Pandemia de coronavírus

Enquanto contágios têm alta nos EUA, Trump segue sendo Trump, na saúde e na doença

As características da presidência, imprevisível e excêntrica, se manifestaram na enfermidade de seu líder. Ele não recebeu nem cloroquina nem desinfetante, mas tratamentos experimentais

Apoiadores do presidente Donald Trump se reúnem em frente ao Centro Médico Militar Nacional Walter Reed.
Apoiadores do presidente Donald Trump se reúnem em frente ao Centro Médico Militar Nacional Walter Reed.Samuel Corum / Getty

Donald Trump definiu seu contágio e subsequente hospitalização por coronavírus como “uma viagem muito interessante”. Fez isso na tarde de domingo, num vídeo gravado no hospital, depois de meses negando deliberadamente a gravidade da pandemia e boicotando em primeira pessoa as regras de prevenção mais básicas preconizadas por seu próprio Governo: evitar atos com multidões e sempre usar máscara.

“Aprendi muito com a covid-19, aprendi realmente indo à escola, esta é a verdadeira escola, e eu capto, eu entendo, é uma coisa muito interessante e vou lhes falar sobre isso”, disse ele. Só alguém como Trump acaba adoecendo de um vírus que minimizou a um nível absurdo ―até zombando de seu rival, o democrata Joe Biden, por ser mais cauteloso― e sai como o vencedor: “Esta é a verdadeira escola”, diz. Ora, agora ninguém sabe tanto do vírus como ele, que ninguém tente dar lições.

Logo depois da gravação do vídeo, após 72 horas recebendo fortes medicamentos e com necessidades pontuais de oxigênio suplementar, o presidente saiu do hospital, entrou no carro oficial e decidiu colocar em risco o pessoal que o acompanha, tudo para tomar seu banho de massa entre os simpatizantes que torciam por ele na rua. E nesta segunda-feira, quando anunciou que iria sair do hospital e voltar para casa à tarde, escreveu no Twitter: “Não tenham medo da covid-19. Não deixem que domine a sua vida. Desenvolvemos, sob a Administração Trump, alguns grandes medicamentos e conhecimentos”. Com mais de 200.000 mortos nos registros somente nos Estados Unidos. Trump é Trump, na saúde e na doença.

O republicano, um magnata do mercado imobiliário de Nova York, habitué na imprensa de fofocas e nos reality shows, entrou na política impulsionado por essas mesmas qualidades de showman, de comediante profissional, de charlatão bilionário capaz de se conectar com pessoas que não têm dinheiro para pagar as contas no fim do mês. Após uma campanha histriônica, em poucas semanas na Casa Branca ele dissipou as dúvidas: como presidente seria o mesmo personagem de quando era candidato. E agora, vítima da pandemia, doente a um ponto que chegou a preocupar as pessoas mais próximas dele, o seu Governo e ele próprio lidaram com esta crise como as demais que marcaram o seu mandato: com desordem, meias verdades e boas doses de excentricidade.

Na terça-feira da semana passada, quando ainda não estava claro se já havia começado a sentir os sintomas, brigou com Biden em um debate feroz em Cleveland (Ohio) e lhe jogou na cara: “Eu não uso máscara como ele. Toda vez que você o vê ele está usando máscara, pode estar falando a 60 metros de distância, e aparece com a maior máscara que já vi”, espicaçou. Dois dias depois, por volta da 1 da manhã de sexta-feira, o presidente e sua mulher, Melania Trump, entraram para a lista dos mais de sete milhões de infectados nos Estados Unidos, país que responde por 20% dos mortos em todo o mundo.

É impossível não traçar um paralelismo entre a nova espiral de contágios nos Estados Unidos e a queda de seu comandante-chefe. Mal o país tinha saído dos pontos mais difíceis da pandemia, com mais de mil mortes por dia, e Trump voltou a realizar comícios massivos, como o de 20 de junho em Tulsa (Oklahoma), que, apesar de fracassar na expectativa de público, reuniu milhares de apoiadores no interior de um estádio, quase sem máscaras.

Usar ou não a máscara foi, para Trump, uma questão de orgulho durante meses. O republicano chegou a admitiu que “não queria dar à imprensa o prazer” de vê-lo com uma e, na verdade, até 11 de julho não apareceu publicamente coberto com máscara.

A essa altura, em sua gestão errática da pandemia até já havia chegado ao cúmulo de sugerir aos cidadãos que tratassem o coronavírus com “uma injeção de desinfetante” ou com “luz solar”. Embora no dia seguinte tenha esclarecido que se tratava de uma piada, a declaração despertou tamanho assombro que ele cancelou as coletivas diárias à imprensa sobre a crise de saúde.

Ninguém forneceu desinfetante ao presidente nem hidroxicloroquina, que tanto ele como Jair Bolsonaro defendem, e, sim, três tratamentos poderosos. De resto, a evolução de Trump está cheia de sombras. A transparência da Casa Branca e da equipe médica que o atende deixou muito a desejar. É incompreensível que seu médico pessoal, Sean Conley, tenha tentado deliberadamente esconder que o presidente havia exigido oxigênio suplementar e que seus sinais vitais chegaram a ser preocupantes. E também que, logo depois da coletiva de imprensa no sábado pela manhã, em que os médicos divulgaram um quadro muito mais positivo, o chefe do Gabinete, Mark Meadows, transmitisse a informação de que o estado dele ainda era preocupante e pedisse anonimato à mídia.

Desde a divulgação do contágio de Trump, uma série de pessoas próximas correram para fazer o teste e anunciaram que deram positivo. Além da assessora Hope Hicks (conhecido poucas horas antes do caso do presidente), há mais de uma dezena em seu entorno, entre assessores, funcionários da Casa Branca e senadores. A maioria deles esteve na cerimônia de indicação do nome da juíza Amy Coney Barrett para o Supremo Tribunal Federal, no dia 26 de setembro, sem distanciamento entre os presentes e, é claro, sem máscaras, tanto dentro como fora. Estas, diga-se de passagem, continuam não sendo obrigatórios na residência oficial.

A agenda do presidente não parou até o último momento em que seu contágio foi anunciado. Horas antes da divulgação, ele participou de um evento para arrecadação de fundos em Nova Jersey. Porque toda essa questão se passa a menos de um mês antes das eleições, em 3 de novembro, quando será decidido se Trump repete o mandato ou se sua passagem pela presidência mais importante do mundo permanecerá na história como o que ele bem poderia chamar de “uma viagem muito interessante”.

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