Faltam testes para mensurar o coronavírus na América Latina

Assim como o resto do mundo, a região tem um déficit dessa ferramenta fundamental para lutar contra a pandemia

Agentes da Prefeitura de Bogotá fazem pesquisa entre moradores de comunidade da capital colombiana.
Agentes da Prefeitura de Bogotá fazem pesquisa entre moradores de comunidade da capital colombiana.DIANA SANCHEZ / AFP

Se há algo em que estão de acordo todas as estratégias mundiais de combate ao coronavírus SARS-CoV-2 é quanto à necessidade de ampliar a capacidade de que todos os países submetam sua população a exames em busca de casos positivos de infecção. Afinal de contas, diante de qualquer epidemia viral seria ideal poder distinguir três grupos dentro da população: as pessoas que portam o vírus e podem transmiti-lo; quem já o portou no passado, mas deixou de ser contagioso; e o grupo ainda vulnerável. Entretanto, há dois problemas centrais que não conseguimos resolver para chegar nem sequer perto desta meta: primeiro, nem todos os exames são capazes de distinguir entre o segundo e o terceiro grupo, embora sirvam para o primeiro. Essa é a principal limitação dos exames RT-PCR, os mais difundidos hoje em dia. Os testes capazes de discriminar entre infectados passados e nunca infectados são novos (alguns não muito confiáveis) e ainda escassos no mundo: embora alguns países já os tenham adquirido e usado, ainda não constituem a maior parte da testagem mundial. E aí está o segundo problema: o exame RT-PCR é escasso. Mais concretamente, o mercado internacional dos reagentes necessários para poder processá-los em laboratório está muito saturado, por isso os países têm tanta dificuldade em ampliar sua capacidade.

Com esse panorama, cada nação latino-americana está travando sua própria luta para conseguir se aproximar, mesmo que ligeiramente, desse ideal. Os países que fornecem dados sobre os exames feitos diariamente avançaram nesse objetivo de maneira desigual, ao menos se seguirmos o critério da plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford, e as medirmos no número acumulado per capita. Alinhando todos os países a partir do momento da primeira morte (as autoridades incrementarão suas capacidades na medida em que considerarem que a epidemia em seu território merece atenção e investimento), o Chile é o mais destacado, com folga. No outro extremo, o México mostra um déficit considerável nos exames e se vê superado em 20 vezes pelo país andino, apesar de se encontrar numa fase mais avançada da propagação.

Observando-se como variou a taxa de positivos detectados sobre o total de testes feitos diariamente em cada país, podemos complementar nossa perspectiva: a priori, esse índice deveria se manter em volumes baixos ou inclusive cair progressivamente. Isso indicaria que o país em questão estaria calibrando de maneira estável sua necessidade de testes. Mas atenção: também poderia significar que estão seguindo critérios completamente errôneos para decidir a quem aplicar os exames, e isso resultaria em um aumento inesperado de mortes pela covid-19 que nenhum país na região sentiu até agora, com a exceção do Equador, justamente o que apresenta níveis mais elevados nesse indicador.

Observando-se como variou a taxa de positivos detectados sobre o total de testes feitos diariamente em cada país, podemos complementar nossa perspectiva: a priori, esse índice deveria se manter em volumes baixos ou inclusive cair progressivamente

O crescimento progressivo no México e Panamá é igualmente chamativo. Aproximam-se paulatinamente dos níveis do país mais saturado pelo vírus em todo o continente. No outro extremo estão a Colômbia, o Paraguai e a Argentina; este último, com clara redução em seus índices. Sempre que esses volumes não convivem com níveis incomuns de mortalidade geral, o que indicaria uma estratégia errada de testagem, parece que esse grupo de países estaria calibrando a testagem com mais precisão. Esse é o paradoxo dos exames: nas primeiras etapas de uma epidemia, uma positividade baixa é requisito necessário, embora não suficiente, para confirmar que você está se aproximando ao máximo da real situação do surto no conjunto da sua população.

