Pandemia de coronavírus

Mandetta é demitido por Bolsonaro

Decisão de presidente foi anunciada no Twitter pelo agora ex-ministro. Nelson Teich comandará Ministério da Saúde. Mandatário diz que exoneração acontecerá “nas próximas horas”

Luiz Henrique Mandetta, em uma entrevista no Planalto. Ele foi demitido do Ministério da Saúde nesta quinta-feira.
Luiz Henrique Mandetta, em uma entrevista no Planalto. Ele foi demitido do Ministério da Saúde nesta quinta-feira.Ueslei Marcelino / Reuters


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A novela acabou. Luiz Henrique Mandetta foi demitido do posto máximo no Ministério da Saúde por Jair Bolsonaro em plena crise do coronavírus, que já provocou ao menos 1.924 mortes no país. O anúncio foi feito pelo próprio Mandetta no Twitter, na tarde desta quinta-feira. “Quero agradecer a oportunidade que me foi dada, de ser gerente do nosso SUS, de pôr de pé o projeto de melhoria da saúde dos brasileiros e de planejar o enfrentamento da pandemia do coronavírus, o grande desafio que o nosso sistema de saúde está por enfrentar.”, escreveu o ex-ministro. Para substituir Mandetta, Bolsonaro escolheu o médico oncologista Nelson Teich. Teich se reuniu na tarde desta quinta-feira com o presidente, pouco antes de o mandatário se encontrar com o próprio ex-ministro.

Logo após o anúncio, Mandetta começou um pronunciamento ante os jornalistas em Brasília. Com voz embargada, ele agradeceu a equipe na pasta e prometeu ajudar na transição. Enquanto o ex-ministro ainda falava, Bolsonaro começou seu próprio pronunciamento no Planalto. “Foi um divórcio consensual”, disse o presidente, abatido, falando pausadamente. Segundo o mandatário, a exoneração formal de Mandetta estava prevista para acontecer nas próximas horas.

O presidente voltou a criticar as medidas de isolamento social defendidas pelo Ministério da Saúde até agora, por causa do impacto na perda de empregos. Prometeu uma mudança paulatina nas diretrizes, ao lado do futuro ministro Nelson Teich. “Gradativamente temos que abrir o emprego no Brasil”, afirmou Bolsonaro. Teich, por sua vez, fez uma breve fala dizendo que nenhuma atitude será tomada “de maneira brusca” e prometeu aumentar a testagem, um dos grande gargalos do combate do coronavírus até agora, pela falta de exames e déficit de capacidade de processamento dos laboratórios. De momento, o novo ministro começou por tentar mostrar afinidade com o discurso de Bolsonaro, dizendo que não há antagonismo entre economia e saúde. “Existe um alinhamento completo entre mim e o presidente”.

Crise política e artilharia contra Maia

As reações à saída de Mandetta, dada como certa há alguns dias, foram imediatas. Em alguns pontos de São Paulo, de Brasília, do Rio e de Fortaleza, houve panelaços de protesto, que se repetiram por volta das 20h30. Em pouco mais de um mês de crise do coronavírus, Mandetta viu sua popularidade crescer a níveis lulistas: segundo pesquisa Datafolha, 76% dos brasileiros aprovam a gestão do Ministério da Saúde, mais do que o dobro do que aprovam a presidência de Bolsonaro. Nesta quarta-feira, pesquisa do Atlas Político mostrou que 76% da população era contra uma saída do ex-deputado do posto, que chegou ao posto após se aproximar de Bolsonaro antes da campanha de 2018.

A demissão foi uma decisão eminentemente política. O presidente não estava de acordo com a conduta de Mandetta na defesa das medidas de isolamento social ou da não aplicação da cloroquina de maneira generalizada para o tratamento da covid-19. Isolado politicamente, Bolsonaro viu uma chance de se livrar do ministro-estrela após ter a sinalização de seus ministros militares de que não se oporiam mais à saída do ministro, como tinham feito antes. Restava o apoio à Mandetta nas classes política e médica e, contra isso, Bolsonaro mandou produzir nesta semana um dossiê para justificar a demissão de seu ministro. Conforme revelado pela revista Veja, o presidente pediu que fossem investigadas eventuais irregularidades cometidas pelo próprio ministro e por dois de seus assessores: José Carlos Aleluia e Abelardo Lupion. Os dois são ex-deputados pelo DEM, assim como Mandetta, e davam expediente no ministério como assessores especiais na área de gestão.

Segundo a revista, um grupo formado por funcionários da Agência Brasileira de Informações (Abin) e do Exército apuram informações sobre pagamentos suspeitos, contratos que foram assinados pelos assessores Lupion e Aleluia. Bolsonaro queria ter um dossiê para derrubar o ministro. Não chegou a apresentá-lo na reunião que oficializou a exoneração. No pronunciamento que fez após a demissão, Mandetta elogiou ambos. “Os dois melhores conselheiros políticos que eu poderia ter, o Abelardo Lupion e José Carlos Aleluia”.

Em seu discurso de despedida, Mandetta também afirmou que trabalhará na saúde na esfera internacional, sem detalhar o que isso seria, e pediu que os servidores sigam defendendo “a vida, a ciência e o Sistema Único de Saúde”, o que virou sua palavra de ordem nas últimas semanas. “A ciência é a luz. É o iluminismo. Apostem todas as suas energias através da ciência”, lançou, em mais recados a Bolsonaro. Também pediu que os funcionários que ficarem no ministério ajudem o seu sucessor no cargo. E orientou a população a seguir as recomendações de prefeitos, governadores e técnicos que defendem o isolamento social. "Não pensem que estamos livres de um pico de ascensão dessa doença”, advertiu.

Diversos partidos emitiram notas e fizeram declarações oficiais lamentando a demissão de Mandetta. O líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio, afirmou que o ministro foi demitido por fazer um bom trabalho. O deputado federal e primo de Mandetta, Fábio Trad (PSD-MS), disse que ser exonerado do cargo por Bolsonaro é ser “absolvido pela história”.o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), afirmou que a saída do ministro representava uma enorme perda para o Brasil. Presidente da frente parlamentar da medicina e membro da comissão externa do coronavírus na Câmara, Hiran Gonçalves (PP-RR), resignou-se dizendo que a demissão de Mandetta era só uma questão de tempo. “Sua situação tornou-se insustentável após os últimos enfrentamentos com o presidente”.

Bolsonaro também recebeu uma nota de pesar conjunta vinda do Congresso. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre, do Senado, ambos do DEM como Mandetta, lançaram nota única lamentando a troca e alentando protocolarmente o substituto Teich.

Nem bem digerida a tensão provocada pela troca de Mandetta, mais tarde, o presidente aprofundaria as rusgas com o Parlamento. Ao canal CNN Brasil, Bolsonaro acusou Maia: “O sentimento é que ele não quer amenizar os problemas, e quer atacar o Governo federal, enfiando a faca no Governo federal, no sentido figurativo, para resolver os problemas de outro lado. Vão matar a galinha dos ovos de ouro, que é o Governo federal. Parece que a intenção é me tirar do Governo”, reclamou. Momentos depois, o presidente da Câmara respondeu, no mesmo canal: “Ele joga pedra e o Parlamento vai jogar flores ao Governo federal”, amenizou. Maia acrescentou, no entanto, quea saída do Mandetta assusta 80% da população brasileira pelo menos”. “Numa guerra, quando se troca o general, a tropa fica sem comando”, disse Maia, usando metáfora militar cara ao Planalto. Se uma das novelas teve seu epílogo com a chegada de Teich, outra já se apruma para tomar o lugar em Brasília.

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