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A Universal abre seu ‘templo ostentação’

Em meio a uma queda no número de fiéis, a igreja de Edir Macedo inaugura seu novo espaço

O templo para 10.000 pessoas em São Paulo custou 680 milhões de reais doados por fiéis

O chamado Templo de Salomão, em São Paulo.
O chamado Templo de Salomão, em São Paulo. F. PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Às 19h desta quinta-feira, os narradores que transmitiam ao vivo pela TV Universal a cerimônia de abertura do Templo de Salomão, espaço inaugurado pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no Brás, região central de São Paulo, anunciavam a chegada da Arca da Aliança, um baú banhado a ouro, com dois querubins no topo, que segundo informavam era igual a que era levada pelos judeus, na antiguidade, antes das guerras.

O baú era carregado por seis sacerdotes, em vestes brancas e cintos dourados, que partiram da outra mega-sede da Universal, a 500 metros dali, e caminharam lentamente em uma marcha ritmada pela avenida Celso Garcia, uma das principais vias da região central da capital paulista, que foi parcialmente interditada para receber o tapete vermelho por onde eles circularam.

"É um presente dado por Deus termos o Templo de Salomão também no Brasil", ressaltou o narrador na TV, em referência aos dois templos de Salomão, construídos pelos judeus no Monte Moriá, em Jerusalém, destruídos ambas as vezes, a última em 70 d.C pelos romanos.

Esse templo ostentação tem o objetivo de reduzir os demais símbolos religiosos a nada

Ricardo Mariano, professor de sociologia da religião da USP

Em meio a uma queda no número de fiéis, a igreja, um dos principais expoentes do pentecostalismo brasileiro, vertente religiosa que mais cresce no Brasil, inaugurou nesta quinta-feira seu “templo ostentação” – uma estrutura de 100.000 metros quadrados de área construída com espaço para até 10.000 fiéis.

O chamado Templo de Salomão, cujo prédio principal atinge os 56 metros de altura, tem cadeiras trazidas da Espanha, é forrado por 40.000 pedras importadas de Israel e cercado por oliveiras vindas do Uruguai. Do lado de fora do prédio principal, há ainda um tabernáculo e um cenáculo, além de um espaço para uma escola bíblica que abriga 1.300 crianças e 50 quartos para receber pastores da igreja, incluindo seu controverso líder, o bispo Edir Macedo, que se tornou um magnata da comunicação ao adquirir a TV Record, uma das maiores emissoras brasileiras, em 1989.

Os principais detalhes do projeto, cuja construção durou quatro anos, foram mantidos em sigilo até a inauguração. Ele custou 680 milhões de reais, coletados, segundo a Universal, entre os fiéis que doaram dinheiro à igreja. O dízimo (uma parcela mensal de 10% do salário) é uma das partes mais importantes da liturgia da igreja. Mesmo nesta quinta-feira, a imprensa foi proibida de entrar no templo e os presentes não puderam fotografar. Apenas as câmeras das TVs oficiais do bispo filmaram o evento. As imagens foram transmitidas por dois televisores à imprensa que estava no local.

A magnitude do templo desbanca os principais símbolos religiosos brasileiros, entre eles os do catolicismo, como a basílica de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo, até então o maior do país, e o Cristo Redentor, no Rio. O catolicismo ainda é a religião dominante no Brasil, mas tem perdido espaço nos últimos anos para os evangélicos. De acordo com o último Censo, de 2010, enquanto o número de fiéis das igrejas pentecostais saltaram 41% desde 2000, a igreja católica apostólica romana perdeu 1%. A Universal, no mesmo período, perdeu fiéis para outras igrejas pentecostais concorrentes. Atualmente, tem 1,8 milhão de fiéis, ante os 2,1 milhões de dez anos atrás, apontam os dados demográficos do país.

O crescimento dos pentecostais acontece especialmente entre as populações mais pobres, aponta Ricardo Mariano, professor de sociologia da religião da USP. “A religião oferece soluções mágico-religiosas para os problemas cotidianos que afetam os mais pobres, como a cura doenças, a prosperidade financeira e profissional. A ideia é a de que Deus continua atuando na vida das pessoas, especialmente na dos que são mais generosos em suas ofertas, no caso da Universal”, explica ele. A troca de dízimo por bênção ficou conhecida como “teologia da prosperidade” e rendeu má-fama à IURD nos últimos anos, considerada a mais agressiva nos métodos de arrecadação – Macedo já foi acusado pela Justiça, em 2009, de apropriação ilegal de dízimo e de usar as doações para construir seu patrimônio pessoal, hoje avaliado em 1,1 bilhão de dólares (2,5 bilhões de reais), segundo a revista Forbes. A igreja ressalta que ele foi inocentado.

