PEDRA DE TOQUE
Tribuna
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A morte de Abimael Guzmán

Desde que alcançamos a independência, estivemos guerreando uns contra os outros, ou tratando de derrubar nossos governos, o que permitiu que nossos Exércitos se enchessem de armas e alimentassem as ditaduras

Fernando Vicente

O fundador do Sendero Luminoso, ou, como gostava de ser chamado, “a quarta espada do marxismo”, Abimael Guzmán, faleceu em 11 de setembro na prisão de Lima onde cumpria pena de prisão perpétua. Terá ele se arrependido em seus últimos minutos dos 70.000 mortos causados pela insurreição maoísta que provocou no Peru, segundo o número que a Comissão da Verdade calculou quanto ao total de vítimas que esta causou? Provavelmente não. Era um arequipenho de Mollendo, tinha 86 anos, havia estudado Direito e Filosofia, e conhecer a China e a obra de Mao Tsé-tung tinha transformado a sua vida. Tanto que dedicou muitos anos a preparar discretamente esta revolução que encheu de sangue e de mortos a região andina, a mais pobre do Peru. Seu centro foi a Universidade de Huamanga, em Ayacucho, de onde procedia a maior parte de seus primeiros quadros; depois viriam muitos outros, de quase todo o Peru.

Foi uma revolução que durou quase 12 anos desde que começou, em maio de 1980, e na qual houve de tudo, desde assassinatos a sangue frio até blecautes pelas explosões das torres de eletricidade, torturas, cães pendurados nos postes com uma inscrição que os senderistas consideravam ominosa (“Ten Siao Ping”), confinamentos e, sobretudo, cadáveres de inocentes regados por todo lado. Os camponeses da serra, inicialmente, apoiaram essa insensata guerrilha, dadas as condições miseráveis em que viviam e trabalhavam, mas quando Guzmán, fiel nisto aos ensinamentos de Mao, que queria que o campo tomasse as cidades, proibiu as feiras de sábado onde eles vendiam e faziam suas compras, se voltaram contra ele e, além de combatê-lo com os chamados ronderos, apoiaram o Exército nas emboscadas e na repressão. Assim terminaram essas matanças coletivas e o desastroso empobrecimento do Peru nos anos oitenta, quando (por que ocultá-lo?) houve também uma ditadura que assassinou muitos inocentes e saqueou os cofres públicos.

Agora há um interessante debate no Peru sobre o que fazer com o cadáver de Abimael Guzmán: se entregá-lo à sua viúva, Elena Iparraguirre, que também cumpre pena de prisão por ser a segunda do Sendero Luminoso, ou incinerá-lo para evitar que sua tumba atraia todos os esquerdistas extremos para lhe prestar sua homenagem. Esta última hipótese é segura, de modo que o Poder Judiciário, ou o Governo, ou o Parlamento, que devem decidir sobre este assunto, já sabem a que se ater.

O tempo das revoluções ainda está vigente na América Latina? Só os insensatos podem achar que sim. Desde que alcançamos a independência, estivemos guerreando uns contra os outros, ou tratando de derrubar nossos governos, o que permitiu que nossos Exércitos se enchessem de armas e alimentassem as ditaduras saídas de seu seio, além de liquidar dezenas de milhares dos jovens mais generosos e sacrificados dos nossos países, de modo que seguir por este caminho só pode continuar produzindo matanças, além de nos afundar cada dia mais no subdesenvolvimento, no terceiro-mundismo e na miséria. Talvez tenha chegado a hora de empreender outro caminho, o dos países que seriamente progridem, aumentam seus níveis de vida, expandem suas indústrias e com elas os sistemas de educação e de saúde, os salários e os postos de trabalho. Isto não é impossível. Basta olhar o exemplo dos países europeus e, ultimamente, o dos países asiáticos como a Coreia do Sul, Taiwan e Singapura. Olhar o outro lado, por sua vez, deveria bastar para ver que as famosas “revoluções” só trouxeram catástrofes semelhantes às que Abimael Guzmán produziu no Peru. É verdade que alguns de seus admiradores estão agora no Governo peruano e são nada menos do que ministros, mas o mínimo que se pode dizer destas pessoas, que figuram em prontuários policiais, é que, se seguirem o modelo de seu admirado Guzmán, fracassarão tanto ou mais do que ele e afundarão um pouco mais o Peru na desilusão e na miséria.

A única revolução que teve “sucesso” na história da América Latina foi a cubana de Fidel Castro e seus dois satélites, Venezuela e Nicarágua. O triste espetáculo que presenciamos há alguns dias em quase todos os povoados da ilha deixa uma impressão lamentável quanto a seus feitos, que parecem ser ínfimos, enquanto milhares de famílias cubanas se distribuíram pelos Estados Unidos e o resto do mundo (aqui na Espanha são inumeráveis). E o que dizer da Venezuela, o país potencialmente mais rico da América Latina, talvez do mundo, que expulsou 5,5 milhões de venezuelanos que estavam morrendo de fome? E a Nicarágua? Para se reeleger mais uma vez, o sinistro casal que governa esse país mandou todos os seus adversários para a prisão ― como é fácil ganhar eleições assim ―, e a última de suas vítimas, o escritor Sergio Ramírez, acaba de chegar à Espanha, onde declarou: “É duro ter 79 anos e exilar-se de novo”. Ele é um generoso lutador, já viveu muitos anos de exílio lutando contra a ditadura de Somoza, e uma vez mais inicia um desterro que, tomara, não durará muito mais, pois serão, é evidente, anos de horror e miséria para seu desventurado país.

O grande problema da América Latina é a corrupção, que tem seu foco nos ministérios e centros oficiais, e que dissuade os melhores latino-americanos de fazerem política, a qual veem a cada dia com mais asco e repugnância. E enquanto os melhores desdenharem da política, os piores se ocuparão dela, com as consequências mais temidas. A mais grave é a fome das maiorias e as doenças que produz, a falta de trabalho, a péssima educação pública e a excelência da privada, que amplia cada vez mais a diferença entre os pobres e os ricos. Frente a isso não há revoluções que tenham triunfado e que respeitem a liberdade, a qual é indispensável para cortar a corrupção pela raiz e para respirar tranquilo, sabendo-se que ninguém será vítima da noite para o dia dos atropelos da arbitrariedade governamental.

Há quem remonte a cinco séculos atrás as fontes do mal que aflige a América Latina. Por exemplo, o presidente do México, que pediu à Espanha que pague em dinheiro os muitos milhões que sem dúvida custaria a conquista do México. A verdade é que a primeira responsabilidade pelo estado dos indígenas da América Latina é dos governos que tivemos desde a independência. Todos eles, sem exceção, fracassaram vergonhosamente na obrigação que tinham de impulsionar os índios da América Latina em sua modernização e em seu sistema de vida. Nem México, nem Guatemala, nem Colômbia, nem Peru, nem Bolívia, nem Paraguai fizeram absolutamente nada pelos indígenas que são, como dizia José María Arguedas, uma “classe cercada” pela ingratidão e o desprezo dos “brancos” e “mestiços”, que continuaram a explorá-los e marginalizá-los. De maneira que não é a Espanha, que nos deixou essa magia do idioma mais vigente no mundo depois do inglês, e que é o melhor salvo-conduto para a modernidade, e sim nós mesmos, os latino-americanos, os responsáveis pela triste condição dos indígenas, em todos os países da América Latina, sem uma só exceção.

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