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Cabul e o Ocidente

O mundo continua dividido entre civilização e barbárie, e permitir que a aliança que defende a primeira desmorone é uma loucura. O mundo livre precisa da defesa e liderança dos EUA

FERNANDO VICENTE

Há algum tempo, ouvi uma conferência de uma escritora afegã que vivia na Europa. Era monarquista e falava com nostalgia de seu país quando era um reino. Lembrava de uma Cabul onde as mulheres estudavam na universidade e onde ela e seus amigos escritores e artistas se reuniam em clubes frequentados por mulheres que bebiam e fumavam, assim como os homens. Não sei se seu testemunho, impregnado de melancolia, distorceu a realidade. E me recordo agora de Rudyard Kipling, que, contando os problemas que o império britânico teve para lidar com os afegãos, lembrava que estes, depois de parecer derrotados, saíam como lagartixas das montanhas para atacar com tudo os soldados britânicos. E concluía: “Por isso, pode-se dizer que os afegãos nunca perderam uma guerra”.

Como vimos pelo caos que foi o aeroporto de Cabul nos espantosos dias recentes, com mortos e feridos entre a multidão, sobretudo feminina, que, aterrada, pretendia invadir os aviões que chegavam até lá e escapar, os norte-americanos deveriam ter lido esse texto de Kipling antes de planejar uma guerra de vinte anos na qual, falemos claramente, foram derrotados mais uma vez. A defesa do mundo livre —sem aspas— anda muito mal desde que os Estados Unidos foram derrotados pelo Vietnã. E, é claro, a poderosa China de hoje se apressa em ocupar, diretamente ou através de sua influência econômica, os lugares que os Estados Unidos deixam livres.

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Isso representa um sério problema para o Ocidente, sobre o qual ninguém, ou muito pouca gente, quer falar. O comunismo, ao mesmo tempo que os países livres sofriam derrota após derrota, estava desaparecendo para todos os efeitos práticos e, começando pela Rússia, seguida pela China e seus países satélites, optava por um sistema capitalista de “camaradas”, no qual só se pedia aos empresários que respeitassem as políticas do Estado —ao que eles se prestavam sem maiores problemas—, de modo que, em vez de um mundo socialista radical, parecíamos estar caminhando para um sistema muito amplo de regimes populistas e corruptos que prevaleceriam sobre as democracias genuínas. Um exemplo flagrante disso seria o que ocorreu nos últimos anos na América Latina, com Jair Bolsonaro no Brasil, Cristina Kirchner na Argentina e o reconstruído grupo de países esquerdistas de Puebla, agora sob os auspícios do populista número um do mundo atual, o mexicano Manuel López Obrador.

A OTAN parece cada dia mais uma piada, ou pelo menos um sério equívoco desde que o presidente Donald Trump lembrou aos países membros que, se queriam que os Estados Unidos se encarregassem de sua defesa, “teriam de pagar por ela”. E pretendeu cobrá-la. Nenhum que eu saiba se dispôs a aceitar totalmente essa admoestação, que teria colocado em apuros econômicos, ou afundado na catástrofe, alguns membros dessa organização encarregada de zelar pela defesa dos países democráticos. O resultado foi que, depois de viver a experiência terrível do Afeganistão, a defesa do Ocidente está em ruínas, embora no momento— no momento não quer dizer para sempre —não haja ameaças diretas aos países que, recordemos, inauguraram a liberdade, criaram e promoveram os primeiros sindicatos, escola e saúde para toda a população, fundaram as primeiras sociedades livres e também as mais prósperas do mundo. Será que o grande legado do Ocidente para o mundo não merece ser mais bem defendido do que está sendo agora, depois de ver como os norte-americanos abandonaram Cabul destruindo no próprio aeroporto as armas que queriam pôr a salvo dos talibãs, um espetáculo constrangedor que o presidente Joe Biden chamou de “a façanha mais extraordinária do nosso tempo”? A verdade é que não houve façanha nenhuma nessa caótica saída do Exército norte-americano de um país no qual nunca deveria ter entrado, a não ser com a estrita convicção de ganhar essa guerra, assim como não deveria ter entrado no Vietnã a menos que estivesse disposto a derrotar aos norte-vietnamitas com todo o peso de sua força militar, algo que, sem dúvida, teria colocado em perigo a paz no resto do mundo.

Em uma diatribe contra a política de seu próprio país, acompanhada de muitas verdades, o professor Jeffrey Sachs disse que nas duas intervenções militares os Estados Unidos nunca se preocuparam em abrir uma escola, uma fábrica ou um sistema digno de saúde —e que, pelo fato de serem intervenções exclusivamente militares, os EUA foram alvo da hostilidade desses países, aonde só iam para guerrear, e das críticas do resto do mundo. Embora eu não esteja sempre de acordo com o professor Sachs, acho que há muita verdade em sua furiosa apresentação do problema que ele descreve. Não é verdade que os países do Terceiro Mundo devam receber a modernidade e a civilização como um presente do mundo desenvolvido. Hoje há exemplos —como Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan— de países que, sem maior ajuda, progrediram fantasticamente e criaram as condições que já fortaleciam os países ocidentais. Também não é, no mundo atual de fronteiras abertas ou por se abrir, uma obrigação da aliança introduzir a modernidade e o desenvolvimento em países que podem fazer isso por si próprios, aproveitando o regime de liberdade que existe para as transações internacionais. Mas está, sim, entre as obrigações do Ocidente a defesa da liberdade que alcançamos e que é nosso grande legado para o mundo de hoje e de amanhã. A liberdade não é uma palavra sem respaldo, um simples ruído que a garganta emite em ocasiões de exceção. É uma maneira de sair da barbárie e do horror que vimos recentemente no aeroporto de Cabul, onde milhares de mulheres tentavam fugir para não ter de passar o resto de seus dias recolhidas em uma burca, sem poder estudar, nem trabalhar, nem sair às ruas sozinhas, animalizadas por um sistema de cameleiros que não mudou um milímetro desde que, há centenas de anos, surgiu aquela religião nos desertos da Arábia, sem que até hoje tenha sido capaz de se modernizar e enfrentar, como as outras, a realidade do nosso tempo. Em casos como o do Afeganistão e de tantos países africanos, é uma obrigação moral e material do melhor do Ocidente agir decididamente em defesa da mulher ou, melhor dizendo, simplesmente dessa civilização que permitiu dizer a Karl Popper e a muitas pessoas no mundo de hoje que, apesar de todos os desastres ao nosso redor, “nunca estivemos melhor”.

A Aliança Atlântica não é um artifício, mas uma realidade. O mundo ainda está dividido, como escreveu Domingo Sarmiento no século XIX, entre a civilização e a barbárie. Permitir, por uma questão de dinheiro, como queria Trump, que essa aliança que preserva as melhores coisas que ocorreram com o Ocidente se desintegre é loucura. O mundo livre deve se defender, e para isso precisa da liderança —real, não fictícia— dos Estados Unidos, que não são apenas o país mais próspero, mas também o mais bem armado da aliança, e o que deve assumir essa liderança sem as exigências mesquinhas de Donald Trump nem os esforços retóricos do presidente Biden de mostrar como um triunfo o que foi uma derrota vergonhosa diante de um país que nem acabou de sair da Idade Média. Rússia e China assistiram calmamente à catastrófica partida dos norte-americanos do aeroporto de Cabul. Não a esquecerão, e o pior é que no futuro a tenham presente.

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