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COLUNA

A nova cortina de ferro

Sou a favor de prisão para os corruptos, mas para todos eles

Os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff na semana passada em São Paulo.
Os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff na semana passada em São Paulo. REUTERS

Como acontece com certas famílias em que é muito difícil saber se o DNA que as próximas gerações herdarão será melhor ou pior, a América Latina tem, com os Estados Unidos, uma relação quase genética na qual há certas vantagens e certos inconvenientes. Em 2001, a América que não fala inglês teve a oportunidade de viver, pela primeira vez em sua história, sem a hegemonia dos Estados Unidos.

Obama foi o primeiro presidente que não só começou a retirar tropas das fracassadas guerras do Iraque e do Afeganistão, como também reabriu todos os caminhos e as torneiras, trocando os mísseis e a força econômica pelo diálogo e pela complementaridade.

Sem esse ajuste, teriam sido impossíveis muitos acontecimentos como, por exemplo o processo de paz na Colômbia, já que o enviado especial nomeado por Obama para as negociações com as FARC teve um papel foi essencial para garantir aos líderes da guerrilha que não seriam extraditados para os EUA pelos crimes que haviam cometido.

Sem dúvida, os EUA foram um ator decisivo nesse processo de paz que agora é parte fundamental das eleições a serem realizadas no país sul-americano em 27 de maio. Mas, além disso, convém não esquecer que o Plano Colômbia – firmado em 1999 por Washington e Bogotá para encerrar o conflito armado e articular uma estratégia que solucionasse o problema do narcotráfico – foi decisivo para chegar ao ponto em que os colombianos se encontram hoje.

Agora, Donald Trump levantou uma nova cortina de ferro entre o império do Norte e o restante das Américas. A cortina inclui o Canadá e, a partir do México, vai penetrando e dividindo outros países latino-americanos com uma intensidade jamais vista. Nesse contexto, é especialmente relevante o panorama do Brasil na última semana. A ampliação da condenação de 9 anos e um dia, imposta pelo popular juiz Moro aos ex-presidente Lula, para 12 anos e um mês pelo crime de corrupção é uma grande prova de fogo que será decisiva na construção das relações políticas brasileiras a partir deste momento. A decisão do tribunal de Porto Alegre quebrou uma das regras de ouro que até agora tinham regido as relações entre os diferentes poderes.

Não é a primeira vez que um Estado tem que se debater entre o poder dos juízes e o dos políticos. Mas, na verdade, é surpreendente que o crime de corrupção seja tão seletivo ou, dito de outra forma, que as mesmas práticas pelas quais Dilma Rousseff foi removida de seu cargo como mandatária do Brasil tenham sido realizadas por seus antecessores sem consequência alguma.

A magistratura brasileira disparou a chamada Operação Lava Jato, revelando, por um lado, irregularidades na Petrobras como o desvio de recursos para beneficiar partidos políticos e empresários, e por outra, o “megaescândalo” Odebrecht. Apesar de essas práticas não envolverem apenas o Partido dos Trabalhadores, os principais prejudicados foram desse partido e, sobretudo, da era iniciada por Lula. Dá a impressão de que a justiça sobre a corrupção tem um destinatário muito específico e que há certa parcialidade no tratamento dado a Lula e no tratamento dispensando, no dia a dia, ao atual inquilino do Palácio do Planalto: Michel Temer.

A corrupção é uma epidemia e um flagelo que percorre o mundo inteiro, no entanto, há regiões como a América Latina onde esse fenômeno destrói como se fosse o vírus ebola. Isso não significa que a América do Norte esteja limpa, significa que conta com mais elementos que dificultam a massificação e a expansão da epidemia. Foi-se incrementando a pressão social dos países até limites insuspeitos e, agora, apesar de muitos terem abandonado Lula e o PT, as pesquisas o apontam como o homem que, se as eleições fossem hoje, seria eleito presidente do Brasil pela terceira vez.

Por isso é fundamental não politizar a justiça, nem judicializar a política até extremos que levem os povos a saídas que não sejam pacíficas, nem expressas através da vontade popular. Sou a favor da prisão para os corruptos, mas para todos eles. Não pode haver corruptos de direita e corruptos de esquerda, e não se pode exercer a brutalidade só contra uma parte do espectro.

É difícil a situação em que estamos. Primeiro, porque se a justiça comete o erro de não ser imparcial, a sociedade pode perceber isso como uma afronta política e a única saída seria a explosão social. Segundo, porque sem uma justiça que puna e erradique a epidemia, os países da América Latina estarão condenados ao desaparecimento cívico.

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