. Os benefícios chegam após um reajuste de 15,2% na tarifa em junho, e de outro de 5,4% em abril. Se compararmos, no entanto, os resultados semestrais, a Sabesp perdeu 16% do lucro líquido em comparação com o ano passado. "A empresa não pode colapsar do ponto de vista financeiro. Senão compromete em definitivo qualquer alternativa de superar essa crise hidrológica. Estamos vendo que ela está durando muito mais do que se imaginava, portanto a sustentabilidade econômico-financeira da companhia é vital para que se faça essa travessia", disse o diretor econômico-financeiro da Sabesp, Rui Affonso, ao apresentar os resultados nesta terça.

O balanço anual de 2014 fechou com queda de lucro de um bilhão de reais. Hoje, todos os bairros da região metropolitana de São Paulo, onde moram mais de 20 milhões de pessoas, sofrem restrições de abastecimento de até 20 horas por dia.

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