Pandemia de coronavírus

Peru, o país com maior taxa de mortos por 100.000 habitantes após revisar os dados oficiais da covid-19

Correção feita por especialistas eleva de 68.000 para 180.000 o número de vítimas da pandemia. Grupo incluiu novos critérios, como sintomas e diagnóstico de imagem, para confirmar a doença

Cemitério de San Juan Bautista em Iquitos, Peru, em 20 de março.
Cemitério de San Juan Bautista em Iquitos, Peru, em 20 de março.Rodrigo Abd / AP

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Seis especialistas designados pelo Governo do Peru e três funcionários públicos atualizaram o número de mortos de covid-19 até 22 de maio para 180.764 pessoas, uma cifra muito mais alta do que os 68.053 mortos que o Ministério da Saúde contabilizava até agora. Os dados colocam o Peru como o país com mais mortes por 100.000 habitantes, embora o epidemiologista Mateo Prochazka, um dos membros do grupo, tenha explicado que certamente existem outros países que também teriam de atualizar seu número de mortos. Prochazka disse que, mesmo depois da revisão dos casos durante um mês e meio, o número ainda não reflete o total de mortes no país.

“Não conseguimos reduzir a transferência do vírus, nem ter hospitais equipados com leitos de terapia intensiva ou com o necessário para enfrentar a doença. Não houve ciência suficiente para cuidar das pessoas. É o legado de não ter investido em ciência”, disse Prochazka em uma entrevista nesta terça-feira.

O grupo de trabalho temporário, formado por especialistas em bases de dados e advogados, propôs novos critérios para determinar a morte por covid-19 no Peru: virológico (morte nos 60 dias seguintes a um diagnóstico com teste molecular ou de antígenos), sorológico (nos 60 dias seguintes a um teste rápido), radiológico (em caso provável com diagnóstico por imagem) e nexo epidemiológico (por vínculo com um caso confirmado de novo coronavírus).

Os demais parâmetros são investigação epidemiológica (um caso suspeito confirmado pela Rede Nacional de Epidemiologia), clínica (quadro de sintomas compatíveis com a doença) e Sinadef (sigla do Sistema Nacional de Óbitos, que emite atestados de óbito por diagnóstico de covid-19).

Desde o início da pandemia, em março do ano passado, o Ministério da Saúde só contabilizava para seu informe diário os falecidos que tivessem diagnóstico confirmado de covid-19 com testes moleculares, antigênicos ou sorológicos, indica o informe do grupo de trabalho temporário, e por esse motivo não correspondia à realidade.

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No Peru já se tornou habitual ver cidadãos mostrarem seu desespero, no Twitter e no Facebook, por não encontrarem leitos de UTI para seus parentes doentes —especialmente nas cidades da costa e no sul de Arequipa— ou pedindo ajuda financeira para comprar oxigênio, um insumo escasso. “Procuro um leito de UTI com respirador!!! Minha mãe ainda não pode sair, estamos no Hospital de Nasca”, clamava um homem no Twitter na segunda-feira, marcando usuários com grande número de seguidores.

“A confirmação de casos e óbitos por covid-19 é um processo trabalhoso que requer informações, tempo e recursos, incluindo resultados de exames laboratoriais, dados registrados em prontuários, atestados de óbito, entre outros. Por este motivo existe uma defasagem desde o óbito até a confirmação nos sistemas de informação, representado no tempo de obtenção dos resultados dos exames laboratoriais, no tempo de viagem de atestados de óbito físicos em zonas distantes ou rurais até os pontos de digitação, além de atrasos na entrada de dados pelo pessoal de epidemiologia de campo”, acrescenta o documento dos especialistas.

“Esta pandemia nos coloca entre os piores países do mundo em salvar vidas, nossos números são semelhantes e piores que os da Índia. É possível que quando cada país revelar seus números, talvez o Peru melhore sua posição, mas pelo modo como as estiveram as coisas em Loreto, Amazonas e na periferia de Lima, o desespero e o desastre pela ausência completa de serviços de saúde, a automedicação, a falta de oxigênio, tudo parecia macabro”, comenta a médica e pesquisadora Carol Zavaleta.

A especialista em saúde intercultural acrescenta que é “um grande passo termos sido sinceros com esses números” antes do início do próximo Governo, em 28 de julho. “Em mais de um ano de pandemia já temos grandes lições: é hora de colocar a saúde como prioridade. Isso começa com que o Estado garanta a saúde como um direito fundamental —não só no papel, mas na prática—, acima de outros interesses. Se não garantir em uma pandemia, quando será?”, acrescentou a pesquisadora.

O trágico número de mortos equivale a 0,55% da população de mais de 32 milhões de peruanos. Zavaleta reflete que o número de mortos também leva a questionar as estruturas elitistas de conhecimento com as quais a pandemia foi administrada. “As normas e protocolos foram feitos em Lima, mas isso não produziu uma solução para a crise de saúde, promoveu-se a automedicação, o uso de esteroides e a confiança no sistema de saúde se deteriorou ainda mais”, acrescenta.

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