Partido Comunista da China completa 100 anos reescrevendo a história

Críticas a Mao e à Revolução Cultural desapareceram; museus e os livros oficiais dedicam grandes espaços à era Xi Jinping

Visitantes observam imagens do presidente chinês, Xi Jinping, no recém-inaugurado Museu de História do Partido Comunista da China, em Pequim.
Visitantes observam imagens do presidente chinês, Xi Jinping, no recém-inaugurado Museu de História do Partido Comunista da China, em Pequim.THOMAS PETER / Reuters

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Uma mulher de meia-idade se prepara para fazer uma selfie junto ao leito de Mao Tsé-tung. Mas antes cutuca o marido com o cotovelo. “Olha só quantos livros tinha o líder!”, exclama ela, enquanto aperta o botão do seu celular. Outros turistas contemplam com reverência as cadeiras onde o Grande Timoneiro se sentou, a mesa onde ele trabalhou. No lado de fora da residência do antigo dirigente chinês, a fila para entrar aumenta. À sombra, uma equipe de funcionários vestidos com as antigas fardas do Exército Vermelho, sentados em banquetas, tomam notas em silêncio, ouvindo as explicações históricas ditadas por um instrutor.

Falta muito pouco para a celebração, nesta quinta-feira, do centenário de fundação do Partido Comunista da China, a festa das festas no calendário oficial de Pequim, e o antigo quartel-general do Exército Vermelho em Yanan, no norte da China ―onde Mao e suas tropas estabeleceram sua base durante a guerra civil contra as tropas nacionalistas―, fervilha de visitantes. Grupos de cidadãos exploram as cavernas onde aqueles soldados viveram durante uma década. Outros aplaudem os coros que, de tanto em tanto, começam a berrar palavras de ordem da época. No imenso pátio do Museu da Revolução, e sob um sol abrasador, funcionários de camisa branca e calça preta erguem o punho e recitam em uníssono o juramento de lealdade ao Partido.

“Com o tempo, quem não viveu aquilo se esquece das privações e sacrifícios que esses heróis viveram. Vindo ver isto, nos recordamos deles e nos sentimos inspirados para o futuro”, recita de cor uma aluna da Universidade Politécnica de Xian, que veio a Yanan com sua classe numa viagem de final de ano letivo. Outros visitantes repetem declarações semelhantes.

Militantes do PCC em Yanan (China).
Militantes do PCC em Yanan (China).

Que sejam tão parecidas não é casualidade. É a mensagem que o Partido quer transmitir. Desde fevereiro, o presidente chinês, Xi Jinping, lançou uma campanha de dimensões colossais, a maior desde os tempos do Mao, para que os 91 milhões de militantes do PCC estudem a história oficial da formação e tirem exatamente essas conclusões. A ordem repetida infinitamente em discursos e órgãos de imprensa oficiais é “nunca esquecer a intenção original, recordar sempre a missão” dos primeiros tempos da instituição.

O Museu da Revolução em Yanan narra detalhadamente essa versão oficial sobre os primórdios. O nascimento do PCC em Xangai, seu refúgio nas recônditas montanhas de Jinggan e, sobretudo, a dureza e o sofrimento que aqueles soldados enfrentaram durante a Longa Marcha (1934-1935), de 9.000 quilômetros em 370 dias segundo a tradição, até encontrar refúgio. O museu exibe suas alpargatas desgastadas, seus uniformes puídos, suas armas antiquadas.

Ausentes da narrativa estão os vastos expurgos feitos em Yanan. Ou, mais adiante no relato histórico, os milhões de mortos na fome causada pelo Grande Salto à Frente (1959-1963), o fracassado esforço de industrialização acelerada de uma economia então basicamente rural. A época da catastrófica Revolução Cultural (1966-1976) se reduz a três fotografias: o degelo com os Estados Unidos; a morte (em um suspeito acidente aéreo) de Lin Piao, o herdeiro aparente de Mao caído em desgraça; o começo do julgamento contra a chamada Camarilha dos Quatro, os dirigentes que foram responsabilizados depois da morte de Mao pelos desmandos daquela década.

É um panorama muito diferente do que reinava em 1981, quando o país tentava se livrar dos horrores daquele caos. Na época, o partido, sob o controle de Deng Xiaoping, emitia o juízo de que Mao “tomou as decisões corretas em 70%, errou em 30%”. Uma conclusão que há poucos anos podia ser lida em outro museu, o de Shaoshan, a cidade natal do Grande Timoneiro.

Mas essa conclusão foi escamoteada da história oficial atual, que desenha a China―e o partido―como uma força imparável, que superou obstáculos impossíveis para transformar um país pobre e humilhado por forças estrangeiras em uma potência em expansão e cada vez mais rica, onde tudo vai sempre de vento em popa. Uma versão muito atrativa para a população a China.

