Universitárias são proibidas de frequentar aulas com a tomada do Talibã no Afeganistão

Afegãos de cidades controladas pelo Talibã relatam que a atitude da milícia em relação aos direitos humanos não mudou

Jovens afegãs em uma aula de astronomia, em julho, em Herat.
Jovens afegãs em uma aula de astronomia, em julho, em Herat.JALIL REZAYEE (EFE)

A foto tuitada neste domingo por Lotfullah Najafizada, diretor da rede de notícias ToloNews (um canal informativo de referência no Afeganistão), resume o medo que tomou conta dos habitantes de Cabul perante a chegada do Talibã às portas da capital do Afeganistão. À primeira vista, a imagem parece inócua: dois trabalhadores pintam de branco uma publicidade na parede de um edifício. Não se trata de colocar um novo anúncio ali, e sim de cobrir a imagem feminina que promove serviços de beleza para casamentos. É esse o grau de temor que cerca o regresso dos extremistas islâmicos que já silenciaram as afegãs entre 1996 e 2001.

Em Herat, uma cidade próxima à fronteira com o Irã e com forte influência persa, o Talibã está recriminando as mulheres que trabalham em escritórios e inclusive vetando a entrada delas na universidade local, onde constituem 60% dos alunos. De acordo com alguns depoimentos publicados nas redes sociais, os responsáveis pediram que elas aguardem em casa até que a Shura de Quetta tome uma decisão sobre se podem ou não prosseguir seus estudos. A Shura de Quetta é a assembleia de dirigentes talibãs que dirige a milícia a partir dessa cidade do Paquistão, deixando em evidência os laços do país vizinho com os militantes islâmicos.

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Por isso neste domingo pela manhã, com o Talibã às portas da capital afegã, alguns professores da Universidade de Cabul se despediram das suas alunas, prevendo que não poderão voltar a vê-las durante certo tempo. Uma delas, Aisha, expressava seu temor de não conseguir se formar, “como milhares de estudantes em todo o país”.Também de Kandahar chegam notícias da detenção de intelectuais e ativistas. O último deles, Ahmad Wali Ayubi, foi preso em sua casa, segundo seus familiares, e seu paradeiro é desconhecido. Fontes locais consideram que a anistia proclamada pelo Talibã é uma armadilha e relatam que cerca de 10 pessoas consideradas membros de uma elite bem educada foram assassinadas e tiveram propriedades confiscadas.

Os dirigentes do Talibã têm consciência de que, após quatro décadas de guerras e terrorismo, os afegãos temem acima de tudo a violência e o caos. Tentam por isso se apresentar desta vez como um movimento capaz de garantir a continuidade da vida em condições estáveis. Seus porta-vozes negaram nos últimos dias que os milicianos do Emirado Islâmico do Afeganistão (EIA), como se autodenominam, estejam se dedicando a saques, assassinatos por vingança e casamentos forçados com meninas locais. “É uma propaganda venenosa”, diz Suhail Saheen, responsável por contatos com a imprensa estrangeira no Escritório Político que a milícia mantém em Doha (Qatar).Na mesma linha, multiplicaram-se as mensagens que tentam transmitir tranquilidade a diplomatas e ONGs estrangeiras, assim como aos seus funcionários locais. “O EIA mantém suas portas abertas a todos aqueles que antes trabalharam e ajudaram os invasores, ou que continuam nas fileiras da corrupta Administração de Cabul, e anunciou uma anistia. Nós os convidamos a se apresentarem e que sirvam à nação”, tuitou Shaheen.

Quem foge do avanço talvez projete um medo irracional sobre seus depoimentos, mas quem ficou retido nas cidades sob seu controle denuncia que a atitude dos barbudos em relação às mulheres e aos direitos humanos não mudou. Em Kandahar, que foi a capital do regime talibã durante sua ditadura, a Reuters colheu relatos de várias bancárias que, ao se apresentarem para trabalhar, foram escoltadas até suas casas por homens armados, com a ordem de não retornarem. Receberam, isso sim, a oferta de que seus cargos fossem ocupados por algum parente homem.

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Em 1996, a guerrilha tomou o controle de Cabul e arrebatou o Governo e a presidência do líder mujahedin Burhanuddin Rabbani, um dos heróis da vitória contra os soviéticos. Em seu avanço, o Talibã instaurou um regime integralista baseado numa interpretação rigorosa da lei islâmica. Entre outras medidas, impôs castigos físicos, da pena capital em praça pública às chibatadas e amputação de membros por delitos menores; privaram as mulheres de qualquer direito e as obrigaram a se cobrir integralmente com a burca; as meninas foram proibidas de frequentar escolas após os 10 anos de idade, e toda expressão cultural (cinema, música, televisão) foi erradicada. Até sítios arqueológicos enfrentaram sua fúria – em março de 2001, os militantes destruíram as gigantescas estátuas dos Budas de Bamiyán, por considerá-las ofensivas ao islamismo.

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