Risco de nova maré humana no aeroporto de Cabul após ataques eleva tensão no Afeganistão

Alertas sobre ameaça terrorista não evitaram que multidão que se dirigia ao aeroporto continuasse crescendo. Segundo a Casa Branca, 12.500 pessoas foram retiradas só nesta quinta-feira

Vítimas dos atentados nas imediações do aeroporto de Cabul chegam a um pronto-socorro.
Vítimas dos atentados nas imediações do aeroporto de Cabul chegam a um pronto-socorro.Juan Carlos (Juan Carlos)
JORGE SAID JUAN CARLOS QUINTEROS
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Na manhã de quinta-feira, perto do portão Abbey do aeroporto de Cabul, a maré humana era quase maior que nos dias anteriores. As advertências das autoridades norte-americanas sobre as chances elevadas de um letal atentado terrorista não dissuadiram milhares de afegãos de tentarem entrar com suas famílias no terminal por este lado, como vêm fazendo há mais de uma semana. O acesso era cada vez mais difícil e arriscado.

O Talibã, de fato, já estava agindo muito perto dos acessos ao aeroporto, espancando pessoas e atirando para o alto para intimidar a multidão. Às vezes, um só talibã, armado com uma vara ou com uma corrente revestida de plástico, era capaz de fazer a multidão acovardada retroceder.

O fato indica até que ponto o Talibã aterroriza a população afegã. A certeza de que faltavam cada vez menos dias para escapar —a Alemanha já anunciou que encerra sua operação de retirada nesta sexta-feira, por exemplo— empurrava as pessoas adiante, carregadas de malas, agitando seus documentos no ar.

Dias atrás, ainda se observa certa solidariedade entre os que tentavam entrar no aeroporto. Uma espécie de ajuda coletiva da qual se beneficiavam principalmente os mais idosos e as crianças. Mas isso, à medida que a esperança se perdia, também foi desaparecendo. De modo que na quinta-feira havia mais caras feias entre os aspirantes a refugiados, mais empurrões e agressões desonestas para ganhar um lugar mais perto do portão.

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Mesmo ali, na primeira fila desse inferno cada vez mais perigoso, no ponto mais extenuante da fila, havia vendedores ambulantes oferecendo garrafas de água ou sacos de batata frita. O produto mais solicitado, contudo, era uma bebida que faz muito sucesso em Cabul: um energético que é uma cópia falsificada do Red Bull. Para chegar até lá, os vendedores ambulantes precisam passar pelos controles do Talibã e esquivar as mesmas dificuldades que os outros esquivam. E mesmo assim, lá estão eles.

Nessa mesma porta Abbey, onde ainda pela manhã havia milhares de pessoas lutando entre si para entrar no aeroporto, sob risco de levar uma paulada ou tiro dos milicianos, um terrorista suicida detonou-se por volta de 17h45 de quinta-feira (hora local, 10h15 em Brasília). Uma segunda, também cometida por suicídio, ocorreu ao lado de um hotel localizado a dois quilômetros de distância. O Estado Islâmico, inimigo declarado do Talibã, assumiu a responsabilidade pelos ataques.

As advertências do Governo norte-americano, afinal, estavam corretas. Perto do portão, nos arredores do hotel Baron, outro atentado aconteceu em seguida. Mais de 180 pessoas morreram, incluindo 13 soldados norte-americanos. As estimativas no início da tarde desta sexta apontam para mais de feridos.

Assim, ao caos diário e crescente que se reproduz diariamente no perímetro do aeroporto se somou o caos desencadeado por qualquer atentado terrorista com vítimas.

O Talibã bloqueou rapidamente o acesso de todos os veículos à área. Por essa parte da cidade começaram a circular ambulâncias com sirenes ligadas. Houve quem, em desespero, abandonasse de vez a tentativa de fuga. Uma família de 13 membros, por exemplo, voltou resignadamente a Cabul após passar cinco dias acampada nos arredores do aeroporto, tentando entrar.

Muitos dos feridos foram levados ao Centro Cirúrgico de Emergência, um hospital para vítimas de guerra em Cabul. Lá, os funcionários colocaram macas na entrada, na rua, para acelerar o atendimento quando uma ambulância chegava com um ferido. Um vendedor de água e frutas que trabalhava perto dali dizia ter contado mais de 40 ambulâncias chegando.

Na manhã de quinta-feira, no portão Norte do aeroporto, controlado exclusivamente por forças norte-americanas com a ajuda de policiais afegãos, também havia mais gente. Tampouco ali havia sido efetivo o alerta sobre um possível atentado. Também havia mais nervosismo por parte dos policiais, que não paravam de dar tiros para o alto na tentativa de conter a multidão. Disparavam quase continuamente, sem preocupação com o fato de assustarem as crianças, que tampavam os ouvidos e choravam. O estrondo ensurdecia durante um longo período os que se encontravam ali.

Um destes policiais, mostrando-se ao mesmo tempo irritado e assustado, chegou inclusive a apontar seu fuzil para um homem que mostrou pacificamente um passaporte estrangeiro e que insistia em entrar no aeroporto, algo que afinal não conseguiu. Um cidadão com passaporte britânico teve um enfarte ao ouvir os disparos dos policiais para o alto e precisou ser hospitalizado.

Havia quem se aproximasse a pé até este portão Norte, caminhando vários quilômetros. Mas também havia filas e filas de ônibus de diferentes organizações que transportavam famílias inteiras ou determinados grupos de pessoas. Muitos nem desciam dos veículos ao verem o tumulto que os aguardava uma dezena de metros adiante.

Segundo a Casa Branca, só nesta quinta-feira cerca de 12.500 pessoas saíram do país. Ao todo, 105.000 foram retiradas desde o início da operação de evacuação, em 14 de agosto. Agora, depois do ataque terrorista, há um risco adicional além das pauladas e do risco de morrer pisoteado pela multidão. Falta saber o que acontecerá nesta sexta-feira: se os dois atentados mortais convencerão as pessoas a se resignarem a não sair do país e ficar à mercê do Talibã, ou se, pelo contrário, continuarão indo até as portas do terminal apesar de tudo.

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