Iván Duque estende a mão aos manifestantes para frear a violência nas ruas da Colômbia

Bogotá vive uma noite de confrontos com mais de 30 manifestantes e 16 policiais feridos. Protestos começaram há uma semana, exigindo a retirada de uma proposta de reforma tributária

Um homem olha através da janela quebrada de uma delegacia de polícia destroçada logo depois de um protesto em Bogotá, em 5 de maio.
Um homem olha através da janela quebrada de uma delegacia de polícia destroçada logo depois de um protesto em Bogotá, em 5 de maio.LUISA GONZALEZ (Reuters)


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Iván Duque tenta recuperar a iniciativa política. O presidente da Colômbia ofereceu um diálogo aos organizadores dos protestos que há uma semana tomaram as ruas para mostrar seu descontentamento com o Governo e com a situação do país. A morte de manifestantes por forças de segurança e o ataque de vândalos encapuzados contra lojas, bancos e delegacias de polícia fez a tensão disparar a um nível máximo. O país está há uma semana paralisado, com cidades e estradas bloqueadas e comércios com as portas abaixadas.

O Governo recorreu a uma frase de Álvaro Gómez Furtado, um histórico dirigente conservador assassinado em Bogotá em 1995, para se aproximar dos líderes dos protestos: “Um acordo sobre o fundamental”. Ou seja, um mínimo a partir de onde construir um diálogo que ajude a unir a sociedade colombiana. “Não sou uma pessoa de vieses”, disse Duque à emissora Blu Radio. “Muitas pessoas se perguntavam se me reuniria com Timochenko [ex-guerrilheiro das FARC que se manteve fiel ao acordo de paz]. Se me reuni com ele, como não vou me reunir com outros dirigentes políticos? A gente não pode cercear os espaços de diálogo.”

O emissário de Duque para materializar essa aproximação com os líderes do protesto é Miguel Ceballos, alto-comissário do Governo para a Paz. Por telefone, Ceballos disse que sua missão principal é conter a violência que, por enquanto, deixou 20 mortos e mais de 800 feridos. O diretor da polícia nacional, general Jorge Luis Vargas, disse não ter dado ordens aos seus homens para que atirassem, embora tenha ficado provado que alguns deles dispararam para matar contra manifestantes desarmados. “Chega de violência, não queremos que haja abusos policiais nem de manifestantes contra sociedade civil ou as forças da ordem”, afirmou.

Os protestos começaram há uma semana, exigindo a retirada de uma proposta da reforma tributária com a qual o Governo pretendia aumentar impostos para tampar o rombo deixado pela pandemia de coronavírus nos cofres públicos. Os especialistas econômicos defendiam esse ajuste fiscal como um mecanismo para distribuir melhor a riqueza, entre outras coisas. Mas, no quarto dia de confrontos nas ruas, com o Exército patrulhando as cidades, o presidente retirou a reforma e aceitou a demissão do ministro da Fazenda que a tinha impulsionado.

Nem isso acalmou as águas. A ferida da Colômbia é mais profunda que um simples projeto de lei que não chegou a ser tramitado no Congresso. Por isso, Ceballos, dentro deste diálogo, considera que para apaziguar a crise é fundamental acelerar a vacinação, reativar a economia e oferecer educação universitária gratuita a pessoas de baixa renda.

Esses jovens aos quais Duque tenta agora contentar têm sido os protagonistas desta crise, para o bem e para o mal. Eles lideraram as críticas ao Governo, contra um presidente com o qual não se sentem identificados, apesar de ser o mais jovem da história da Colômbia. Duque terá acabado de completar 46 anos no dia em que encerrar seu mandato, dentro de 11 meses. Mas os jovens também arcaram com os mortos. Algumas das vítimas eram apenas adolescentes.

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Em Cali, uma cidade bloqueada há dias por terra e por ar, houve muitos confrontos entre jovens e policiais nos bairros mais marginais. Muitos dos manifestantes são garotos sem escola, sem emprego e sem um futuro claro. Cinco deles morreram na noite de terça-feira. Nas redes sociais, viralizou a hashtag #Nosestánmatando (“estão nos matando”).

Os distúrbios mais graves da quarta-feira, entretanto, ocorreram em Bogotá, a capital. A prefeita Claudia López qualificou a escalada de violência de “brutal”, com mais de 70 manifestantes e 16 policiais feridos. Um centro de atendimento imediato, uma espécie de minidelegacia de polícia presente em vários bairros, foi incendiado com 10 agentes dentro. Esses lugares costumam ser o alvo dos manifestantes porque um jovem foi assassinado em um deles pela polícia no ano passado.

Enquanto isso, Duque procura aplacar a fúria se aproximando dos manifestantes. No dia em que desistiu da reforma tributária, o projeto estelar de seu mandato, disse que trataria de impulsionar outra, com mais consenso. Não houve como. Segundo quem o cerca, o presidente dorme pouco e está muito pendente desse diálogo que dominará a pauta do seu Governo nas duas próximas semanas e dos focos de violência. Antes de salvar a reforma tributária, terá que apaziguar as ruas do país.

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