OMS testará três novos medicamentos contra a covid-19 depois do fracasso dos anteriores

O ensaio global Solidariedade PLUS se concentrará em reduzir o excesso de resposta imunológica, mais do que em combater o coronavírus

Participam do ensaio 600 hospitais de 52 países, entre eles vários centros hospitalares iranianos, como o da foto.
Participam do ensaio 600 hospitais de 52 países, entre eles vários centros hospitalares iranianos, como o da foto.WANA NEWS AGENCY (Reuters)

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A história de sucesso das vacinas contra o coronavírus tem seu reverso: o fracasso na busca de um medicamento que combata a covid-19 depois que o patógeno se apodera do corpo. Nenhum dos antivirais já testados nem a maioria das novas terapias obteve resultados contundentes. Agora, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou um macroensaio global com três novos fármacos. Pensados para outras doenças, poderiam ser reutilizados agora contra o SARS-CoV-2. Nenhum dos três atacará diretamente o coronavírus. O que os cientistas esperam é que eles suavizem a resposta excessiva do sistema imunológico.

Com uma dezena de vacinas em uso e quase 300 em desenvolvimento, segundo a OMS, chama a atenção a ausência de um tratamento eficaz para quando a covid-19 se agrava, além da ventilação mecânica. Já foram testados dezenas de tratamentos, de antivirais desenvolvidos para outras patologias (como a infecção pelo HIV) a modernas terapias monoclonais (utilizar as defesas criadas por uma pessoa infectada, aumentando-as em laboratório), passando por antimicrobianos contra a hanseníase.

No início da pandemia, a OMS selecionou quatro das formulações mais promissoras, como a cloroquina, que é usada com sucesso contra a malária, e o remdesivir. Mas, depois de meses de estudos com milhares de pacientes em uma dezena de países, um duro relatório frustrou todas as esperanças, embora os resultados finais só devam ser divulgados em setembro. Aquele grande esforço se chamou Solidariedade e se concentrou nas regiões do planeta que tinham menos opções de obter doses suficientes de alguma vacina.

Depois do fracasso do Solidariedade, a OMS lança agora o Solidariedade PLUS, com três novos medicamentos que começarão a ser testados em milhares de pacientes. Como disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, na entrevista coletiva em que apresentou a iniciativa, “trata-se do primeiro ensaio verdadeiramente mundial”. O estudo já começou em dois centros de saúde da Finlândia e será estendido para 600 hospitais de 52 países.

Desta vez, o Solidariedade PLUS não atuará diretamente contra o coronavírus. A estratégia agora é fazer com que algum dos medicamentos consiga reduzir a resposta do sistema imunológico quando ela sai do controle e, em vez de proteger, passa a atacar a pessoa infectada. Por razões que ainda estão sendo estudadas, o SARS-CoV-2 provoca em muitos infectados uma ativação excessiva das defesas. A maioria dos casos que se agravam e vão parar na UTI ocorre por esse motivo (são processos de inflamação aguda, como a desencadeada pela chamada tempestade de citocinas, que, na primeira onda, acontecia principalmente na segunda semana de infecção) e não pelo agente patogênico em si. Por isso, e pelo conhecimento acumulado nos ensaios anteriores, um grupo de especialistas independentes selecionou três fármacos que têm em comum sua ação sobre a resposta imunológica.

Um deles é o artesunato, um medicamento produzido pela farmacêutica indiana Ipca. É baseado na síntese da artemisinina, ingrediente de uma planta da medicina tradicional asiática. Até agora, era indicado para o tratamento da malária. No ensaio, será administrado por via intravenosa durante sete dias, na mesma dose que a indicada para casos graves de malária. O painel de especialistas recomendou esse medicamento por suas propriedades anti-inflamatórias. Assim como os dois seguintes, foi doado pelo fabricante

A Novartis está distribuindo doses do seu imatinib para os hospitais participantes do ensaio. É uma molécula desenvolvida nos anos 1960 como uma nova ferramenta de quimioterapia, que inibe determinadas enzimas em células cancerosas. Esse medicamento é indicado para certos tipos de câncer, como a leucemia mieloide crônica. No Solidariedade PLUS, será administrado aos pacientes com covid-19 grave em um tratamento de 14 dias. Ensaios menores indicam que poderia reverter os danos pulmonares provocados pela reação imunológica.

O terceiro medicamento que será testado é o infliximabe, produzido pela Johnson & Johnson. Ele é usado contra certas patologias do sistema imunológico, como a doença de Crohn e a artrite reumatoide. É um anticorpo monoclonal que interfere no processo inflamatório típico das doenças autoimunes. No ensaio, será injetado em dose única.

Mais de 1.000 pesquisadores participarão do Solidariedade PLUS. Embora seus resultados finais só devam sair no segundo trimestre de 2022, a OMS espera ter resultados preliminares até o fim deste ano. Para Marco Medina, pesquisador da Universidade Nacional Autônoma da Honduras e responsável pelo ensaio clínico Solidariedade no país centro-americano, “encontrar uma cura é crucial, assim quanto o acesso às vacinas”.

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