Espionagem

O fim da era dos agentes duplos da Guerra Fria

Morte de George Blake, o mítico espião britânico que trabalhou para a KGB, celebrado como um herói na Rússia, marca o ocaso de uma época de espionagem em que o fator humano era decisivo

O agente duplo britânico e soviético George Blake, com sua mãe, após retornar do seu cativeiro na Coreia do Norte, em 1953.
O agente duplo britânico e soviético George Blake, com sua mãe, após retornar do seu cativeiro na Coreia do Norte, em 1953.Servicio Ilustrado (Automático) / Europa Press

E George Blake foi afinal enterrado na alameda dos Heróis, no insigne cemitério moscovita de Troekurovski. Ao som do hino nacional da Rússia e com as salvas da guarda nacional de honra, o legendário agente duplo britânico, que espionou para a União Soviética na época culminante da Guerra Fria, antes de ser descoberto, condenado e de protagonizar uma fuga cinematográfica em 1966, recebeu na quarta-feira uma despedida notável. Junto à sua lápide, com o nome de Georgi Ivanovich Bechter, sob o qual viveu desde sua chegada à URSS —onde recebeu o grau de coronel da KGB—, havia numerosas coroas de flores, inclusive uma do presidente russo, Vladimir Putin. Blake, um dos agentes duplos cruciais na história do século XX, celebrado como um patriota inquebrantável pelo Kremlin, morreu em 26 de dezembro, e com ele se apaga um dos últimos vestígios da espionagem na Guerra Fria.

Foi uma época que mudou para sempre o conceito de espionagem internacional, retratado fielmente em muitos de seus romances por John Le Carré, mestre desse gênero e também ele um ex-espião, morto em dezembro. Outro final. “Com a partida de Blake conclui-se historicamente —operacionalmente, que saibamos, já acabou nos anos sessenta— a maior operação de infiltração na história da espionagem”, resume o escritor Enrique Bocanegra, que estudou a fundo aquela época e também as façanhas das agências de inteligência.

Até a criação dos serviços secretos soviéticos, na década de 1920, a espionagem consistia fundamentalmente em comprar informação de agentes de segundo escalão do lado contrário, motivados pelo despeito, por ambições não satisfeitas ou por necessidade de dinheiro, explica Bocanegra. O que a cúpula da inteligência soviética propõe a partir dos anos trinta é algo muito mais ambicioso: preparar e infiltrar seus próprios agentes e permitir que desenvolvessem uma carreira ao longo de décadas. Essa trajetória deveria levá-los a cargos de poder nas organizações inimigas, para destruí-las por dentro. E conseguiram.

A KGB conseguiu captar ativos colossais, destaca a documentarista Lana Parshina, que tem escrito sobre a agência soviética de inteligência. Não foi só Blake, que desmascarou dezenas de agentes e cujas valiosas informações permitiram à URSS desbaratar, por exemplo, o famoso túnel de Berlim, que a espionagem anglo-americana usava, entre outras coisas, para interceptar conversas telefônicas dos soviéticos. E nem só, tampouco, os diversos agentes duplos que ajudaram a KGB a obter segredos sobre o programa de armamento nuclear dos EUA e avançar no desenvolvimento da sua própria bomba atômica.

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Na década de trinta, o poderoso serviço soviético de espionagem recrutou cinco jovens britânicos de alto berço, estudantes de Cambridge e chamados a ocupar postos destacados. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, Guy Burgess, Anthony Blunt, Donald MacLean, John Cairncross e Kim Philby, conhecidos como o Círculo de Cambridge, já ocupavam cargos importantes na Administração britânica, a partir dos quais espionavam para os russos.

Burgess chegou a ser confidente de Winston Churchill. Maclean, um importante funcionário da chancelaria. Blunt, o responsável durante décadas pela pinacoteca real. Philby, considerado por muitos como o maior traidor da Guerra Fria, mas também como o melhor agente duplo de todos os tempos, escalou até se tornar o chefe do serviço de contraespionagem, tendo como alvo justamente os soviéticos, e enlace entre a inteligência britânica e a CIA. Era o prêmio gordo. Tão brutal foi sua traição que desmantelou por completo a inteligência britânica na década de sessenta, a tal ponto que esta precisou ser reinventada, destaca Bocanegra, autor de uma biografia destacada de Philby (Un espía en la trinchera – Kim Philby en la guerra de España, inédito no Brasil) e a pessoa que revelou a identidade de David Cornwell (que escrevia seus romances sob o pseudônimo de John Le Carré).

À potência de seus serviços secretos, que se tornaram ainda mais fortes em um sistema habituado à opacidade e à clandestinidade desde a Revolução Bolchevique, somou-se outro elemento que desempenhou um papel nuclear no recrutamento de agentes duplos: a ideologia. “Nos anos vinte e trinta do século XX, a inteligência soviética se beneficiou enormemente da simpatia da juventude de esquerda em relação à URSS como encarnação da ideia de esquerda e depois como bastião do antifascismo”, destaca Leonid Mlechin, historiador dos serviços secretos soviéticos. O Círculo de Cambridge, primeiro, e Blake e alguns outros, depois, disseram ter aderido à KGB pelos ideais do socialismo, da luta contra a desigualdade e da injustiça. “O desaparecimento de Blake significa que a época dos agentes duplos ideológicos realmente terminou”, considera Parshina, coautora do livro The death of Hitler.

