Pandemia de coronavírus

Com hospitais lotados, busca por oxigênio dispara na Cidade do México

A necessidade do insumo cresce com a ocupação dos leitos, provoca desabastecimento e endivida a população mais pobre. Situação é similar à de Manaus, no Brasil

Parentes de pacientes aguardam em fila para poder reabastecer tanques de oxigênio na praça central da região administrativa de Iztapalapa.
Parentes de pacientes aguardam em fila para poder reabastecer tanques de oxigênio na praça central da região administrativa de Iztapalapa.Hector Guerrero

A praça do centro histórico de Iztapalapa, na Cidade do México, está dividida em duas. De um lado, uma fila interminável de pessoas espera pacientemente por um teste de coronavírus gratuito em uma das tendas montadas pelas autoridades em razão da situação de emergência causada por hospitais à beira do colapso ―uma situação similar à de Manaus, no Brasil, a falta do insumo em hospitais levou à realocação de pacientes para outros Estados. A longa linha, um reflexo vívido da incidência do vírus na capital, circunda a praça enquanto a equipe médica corre para fazer os exames nasais. No outro extremo, uma tenda menor ainda não abriu as portas, mas dezenas de pessoas aguardam no frio a chegada de caminhões de oxigênio gratuito fornecidos pelo Governo local. Essa fila também é um reflexo da enorme necessidade de oxigênio no México. Os doentes recorrem a um mercado clandestino porque, apesar da abertura de várias unidades públicas para satisfazer a procura, o elevado custo do tratamento e o desabastecimento levam as pessoas necessitadas a buscar empréstimo de equipamentos entre familiares e contatos pessoais.

Diego Ortega está lá desde as 7h da manhã, duas horas antes do início da distribuição do produto, para ser um dos 50 sortudos diários que têm a possibilidade de recarregar o tanque gratuitamente. Ele se reveza com sua tia para ficar na fila e recolher oxigênio para sua mãe, que ele acredita ter se infectado após pegar o vírus no trabalho. “No primeiro dia do diagnóstico gastei 4.000 pesos (1.050 reais) com o médico, os remédios e o tanque de oxigênio. Depois foram mais 1.000 pesos (260 reais) em recargas e agora tive que largar meus dois empregos para poder ficar na fila”, conta enquanto procura esquentar as mãos. Ele, e milhares de mexicanos, entraram no mercado clandestino desse insumo escasso, mas essencial para quem fica gravemente doente de covid-19 e decide se tratar em casa.

Com os hospitais da capital beirando 90% de sua capacidade, é muito pequena a possibilidade de encontrar leito disponível. A saturação forçou muitos pacientes a bater em várias portas para obter assistência. Muitos são recusados na entrada dos hospitais. Isso se soma à percepção pública negativa sobre os tratamentos nos hospitais, que priorizam as pessoas gravemente enfermas no processo de internação. Consequentemente, os pacientes temem nunca mais ver os parentes e passar as últimas horas sozinhos.

As empresas que vendem oxigênio perceberam de imediato essa situação. Pacientes que estão sendo tratados em casa, alguns obrigados a isso pelo colapso hospitalar, outros, por medo, fizeram disparar o mercado de compra e venda do oxigênio que ajuda os pulmões comprometidos pelo vírus. A crescente demanda nos últimos meses levou à abertura de várias lojas de distribuição perto de hospitais. Às portas do Instituto Nacional de Doenças Respiratórias (INER), ao sul da capital, alguns funcionários distribuem convenientemente cartões de visita na saída de emergência. A enorme necessidade do insumo levou à escassez do tanque necessário para usá-lo. Tanto o aluguel como a compra dos cilindros está cada vez mais difícil, os concentradores que produzem o oxigênio não estão mais disponíveis e os oxímetros para medir a saturação de oxigênio no sangue desapareceram dos estabelecimentos, segundo usuários.