Durante o mandato de Xi Jinping, se dá ênfase em evitar o “niilismo histórico”, aquelas versões do passado que criticam erros e divergem da narrativa imposta pelos líderes do partido. Em abril, a Administração Central do Espaço Cibernético (ACEC) divulgou um número telefônico e um site onde os cidadãos podem denunciar quem distorcer a versão histórica oficial, criticar os líderes do partido ou divulgar imagens “caluniosas” de heróis e mártires. Em maio, conforme informava a própria ACEC, mais de dois milhões de comentários “prejudiciais” já haviam sido censurados.

Uma das salas do novo Museu de História do Partido Comunista da China em Pequim.
Uma das salas do novo Museu de História do Partido Comunista da China em Pequim. ROMAN PILIPEY / EFE

As vantagens do manejo da História é algo que o partido sempre teve claro. Na época maoísta, altos funcionários apareciam e desapareciam das fotos, dependendo de estarem ou não caídos em desgraça. Ainda hoje, Zhao Zhiyang, o secretário-geral do PCC destituído às vésperas da matança da Tiananmen, em 1989, continua sendo apagado da narrativa pública. Mas Xi, ávido estudioso da História, parece especialmente consciente da importância de controlar o passado como ferramenta para controlar o futuro.

“Se tivermos um conhecimento profundo (da História) não é difícil perceber que, sem a liderança do Partido Comunista da China, nosso país e nosso povo não poderiam ter obtido os êxitos de hoje em dia, nem chegado à posição que ocupamos agora no mundo”, declarava o presidente do país e secretário-geral do PCC já em 2015.

Nos tempos de Xi, “a história é legitimidade”, escreve em seu site David Bandurski, diretor do China Media Project, especializado em analisar o conteúdo dos meios de comunicação chineses. Não só isso: uma narrativa histórica carregada de “energia positiva”, e que unge o mandatário atual como o herdeiro do legado de um Mao benevolente e pai da pátria, reforça Xi com vistas a um próximo ano fundamental: em 2022 terá lugar o 20º Congresso do Partido, que deverá confirmá-lo em seus cargos por pelo menos mais cinco anos, depois de ter eliminado as normas que o forçariam a deixar o poder após uma década.

“O partido sempre se baseou na história do sucesso da sua revolução e posteriormente do desenvolvimento econômico para ostentar sua legitimidade atual; esta reescrita das narrativas históricas oficiais para elevar Xi junto a Mao no panteão de grandes líderes é uma manobra significativa”, recorda a consultoria Eurasia Group em nota. A iniciativa, opina a empresa de análises, “confirma a consolidação do poder político de Xi e escora ainda mais sua autoridade política absoluta antes da sua mais do que provável reeleição” no Congresso.

Um grupo de pessoas contempla imagens de Mao Tsé-tung no Museu de História do Partido Comunista da China, em Pequim.
Um grupo de pessoas contempla imagens de Mao Tsé-tung no Museu de História do Partido Comunista da China, em Pequim. THOMAS PETER / Reuters

Na versão reunida neste ano no livro oficial Breve história do Partido Comunista da China, desapareceram as antigas críticas ao Grande Timoneiro pelo caos, os expurgos e as mortes da Revolução Cultural. Em seu lugar, aquela campanha passa a ser elogiada como uma medida anticorrupção – justamente a marca registrada do mandato de Xi, que se desfez de importantes inimigos políticos através de uma ampla operação contra a venalidade dos funcionários públicos. As turbulências daquela era são atribuídas a uma “insuficiente implementação da sua ideologia correta”. E desaparece o refrão de que “esta amarga lição histórica não deve ser esquecida” no capítulo que descreve o Grande Salto à Frente.

A nova Breve história oficial dedica também um enorme protagonismo a Xi. Uma quarta parte de suas páginas é dedicada a examinar e louvar seu mandato como o de um líder carismático que sempre põe os interesses da população em primeiro lugar. Só sua gestão da pandemia de covid-19 enche 5 das 531 páginas do volume.

A mesma narrativa é descrita no reluzente Museu da História do Partido Comunista da China, inaugurado em Pequim com grande fanfarra pelo próprio Xi às vésperas do centenário. O primeiro dos seus três andares apresenta um detalhado relato dos primeiros tempos. O último é dedicado quase por completo à “Nova Era” do presidente atual, que aparece em uma centena de fotos e vídeos para ilustrar seus feitos presentes e futuros: da eliminação da pobreza no campo ao seu programa espacial.

Em Yanan, os grupos de estudo organizados e de visitantes do chamado turismo vermelho continuam chegando. Quase todos estão aqui pela primeira vez; não sabem que, onde hoje se está a banquinha de souvenires, antes ganhava a vida um imitador de Mao. Por alguns yuans, os turistas se fotografavam com ele nas poses clássicas do fundador da nova China. Agora já não há mais sinal do homem. Aconteceu alguma coisa com ele? Foi para outro canto? Seu negócio caiu vítima do niilismo histórico? “Não sei do você está falando”, resmunga um vigilante.

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