O adeus a Diego Maradona
Tribuna
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Só Maradona viveu, sentiu e sofreu como o povo que o endeusou

Apesar da rivalidade com a Argentina, a partida do craque mais imperfeitamente humano e esportivamente divino também deixa um vazio no Brasil

Mural com a imagem de Maradona em Buenos Aires, na Argentina
Mural com a imagem de Maradona em Buenos Aires, na ArgentinaNatacha Pisarenko (AP)

Entrevistar Diego Armando Maradona era minha principal meta de carreira no jornalismo. Tentei algumas vezes, ainda que por telefone, sem jamais chegar perto de conseguir ao menos um hola do craque. Não me sinto frustrado por isso. Há muita gente nesse mundo que também sonhava falar com El Dios. Mas, de certa maneira, sua morte me arranca uma dessas utopias que nos ajudam a encarar o trabalho e a vida com leveza.

Comecei a me identificar com Maradona ainda criança. Uma identificação estranha, meio às avessas, porque, no meu imaginário infantil, ele representava tudo que eu não queria ser: polêmico, explosivo, arrogante e, acima de tudo, o maior rival do Brasil no futebol. Porém, tinha algo de brasileiro naquele sujeito de cabelo descolorido, chuteiras desamarradas, um ar de desprezo pelos adversários e um jeito de encará-los que lembrava os atacantes que meu pai e meu avô juravam ter existido, mas que os meninos da minha geração nunca veriam outro igual.

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De repente, estava ali o craque argentino, nos fazendo acreditar que também teríamos uma lenda do nosso tempo. Na Copa de 1994, ele tentava provar que ainda estava em forma, já que a canhota parecia infalível como sempre. O gol que ele marcou em cima da Grécia prenunciava o despertar da fera, com um grito em frente às câmeras tão assustador quanto visceral. Mesmo o mais antiargentino dos brasileiros deve ter lamentado sua suspensão do Mundial por doping. Ganhamos o tetra, mas perdemos a chance de ver a última Copa de Maradona até o final.

Mais do que o talento, a ginga e a audácia típica dos melhores jogadores que já tivemos, Don Diego carregava uma brasilidade em seu modo de viver. Era demasiadamente humano para um atleta consagrado. Abusou do álcool e das drogas, expondo-se a situações constrangedoras e degradantes. Aqui não há romantizacão da dependência química que o acompanhou durante quase toda sua trajetória. O drama público de Maradona apenas trouxe à tona o lado até então oculto de muitos astros corroídos pelo ônus da fama, desumanizados pela ganância de quem os comercializa como meros produtos.

Embora tenha ganhado bastante dinheiro com o futebol, ele sempre renegou o glamour que obriga os boleiros a seguir uma cartilha politicamente correta para não correr o risco de serem expurgados pelo sistema. Enquanto ex-companheiros e colegas de profissão bajulavam dirigentes, Maradona gritava contra a FIFA e chamava ‘cartolas’ de ladrões sem a menor cerimônia. Foi tratado como personagem folclórico, um lunático difamador, até que os escândalos recentes no alto escalão da cartolagem provaram que ele tinha certa razão.

Como todo ser humano ―ainda mais esse, que pecava por ser humano em excesso―, Maradona também conviveu com suas contradições. Teve de baixar o tom com dirigentes de seu país e do exterior ao aceitar comandar a seleção argentina ou prestar serviços para magnatas acusados por violações dos direitos humanos que ele dizia não abrir mão de defender.

Visto na Argentina como um Deus dos pobres e desalentados, Maradona foi uma voz combatente contra as injustiças sociais. Por seu tamanho e popularidade, poderia ter adotado uma postura política neutra para não desagradar nenhuma corrente dos fiéis seguidores da religião maradoniana. No entanto, assumiu desde o princípio a postura de militante da esquerda, seja na Argentina dos Kirchners, na Bolívia de Evo ou na Venezuela de Chávez. Amigo de Fidel Castro, amante dos discursos detratores do imperialismo vindos de Cuba e com o rosto de Che Guevara tatuado nos braços, bancava seus posicionamentos simplesmente por ser quem era, mandando às favas os críticos que lhe acusavam de apoiar ditaduras.

Hábil em mexer com os instintos das massas, alcançou uma proeza e tanto ao se posicionar como o antagonista máximo de Pelé. Ainda que tenha encerrado a carreira com menos gols e conquistas que o Rei brasileiro, deu aos compatriotas um enorme sentido de autoestima ao reafirmar insistentemente que o verdadeiro Rei era argentino. Por mais que Messi já tenha superado seus feitos esportivos, o fato de não ter ganhado uma Copa pela seleção albiceleste pesa menos na preferência nacional que a falta de uma argentinidade que só Maradona soube representar.

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Pode não ter sido o maior jogador da história, como Pelé. Pode não ter sido o argentino mais venerado no mundo, como Messi. Mas só Maradona fez um gol de mão para vingar toda a Argentina contra a Inglaterra, humilhada, inclusive, por sua épica sequência de dribles, anos após a vitória inglesa contra os argentinos na Guerra das Malvinas. Só Maradona viveu cada instante de celebridade como se fosse um reles mortal. Só Maradona teve o perdão incondicional dos súditos pelos erros que cometia, as brigas que comprava e as infindáveis confusões em que se meteu.

Porque só Maradona viveu, sentiu e sofreu como o povo que o endeusou. O craque, o personagem, o mito. Um patrimônio da América Latina, símbolo eterno do futebol-arte. Uma figura pública que nunca se eximiu de manifestar suas emoções e opiniões. Nenhuma rivalidade pode estar acima do sentimento de tristeza diante dessa inestimável perda para o esporte mundial.

Os brasileiros, dos que sonhavam entrevistá-lo aos que somente o admiravam pela mágica que fazia com a bola, também sentem um vazio por sua partida. Ela leva parte da nossa cultura futebolística, de nosso deboche recalcado pelo culto argentino ao ídolo imperfeito, que ao jogar futevôlei nas praias do Rio mais parecia um dos nossos que um deles.

Em homenagem a Don Diego, Manu Chao cantou que “se eu fosse Maradona, viveria como ele”. Não há dúvida de que, se fosse brasileiro, Maradona viveria como a gente.

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