Fiel ora no templo.
Fiel ora no templo.

Em um vídeo divulgado pela TV Globo em 1995, ele foi flagrado ensinando outros pastores a pedir dinheiro. “Tem aqueles [fiéis] que são tradicionais, que vão falar [que somos] falsos profetas. Mas tem os outros que vão falar: 'Eu estou cansado de ler a bíblia e não acontecer nada na minha vida'. É esse o que vai ficar do nosso lado. Vai [falar]: ‘É tudo ou nada'. E vai por tudo lá. Quem embarcar nessa vai ser abençoado, quem não embarcar...”, dizia ele, entre risos.

É esse tipo de postura, na opinião de Mariano, o que tem diminuído o prestígio da igreja perante as outras pentecostais. “A Universal é mal vista nos meios evangélicos”, diz ele. “Ela ficou conhecida como o supermercado da fé. Passou, então, a construir grandes catedrais, que visavam a romper com essa imagem deletéria e angariar maior respeitabilidade religiosa”, explica o sociólogo. “Esse templo ostentação tem o objetivo de reduzir os demais símbolos religiosos a nada.”

A opinião é compartilhada pelo também pastor Silas Malafaia, da concorrente Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Em entrevista à revista Veja, ele afirma que a intenção de Edir Macedo é transformar o templo na “meca” da Universal, um “ponto de peregrinação”, assim como a basílica de Aparecida é para os católicos. “Ele próprio tem usado uma estola para entrar lá dentro, e também um quipá. Isso se trata de uma estratégia para dar uma aura de que ali é um lugar muito especial e único”, afirmou ele, em referência a Macedo, que deixou a barba crescer, nos moldes da dos profetas, em meio a uma promessa para que a obra ficasse pronta no prazo.

As referências ao judaísmo na abertura ficaram evidentes. Além da Arca da Aliança, trechos do antigo testamento foram projetados na parede da igreja e menorás enfeitavam as laterais do templo. "Edir Macedo passou a adotar símbolos do judaísmo para tentar adquirir uma marca de profeta do velho testamento", acredita o professor da USP.

Influência política

O templo abriu em meio a uma polêmica: o Ministério Público denunciou que o tipo de alvará de funcionamento obtido pela igreja era temporário, para reforma e não para novas construções -a igreja diz que não foi notificada da denúncia.

A Universal exerce um enorme poder político no país, algo que pode ser refletido no desfile de autoridades presentes na inauguração nesta quinta. Além da presidenta Dilma Rousseff (PT), o governador Geraldo Alckmin (PSDB) participou da cerimônia de inauguração, ao lado de ministros do Supremo Tribunal Federal e de políticos de todo o país.

Os neopentecostais têm, atualmente, mais de 70 deputados federais atuantes –ante os 18 eleitos em 1986. Eles formam uma Frente Parlamentar e, semanalmente, realizam cultos no Congresso. Para os movimentos sociais, a dependência que Rousseff tem do apoio dos evangélicos freia as principais agendas progressistas do país, como a descriminalização do aborto e as garantias de casais homoafetivos.

A universal conseguiu, inclusive, eleger um senador pelo Rio de Janeiro. Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo, é agora candidato ao Governo do Estado nas eleições deste outubro e está tecnicamente empatado em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Nesta semana, ele voltou às manchetes, ao afirmar que o “homossexualismo é pecado”.

Na igreja, nesta quinta, Edir Macedo terminou a cerimônia com uma pregação para todas as pessoas. "Não importa a religião, o sexo, nada", disse. Na frente dos principais políticos do país, chamou os presentes para a frente do palco onde estava. "[Jesus,] Faça acontecer algo novo na vida dessas pessoas porque o povo está cansado de fracassos. De fracassos na saúde, na segurança". Ao final, profetizou: "Agora vou com a presidenta para a conferência de imprensa". No cubículo preparado para os jornalistas, todos prepararam suas câmeras. Rousseff não compareceu.

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