Opinião
Texto em que o autor defende ideias e chega a conclusões basadas na sua interpretação dos fatos e dados ao seu dispor

‘O Maoísmo’

O livro de Julia Lovell sobre a China serve para entender por que o comunismo não funcionou e não funcionará enquanto a propriedade privada e a liberdade, que são inseparáveis, não forem o sustento básico do desenvolvimento

FERNANDO VICENTE

O livro que acaba de ser publicado pela editora Debate, Maoísmo, uma historia global [Maoism, a global history], não está muito bem traduzido para o castelhano, mas não é uma obra literária, e sim política, por isso não faz muita diferença. De qualquer forma, leem-se suas mais de setecentas páginas de um modo apaixonante pelas surpreendentes novidades que contêm. Sua autora, Julia Lovell, uma inglesa, professora de história no Birkbeck College, na Universidade de Londres, fala e lê chinês e, sem dúvida, passou muitos anos pesquisando esta obra que descreve os esforços de Mao Tsé-tung para substituir os dirigentes russos como líder teórico da revolução socialista que daria aos países pobres do mundo uma doutrina e uma organização que elevariam seu padrão de vida e sua força militar, o que lhes permitiria esmagar as democracias imperialistas.

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A rivalidade que isto motivou entre a China Popular e a URSS, na época em que Nikita Khruschov dirigia este país, algumas vezes chegou ao extremo de quase ruptura, sobretudo pelo dinamismo e veneno com que o maoísmo acusava a URSS de ter se aburguesado e de trair a revolução proletária e camponesa. Ao mesmo tempo, Mao enviava dinheiro e equipes de técnicos a todos os países asiáticos e africanos onde, ele estava convencido, a luta insurrecional irromperia primeiro. Ao mesmo tempo, cópias das obras completas de Mao eram impressas aos milhões, especialmente o Livro Vermelho, um resumo pessoal de suas teorias sobre a preeminência camponesa perante os centros urbanos na luta revolucionária e sua convicção de que “o poder político reside no fuzil”. Em suas conclusões, que não são de forma alguma as visões revolucionárias de Mao Tsé-tung, a metódica Lovell assinala que a China atual cultua o Grande Timoneiro amortecendo consideravelmente suas teorias militantes e considerando-o uma espécie de patriarca bondoso, um herói nacionalista e moderado.

Como os vinte milhões de exemplares do Livro Vermelho que não foram doados para o mundo inteiro criavam um problema logístico considerável, Deng Xiaoping mandou queimá-los. Provavelmente esse incêndio monumental que converteu a China de revolucionária em capitalista é a razão do desenvolvimento econômico que fez deste país um suposto modelo para o Terceiro Mundo, e seu verdadeiro autor não é Mao, mas Deng Xiaoping, esse personagem que o peruano Abimael Guzmán, o chefe do Sendero Luminoso —”a quarta espada do marxismo”, segundo ele—, mandou pendurar com os cães raivosos no final de 1980 nos postes de Lima, explicando assim que, em sua opinião, não foram os russos que traíram a revolução, mas os próprios chineses, desde que o poder caiu nas mãos daquele “traidor”. Portanto, mesmo que seja o cadáver de Mao Tsé-tung que receba os aplausos, é provavelmente Deng Xiaoping —um estrito guardião do marxismo, horrorizado com os estragos que o banho de sangue inaudito que a “revolução cultural” maoísta foi para o destino da China, segundo Julia Lovell— que, por sua vez, autorizou a inclusão de empresários milionários no Partido Comunista da China, o verdadeiro responsável pela nova cara da China e seu capitalismo de “compadres”, isto é, de capitalistas que têm o direito de ganhar fortunas, mas opinam só como fazem os cegos e os surdos, com os bolsos, mas sem o cérebro nem a razão.

