Pandemia de coronavírus

Virilidade frágil em tempos de coronavírus: por que alguns homens se negam a usar máscara

Sim, existem pessoas que se veem ridículas com o complemento mais habitual nestes tempos

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, Anthony Fauci, durante um pronunciamento sobre a vacina para o coronavírus.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, Anthony Fauci, durante um pronunciamento sobre a vacina para o coronavírus.Drew Angerer

Se há um objeto que representa a resistência à expansão do coronavírus (por ser visível, o distanciamento físico é intangível), é a máscara. O conselho sobre seu uso é contundente: se todas as pessoas as usam, será mais simples evitar o contágio na comunidade, o que também a transforma em um ícone de solidariedade. Mas nem todo mundo segue a indicação. Por exemplo, alguém viu Donald Trump com uma máscara? Não, o presidente dos Estados Unidos chegou a visitar uma fábrica de máscaras e não as utilizou. Tem alguns motivos.

O primeiro é que lhe faz parecer ridículo. O segundo, que dá uma imagem negativa de sua pessoa. Pelo menos, segundo o que fontes próximas a Trump declararam à agência de notícias Associated Press. O âmago da questão é que um representante público de seu poder é obrigado a dar a imagem de que está livre de todo o perigo, pensará o leitor bem-intencionado. Mas vale a pena contemplar outras possibilidades, levando em consideração as conclusões de um estudo de dois pesquisadores da Universidade Middlesex em Londres, no Reino Unido, e do Instituto de Pesquisa em Ciências Matemáticas de Berkeley, nos Estados Unidos.

De acordo com o trabalho, a negação a usar máscara se reproduz em homens, mais do que em mulheres, e pertencentes a todos os estratos sociais. O motivo é que “associam seu uso a emoções negativas como a fraqueza”, como afirma o pesquisador da Universidade Lawrence (Estados Unidos) Peter Glick em um artigo publicado recentemente na revista Scientific American. O pesquisador diz que é uma maneira de proteger sua imagem pública de machos ignorando as recomendações dos especialistas. Mas como um complemento como esse pode cercear a virilidade de um homem?

Competitividade tóxica, masculinidade mal compreendida

O caso de Trump pode ser interpretado como um exemplo claro do que chamam de “o princípio de não mostrar fraqueza”, a primeira das quatro bases da cultura da competitividade masculina, de acordo com as pesquisas de Glick e sua colega Jennifer Berdahl, e significa não admitir dúvidas e erros e suprimir as emoções ternas e vulneráveis. As outras três normas são a da “força e resistência”, que premia os mais fortes e com maior resiliência diante de qualquer situação que apareça; a de “priorizar o trabalho”, em que nada pode ficar acima de um emprego porque seria demonstrar falta de compromisso; e “a lei do mais forte”, que apela à concorrência encarniçada e que os vencedores são mais masculinos do que os perdedores.

Tudo isso faz parte de uma masculinidade mal compreendida, tóxica, que psicologicamente se explica através de três fatores, indica a psicóloga sanitária do Center Psicologia Clínica Rosa Portero. O primeiro é hormonal: “Diversos estudos demonstraram que a testosterona (hormônio associado à masculinidade) faz com a pessoa fique mais tolerante ao risco e diminui a sensação de medo, enquanto os estrógenos (associados à feminilidade) intensificam o instinto protetor das mulheres, o que explicaria o fato delas tomarem mais precauções contra o vírus”. Os outros dois fatores, o social e o educacional, estão ligados. “Historicamente, o homem foi apresentado como uma figura mais forte e o contrário foi atribuído à mulher. Algo que não corresponde à realidade, mas que faz com que muitos homens se sintam mais dispostos a enfrentar perigos”, acrescenta a psicóloga.

Os que acreditam nessa ideia tóxica da masculinidade pensam que o necessário para agir como um verdadeiro homem e demonstrar virilidade é uma combinação de uma atitude agressiva, o fato de estar dispostos a assumir riscos desnecessários e injustificados, passar mais horas no trabalho, ser um competidor feroz e amedrontar os outros, principalmente quando significam uma ameaça à masculinidade. Soa familiar? Pois é algo que, de acordo com o estudo de Glick e Berdahl, pode ter somente consequências negativas. As conclusões da pesquisa revelam que os entornos em que essa cultura prevalece são hostis, desfavoráveis, sexistas e intimidatórios, entre outras coisas. Ao contrário, em uma masculinidade bem concebida não existe o medo de demonstrar fraqueza e sofrimento, a expressar emoções além da raiva e a necessidade de ser dominante.

As inseguranças que uma boa roupa esconde

Quando a sensação de poder se perde no contexto da cultura da competitividade masculina, “aparecem as formas de compensá-la para contrastar essa frustração e falta de virilidade”, esclarece a especialista. Pode ser o caso de Trump e o uso das máscaras, mas esse complemento não é o único com o qual os homens escondem as vergonhas de suas fraquezas. O vestuário é uma clara carta de apresentação e se seleciona com a finalidade de “potencializar os traços positivos da pessoa e dissimular os negativos”, diz Mario Zafra, alfaiate da marca de moda masculina Yusty.

O alfaiate diz que aos homens menos musculosos “são adicionadas ombreiras nos paletós para dar a sensação de costas mais largas”; os que têm barriga, “é recomendado o uso de suspensórios para que as calças não caiam por baixo da barriga, poder dissimulá-la e evitar que as pernas pareçam curtas”; com os baixinhos “se evitam as calças curtas tipo ‘capri’ porque os deixam menores”. Essas estratégias são notórias até nos sapatos, aos quais são acrescentados saltos para dar mais altura. Definitivamente, existe uma infinidade de pequenos truques que para alguns marca a grande diferença entre sentir-se mais ou menos masculino.

Os detalhes em uma roupa, entretanto, não são a única máscara com a qual se ocultam as inseguranças em relação ao público. Pode existir muitas outras coisas associadas à masculinidade e “têm a ver com questões culturais, sociais e educacionais”, indica a psicóloga. Um corte de cabelo e um penteado podem ser outra, diz Zafra, que dá como exemplo “os feitos para tapar e esconder a calvície”. Também os carros. Segundo diversos estudos, a relação entre os homens e os automóveis tem muito a ver com a sensação de poder e controle que lhes gera, algo que pode se ver refletido tanto na escolha do modelo como no tipo de condução. Mas uma atitude mais agressiva, uma roupa, um penteado, o mais rápido e maior carro que exista e muito menos deixar de usar máscara em uma pandemia, não fazem um homem. E para acabar com essa percepção tóxica da masculinidade só há um remédio: “Trabalhar nas concepções e crenças que essas pessoas têm para que possam deixá-las de lado”, conclui a especialista.

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