Mas, insisto, esse indicador não serve por si só para dimensionar o desconhecido. Para esta tarefa é preciso um pequeno salto de fé. Ou melhor, um salto baseado em evidências razoáveis. Como saber o que você não sabe, justamente porque não tem tantos exames quanto gostaria? Um grupo de pesquisadores da London School of Hygiene and Tropical Medicine propõe um método: se conhecermos aproximadamente a letalidade real média do vírus (o percentual de pessoas que morrerão por causa dele em relação ao total de casos existentes), e também tivermos a letalidade observada em cada país (número de mortos entre os casos detectados), a diferença entre ambas daria uma ideia da lacuna que existe entre os casos reais e os confirmados. Digamos que sabemos que o vírus mata a 1 em cada 100 indivíduos que o contraem, e em um país determinado observamos que, de 1.000 testes positivos, 100 faleceram: 10%. Faria sentido inferir que, se o vírus não foi mais letal neste país, há outros 900 casos que passaram despercebidos para as autoridades. É preciso ajustar por composição demográfica (o que esse modelo não faz) e pelo atraso entre a data de contágio e a morte (o que ele faz).

Para obter uma aproximação desse número, necessitamos, portanto, uma ideia da letalidade real. Ainda é cedo para conhecê-la com certeza, mas existem estudos que a conseguiram calibrar sob toda uma série de métodos. Por exemplo, um grupo do Imperial College, em artigo na revista acadêmica The Lancet, a situou em 1,4%. O Centro para a Medicina Baseada em Evidências de Oxford variou sua estimativa entre 0,5% e 0,7% na última semana. Ancorando-me nestes dois pontos como referência (letalidade de 0,6% a 1,4%), apliquei o método do grupo da London School para estimar essa cifra de subnotificação. O resultado é que o México, por exemplo, poderia estar deixando de contabilizar 19 de cada 20 casos. Uma cifra muito acima da estabelecida até agora pelo sistema Sentinela implantado pela Secretaria da Saúde, que tem em todo caso a virtude de ser um dos poucos no mundo que reconhecem o tamanho do erro implícito nos casos detectados por exame. O Brasil se encontra em uma faixa semelhante, próximo das magnitudes das maiores epidemias ativas no mundo, as da Itália e Espanha. Colômbia, Equador e Peru, por sua vez, só registrariam cerca de 1 em cada 10 casos do total real.

Esse é o paradoxo dos exames: nas primeiras etapas de uma epidemia, uma positividade baixa é requisito necessário, embora não suficiente, para confirmar que você está se aproximando ao máximo da real situação do surto no conjunto da sua população

O Chile é novamente o país mais bem posicionado dos analisados na região, seguido do Panamá, Cuba e Argentina. Precisamente aqueles que davam melhor resultado nos indicadores de testagem. Efetivamente, é fácil comprovar que existe certa correlação (imperfeita) entre ambas as variáveis.

Em suma, a imagem que deixa a região é que, como ocorre no resto do mundo, ela está longe do ideal mencionado no primeiro parágrafo. Nem sequer a Coreia do Sul, citada nas últimas semanas como modelo a seguir em medição e rastreamento, teve uma imagem perfeita de sua própria epidemia. É por isso que muitos epidemiologistas consideraram historicamente que o acompanhamento perfeito de uma epidemia causada por um vírus respiratório é praticamente uma quimera: contagia-se muito rápido e com contatos não facilmente classificáveis. Mas a gravidade da atual pandemia é que obrigou a comunidade científica e a de saúde pública a revisarem esta consideração, chamando a ampliar na medida do possível as capacidades nacionais para separar entre os três grupos-chaves: infectados contagiosos, infectados passados, não infectados. Seja mediante o exame RT-PCR ou por outros tipos de testes, veremos se nos próximos meses os países latino-americanos conseguem melhorar seu poder de medição.

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