A família Ortega teve sorte. Quando a mãe de Diego testou positivo, eles iniciaram uma peregrinação pelas lojas da cidade para conseguir um tanque e um sobressalente. “Pedimos um emprestado porque não conseguimos nem mesmo encontrar para alugar”, explica Verónica Ortega, tia de Diego. Com muito cansaço nos olhos, ela conta que passou tantas manhãs nas filas de recarga grátis que já conhece de cor o funcionamento e as regras: tem que levar o teste positivo que mostre covid-19, não permitem que tanques grandes sejam recarregados e quando já tiverem preenchido 50 cilindros, o oxigênio acaba e os funcionários vão embora. Por isso é importante chegar cedo. “Tenho que sustentar minha família, é muito difícil porque estando aqui não posso ficar com meus filhos e já faz semanas que não consigo estar com eles”, diz, entre lágrimas, por ter passado o Dia de Reis na fila sem a família. O tanque que a pessoa consegue encher deve durar três horas. Ela o levará para a irmã e então seu sobrinho aproveitará para levar o sobressalente para recarregar, para que a mãe nunca fique desconectada. Cada cilindro leva de 30 a 40 minutos, por isso podem chegar a ficar até nove horas na fila. Apesar da gravidade da paciente, nunca pensaram em levá-la a um hospital público e optaram por um médico particular. “Não confiamos assim no serviço gratuito, lá as pessoas estão morrendo”, sentencia.

A letalidade do vírus no México é de cerca de 6% dos casos positivos e por volta de 90% das mortes registradas foram em hospitais. Christopher Pegueros, um médico cirurgião especializado em terapia intensiva, testemunhou isso em vários hospitais especializados. Pegueros tem vários pacientes particulares, além de seu trabalho em hospitais. Os pacientes lhe enviam fotos dos oxímetros para corroborar sua condição, algumas saturam 35% (95% é o limite do saudável e abaixo de 85% a internação é necessária). O médico afirma que muitos pacientes precisam de oxigênio em casa porque não encontram leitos nos hospitais. Alguns tentaram até 10 hospitais antes de chegar até ele. “Uma senhora me ligou porque o marido estava tão doente que nem conseguia detectar no oxímetro e eu disse que ela deveria ir direto para o hospital. Ela não conseguiu encontrar um lugar e me ligou novamente. Achei que a essa altura o homem já tivesse morrido, mas cheguei na casa dele e consegui tratá-lo com oxigênio e remédios”, conta. Ele não dorme direito há dias entre os turnos no hospital e o atendimento a pacientes particulares.

Jessica Slim é uma jovem que também teve que recorrer a serviços privados. “Tudo começou comigo, infelizmente infectei meu pai”, lamenta. Ela evitava reuniões e festas, mas se contagiou no trabalho. Morando com os pais, acredita que pode ter levado o vírus para casa. O pai ficou gravemente doente, mas a família não tinha condições de interná-lo em um hospital privado, que pedia um depósito de meio milhão de pesos (130.000 reais), e desconfiava dos públicos.

“Achamos que seria pior porque nosso médico nos disse que eles só estão internando em emergências, para entubar a pessoa”, diz. Com atendimento médico domiciliar, ela conseguiu um tanque graças a um conhecido com contatos de uma loja da Infra. Essa empresa é a principal fornecedora de oxigênio do Governo e, como as demais distribuidoras do insumo, foi investigada pela Comissão Federal de Concorrência Econômica, órgão antimonopólio do país, por supostas práticas abusivas.

Em dezembro, a Procuradoria Federal do Consumidor (Profeco) fechou 16 estabelecimentos que infringiam a lei, vendendo a preços inflacionados durante a pandemia. Por fim, a conta da família Slim chegou a 90 mil pesos (23.000 reais) entre equipamentos, recargas, remédios e assistência privada. “Pensamos em pedir um empréstimo ao banco, como muitos fazem, mas, finalmente, com a ajuda de meus irmãos, fomos capazes de arcar com isso”, diz ela, aliviada. No entanto, seu pai ainda não está curado e a conta continua aumentando.

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