No entanto, salienta Mlechin, também houve elementos de árduo trabalho de captação, kompromats [chantagem] ou “pura sorte”; quase sempre ligados ao interesse econômico. Como o caso do ex-agente da CIA Aldrich Ames, que se ofereceu à KGB e espionou para a URSS entre 1985 e 1991. Ou do ex-agente do FBI Robert Hansen, que também se apresentou por iniciativa própria aos soviéticos, para os quais trabalhou desde 1979, passando depois a colaborar com os russos até que foi descoberto em 2011. Os dois agentes duplos, que cumprem pena de prisão perpétua em penitenciárias de segurança máxima nos EUA, agiram por dinheiro.

O coração dos serviços secretos soviéticos também sofreu duros golpes, como com o caso de Oleg Gordievsky, coronel da KGB que passou a trabalhar para o MI6, conseguiu escapar e hoje vive protegido no Reino Unido. Outros foram capturados e executados.

Como em quase nenhum outro lugar, a URSS honrou seus agentes duplos como autênticos heróis. George Blake recebeu a medalha Lênin quando chegou a Moscou, em 1966, depois de uma fuga legendária. E, antes dele, vários integrantes do Círculo de Cambridge ganharam a honraria. Mas essas homenagens eram feitas fundamentalmente em segredo. Nessa época, a espionagem era tabu na URSS. Não era discutida na vida pública, nem sequer nos romances ou filmes de ficção. Foi assim até a posse como diretor da KGB de Yuri Andropov, um comunista empedernido, que observa que a URSS já não tinha a mesma capacidade de atração dos anos trinta e que não havia mais uma multidão de jovens abertos a colaborar, destaca Bocanegra.

Surge então uma gigantesca campanha de propaganda que resgata para a vida pública as figuras de Blake, MacLean e Kim Philby, que a essa altura viviam havia anos em Moscou, totalmente esquecidos. “Andropov era partidário da ideia de visibilizar a todo custo que quem colaborasse com os serviços viveria bem”, aponta Mlechin.

Analistas e estudiosos da KGB contaram que, apesar de tudo, seus superiores soviéticos não chegavam a confiar completamente nos agentes duplos acolhidos em Moscou. Philby, por exemplo —que em uma nota dirigida a seus colegas soviéticos no centenário do nascimento de Félix Dzerjinski (fundador da Checa, a polícia secreta bolchevique), em 1977, desejou que todos pudessem “viver para ver tremular a bandeira vermelha no palácio de Buckhingham e na Casa Branca”—, levou mais de uma década para pisar na lendária sede central da agência de inteligência da URSS. O funcionário de contrainteligência sempre vê o desertor do outro lado como um provável agente infiltrado.

Hoje, Philby descansa a pouquíssimos quilômetros da nova lápide de Blake, no cemitério de Kuntsevo, junto a outros heróis soviéticos, como o espanhol Ramón Mercader, o agente secreto que assassinou Leon Trótski no México em 1940. Philby, que passou mais de 50 anos servindo à URSS, basicamente movido por um compromisso ideológico com o marxismo, foi rebatizado e celebrado como um patriota russo. Teve seu próprio selo postal, dedicaram-lhe uma destacada exposição histórica, e uma praça num bairro de Moscou leva seu nome.

Agora, depois de vários contratempos gravíssimos para seus serviços de inteligência, como o envenenamento fracassado do ex-espião Serguei Skripal em 2018 ou, mais recentemente, o caso do opositor Alexei Navalny, mas também por causa de pequenos escândalos econômicos ou de nepotismo, o Kremlin empreende um caminho similar com George Blake. Outro capítulo para polir a imagem da KGB, agência à qual pertenceu o presidente Putin (que chegou a dirigir seu serviço sucessor, o FSB), e para tratar de devolver à sociedade a ideia de que seus agentes secretos são a elite, como foram seus agentes duplos da Guerra Fria, e não capangas trapalhões, como os agentes da inteligência militar (GRU) apontados pelos serviços secretos britânicos no caso Skripal.

“Blake escolheu o caminho de uma luta decisiva e intransigente pelos mais altos valores humanistas, por um mundo justo e livre”, disse na quarta-feira em seu funeral Serguei Narishkin, o todo-poderoso chefe do Serviço de Inteligência Exterior (SVR, o sucessor do braço de inteligência exterior da KGB). “Teve provações severas, passou muitos anos junto à frente invisível, trabalhou no limite das forças e capacidades humanas e manteve a fé em seus ideais, em suas convicções e altos valores”, afirmou Narishkin diante do caixão do agente duplo, conduzido numa manhã nevada por seis soldados russos com farda de gala.

Acabou aquela época dourada de certo tipo de espionagem em que o fator humano era tudo, que exigia nervos de aço e memória prodigiosa para levar uma vida dupla. Agora, a guerra fria do século XXI é a tecnologia. E se há uma elite nos serviços de inteligência russos, ela certamente é composta por suas brigadas de espiões cibernéticos.

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