Halyna Hutchins, a promissora estrela de fotografia cinematográfica morta por um tiro acidental

A diretora, uma ucraniana que cresceu em uma base soviética no Círculo Polar Ártico, vinha despontando no campo da cinematografia

A diretora de fotografia Halyna Hutchins na festa de abertura do Sundance Film Festival de 2018 em Park City, Utah.
A diretora de fotografia Halyna Hutchins na festa de abertura do Sundance Film Festival de 2018 em Park City, Utah.Mat Hayward (Getty)
Los Angeles -

Em um set, o diretor de fotografia é quem empresta seus olhos ao cineasta. Para Halyna Hutchins, diretora de fotografia de Rust, esse esforço custou sua vida. Segundo a investigação policial, foi um disparo de uma arma de fogo que o ator e também produtor do filme, Alec Baldwin, usou para a filmagem de época, que matou a ucraniana de 42 anos e também feriu o diretor do filme, Joel Souza. O acidente aconteceu no Rancho Bonanza Creek, em Santa Fé (EUA), local habitual de muitos faroestes —de Um certo capitão Lockhart (1955) a Cowboys & Aliens (2011) e Os Indomáveis (2007)—, como o que eles estavam rodando naquele momento. A morte desta “sonhadora incansável”, como ela própria se descrevia nas redes sociais, foi recebida com consternação numa indústria em que, apesar de transcorridos muitos anos de casos semelhantes, como o que tirou a vida de Brandon Lee em 1993, incidentes desse tipo continuam acontecendo. E também com recordações do trabalho de uma das poucas diretoras de fotografia em um setor predominantemente dominado por homens.

A carreira de Hutchins foi breve, embora ela tenha sido descrita em 2019 na revista American Cinematographer como uma nova estrela no campo da cinematografia. Já naquela época Halyna ria de sua formação, fruto do ‘nada’ em que cresceu: uma base militar soviética no Círculo Ártico “cercada por renas e submarinos nucleares”, segundo seu site.

Sem muito mais o que fazer por lá, esta “amante da adrenalina”, nas suas palavras, pegou uma câmara e filmou as próprias experiências em esportes radicais como o paraquedismo ou na espeleologia. Seus estudos na Inglaterra a conduziram para o jornalismo internacional, mas isso foi apenas um desvio para se encontrar de novo com a câmera, filmando documentários no Leste Europeu. Foi daí que surgiu o desejo de buscar a narrativa e a luz de seus personagens. Seu sonho era encontrar seu Wong Kar-wai, um diretor que ela admirava e com quem desejava trabalhar. Para isso, já nos Estados Unidos, fez de tudo para estar num set. Foi assistente de produção, integrante da equipe de eletricistas, até trabalhou com fotografia de moda para aprender enquanto abria caminho entre um curta-metragem e outro.

Muitos dos que ela conheceu nessa jornada estão entre os que agora se lembram dela nas redes sociais, retratando uma mulher incansável que queria conquistar o mundo. “Sempre me lembrarei do dia em que nos conhecemos, de nossas aventuras juntos e da última vez que te vi, tomando um mezcal”, lembra o cineasta mexicano Rodrigo Iturralde em sua página no Facebook. “Só espero que tudo isso não seja verdade e que algum dia façamos um filme em Kamchatka”, ainda deseja quem a conheceu durante as filmagens do piloto de The Providers. Haly, como os amigos a chamavam, também ganhou o apelido de “rock star da fotografia”, como lembra a amiga e colega Elle Schneider. Estava sempre de jeans surrados, cabelo curto, jaqueta de couro preta, em busca do melhor ângulo.

“É DEVASTADOR”, escreveu em maiúsculas nas redes sociais a diretora de elenco Sidra Smith, que trabalhou com Hutchins na série de televisão A Luv Tale, de Vanessa Williams. Elas tinham se falado pouco antes de Halyna começar a filmar Rust. “Estava tão feliz, e eu também. O trabalho é muito difícil para as mulheres que se dedicam à cinematografia e essa era uma GRANDE oportunidade”, acrescentou sobre o tempo que passou com essa profissional, que é casada e tem um filho.

Armas cenográficas

Além daqueles com quem trabalhou, como Joe Manganiello, protagonista do filme Archenemy, em que Hutchins era a diretora de fotografia e que também se somou às mensagens de pesar, são muitos os que recordam uma carreira promissora. Entre eles a colega de profissão e a primeira mulher candidata ao Oscar na categoria de melhor fotografia, Rachel Morrison. “Estou destroçada. Principalmente porque não tenho dúvidas de que essa tragédia poderia ter sido evitada”, afirmou em sua página no Instagram, e acrescentou: “Não há razão nenhuma para usarem armas cenográficas quando não custa nada adicionar o tiro na pós [produção]”.

A morte de Hutchins está sendo investigada como um acidente e até o momento não foi apresentada nenhuma acusação. Baldwin, candidato ao Oscar por The Cooler – Quebrando a banca e com uma longa carreira em Hollywood, rompeu o silêncio na tarde desta sexta-feira, quando em algumas mensagens no Twitter expressou seu “choque e tristeza” por esse trágico acidente e acrescentou que estava cooperando com a polícia na investigação e em contato próximo com a família da falecida.

Amiga de Baldwin, a atriz Debra Messing, pediu no Twitter respeito ao protagonista de 30 Rock em meio à dor pela morte da diretora. “Deram a ele uma arma que usou na cena. Então aconteceu algo catastrófico”, disse. Os apelos para o fim do uso de armas nas filmagens são tão numerosos como os pesares pela morte de Halyna e as recordações dela e de seu trabalho. Especialmente porque alguns meios de comunicação começam a publicar informações vazadas de um e-mail interno do sindicato dos trabalhadores de Hollywood, segundo as quais a morte poderia ter sido causada pelo disparo acidental de munição real.

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