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O livro de Julia Lovell é particularmente revelador sobre a revolução que o chamado Sendero Luminoso tentou realizar em Ayacucho, nos Andes peruanos, e que deixou nada menos que 70.000 cadáveres, a grande maioria deles camponeses. Seu líder, Abimael Guzmán, era conhecido por ser um seguidor fanático das teorias de Mao, segundo as quais seriam os camponeses, não os operários, que “tomariam de assalto as cidades”, mas não se sabia que ele tinha estado duas vezes na China, onde, na segunda vez, provavelmente recebeu treinamento militar.

E que todo o comitê central do Sendero Luminoso, umas quarenta pessoas, esteve também na China, a convite dos governantes desse país, de modo que houve contatos bastante diretos e estreitos — e provavelmente ajuda econômica e em armamentos— entre a China e o Peru daqueles anos que os peruanos recordam com espanto, da revolução senderista —assassinatos, explosões de postes de eletricidade e toques de recolher estritos —que deixou aquela montanha de cadáveres. Julia Lovell faz um balanço bastante justo daquela “revolução” que traiu os camponeses da serra quando, de acordo com as teorias de Mao, Abimael Guzmán ordenou o fechamento de todas as feiras de sábado, onde os camponeses iam vender os produtos de suas roças. Foi nessa época que nasceram as “rondas” camponesas, que ajudavam os oficiais do Exército, e os soldados sob suas ordens, a infligir os mais graves golpes militares aos comandos maoístas.

No entanto, não foi na América Latina, mas na Ásia e na África, que Mao se empenhou ao máximo para acelerar a revolução socialista. O resultado não foi de modo algum um sucesso, a julgar pelas consequências. Não é o socialismo, mas o capitalismo democrático, que está mudando a cara da Ásia que vemos hoje e desencadeando o desenvolvimento de países como Singapura (da qual, diga-se de passagem, Deng Xiaoping foi um grande admirador), Coreia do Sul e Taiwan, onde o padrão de vida aumentou de modo espetacular e as instituições democráticas estão sendo instaladas de maneira irreversível. É muito interessante, por outro lado, o capítulo que Julia Lovell dedica ao Vietnã. Embora a China tenha apoiado sua luta contra os Estados Unidos, apesar da tradicional inimizade que sempre existiu entre os dois países, o Vietnã de Ho Chi Minh sempre tentou impedir e até mesmo sabotar as aspirações chinesas de liderar as revoluções africana e asiática na Coreia, Laos, Camboja e até Índia, para onde a China enviou vários engenheiros e técnicos e ajudou sobretudo em projetos agrícolas. Os Governos africanos, em geral, ficaram muito felizes em receber tal ajuda, mas com frequência ela ia para os bolsos de seus governantes, ministros e deputados, de modo que os verdadeiros camponeses aproveitaram muito pouco dela, com os tristes resultados que vemos no presente panorama africano.

Qual é o resultado do frenético entusiasmo que Mao Tsé-tung despertou em toda a China com a ideia de que o Terceiro Mundo seguiria as suas teses de que a revolução socialista seria de caráter camponês ao invés de proletário, que as cidades seriam devoradas pelos trabalhadores do campo, pois bastava uma faísca para incendiar uma pradaria, conforme afirmava Mao? Para Julia Lovell, as ideias comunistas do líder chinês ainda estão em vigor, embora seu próprio país não as aplique e, sim, como na Rússia, tenha optado por uma ordem capitalista “vigiada” pelo Partido, que dirige a vida política e econômica do país. Permito-me discordar desta inteligente ensaísta e afirmar que, sem a liberdade de pesquisar e a indispensável concorrência, assim como o direito à propriedade, um país tem seu desenvolvimento e a decolagem de sua economia truncados em algum momento de sua história. Acontecerá com a China, como já aconteceu com tantos países latino-americanos, como agora o Chile, onde a falta de continuidade e os tropeços políticos frearam o único país que parecia ter dado um golpe fatal no subdesenvolvimento.

De todo modo, este é um livro importante, que vale a pena ler, não só para descobrir os gigantescos fracassos e tentativas de Mao Tsé-tung de liderar uma revolução mundial, como também para entender por que o comunismo não funcionou nem funcionará enquanto a propriedade privada e a liberdade, que são inseparáveis, não forem o sustento básico do desenvolvimento.

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