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Dois centenários

Celso Furtado e Florestan Fernandes fariam 100 anos. Um deixou marcas na economia, outro na sociologia. Ambos, em nossa história intelectual

Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso em 1986, em Marília.
Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso em 1986, em Marília.Florestan Fernandes Jr./Arquivo pessoal

O ser humano é dotado de memória. Mas também se esquece. Há, contudo, pessoas que se transformam em ícones: dessas não há como esquecer. Este ano, 2020, se vivos estivessem e não só em nossa memória, fariam cem anos Celso Furtado e Florestan Fernandes. Um deixou marcas na economia, outro na sociologia. Ambos, em nossa história intelectual.

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Conheci bem os dois. Fui formado na Faculdade de Filosofia da USP por muitos “mestres”. No meu caso, nenhum foi mais importante do que Florestan desde quando me deu um curso introdutório, em 1949. A Celso conheci quando eu fazia em 1962 uma pesquisa sobre o papel dos empresários no desenvolvimento econômico e fui a Recife, com Leôncio Martins Rodrigues, para entrevistar alguns deles. Celso, então, já era diretor-superintendente da SUDENE. Posso tê-lo visto antes em alguma conferência em São Paulo: também minha memória, aos poucos, está repleta de esquecimentos...

Não me esqueço, porém, de dois episódios. Fomos procurá-lo em seu apartamento, modesto, na praia da Boa Viagem. Emprestou-nos um jeep da SUDENE com um motorista. Aproveitamos a visita que um casal de jornalistas iugoslavos faria ao engenho da Galiléia, famoso pelas ocupações de Julião, líder das ligas camponesas, para conhecermos a Zona da Mata. Anos mais tarde, eu, detido na OBAN, fui minuciosamente inquirido sobre os dois “comunistas” que haviam ido comigo àquelas plagas. Não os conhecia, foram apenas companheiros de viagem. O motorista era também informante da polícia...

Quando Celso e eu já éramos amigos, estava um dia em Barcelona, no inverno de 1986, visitando minha filha Beatriz, que estudava lá. Uma bela manhã, toca o telefone. Era Celso: queria saber se eu também seria nomeado ministro, pois ele fora convidado por José Sarney para ocupar a pasta da Cultura. Teria de deixar a embaixada do Brasil junto à Comunidade Europeia, em Bruxelas, para onde fora nomeado. Veio ao telefone também sua mulher, Rosa Freire de Aguiar. Celso, servidor público por excelência, além de grande intelectual, era mencionado para outros ministérios, como Fazenda ou Planejamento. Coube-lhe o da Cultura, que organizou e ao qual emprestou o prestígio de seu nome.

Disse-lhe que eu não poderia sequer ser cogitado para uma função ministerial porque era senador exercendo a suplência, e quem ocuparia minha função no Senado seria o segundo suplente, que era prefeito de Campinas. Teria que renunciar a Prefeitura para assumir o Senado e sabe Deus por quanto tempo. Aconselhei-o a aceitar o ministério, sem que me houvesse perguntado.

Quiseram os fatos que fôssemos amigos. Em Paris, mais de uma vez, fiquei no apartamento do casal. Anteriormente, Celso fora casado com uma físico-química argentina (mãe de André, que trabalhou no CEBRAP). Ela nos olhava com certa superioridade: ah... essas ciências sociais. Da mesma maneira, inúmeras vezes, Celso ficou em meu apartamento em Brasília quando eu era senador. Também frequentes foram nossos encontros quando morávamos na França. Ao longo de 1961, Celso, Luciano Martins, a quem ele era muito chegado, eu, e, eventualmente, Waldir Pires (que ensinava em uma faculdade de Direito, mas não em Paris) almoçávamos juntos.

A amizade, que se manteve, nunca me fez esquecer que foi com seus livros, especialmente A Formação Econômica do Brasil, que comecei a entender as mudanças que ocorreram no país. Quando em 1964 estivemos (Celso por alguns meses antes de ir para Yale) vivendo em Santiago, moramos juntos. E conosco Francisco Weffort e Wilson Cantoni. Celso havia trabalhado antes na Cepal e, além de ser amigo dos economistas chilenos, era admirado por Prebisch, nosso inspirador e chefe do ILPES e do BID.

Não sei de outro economista (mais do que isso: cientista social) que tenha influenciado tanto a minha geração como Celso. E muitas outras mais. Não só pelo que renovou na visão sobre a economia (somando Keynes a Prebisch e Kaldor), mas como homem público exemplar. Inteligente, culto e modesto. Dele as gerações futuras não apenas se recordarão como lhe serão agradecidas. Celso nos mostrou o quanto a economia brasileira se integrava à mundial e como, sem uma ação do Estado, teria sido impossível (ou muito mais difícil) avançar tanto quanto avançou. Além do mais, sabia escrever: iniciara a vida na literatura.

O mesmo digo sobre Florestan Fernandes: homem de cultura enciclopédica, conhecia tanto sociologia como antropologia e os escritos dos economistas clássicos não eram misteriosos para ele. De Marx a François Simiand, conhecia-os bem. Mais do que isso: desvendou não só os males da escravidão e dos preconceitos de cor como também mostrou as bases burguesas em que se assentava o poder no Brasil. Amava as pesquisas, tanto as sociológicas como as antropológicas, mas sabia que sem hipóteses os dados não falam. Sabia interpretar o que conhecia pelas pesquisas. A ele devo o ter-me dedicado à sociologia, que era sua paixão.

Do mesmo modo como no caso de Celso, os escritos de Florestan vieram para ficar. Tanto os sobre A Organização Social dos Tupinambá e A Função Social da Guerra entre os Tupinambá, como os estudos sobre os negros no Brasil e os sobre caráter pouco democrático de nossa forma de viver e, sobretudo, de mandar.

É de intelectuais desta têmpera que o Brasil precisa. Que pesquisem e saibam antever o que pode acontecer. Sem medos nem arrogâncias. Com sabedoria.


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