23 anos de prisão para Harvey Weinstein

Antigo todo-poderoso de Hollywood, pivô do movimento Me Too, foi condenado em fevereiro por crimes sexuais

O produtor Harvey Weinstein chega ao tribunal que o condenou em Nova York, em 24 de fevereiro.
O produtor Harvey Weinstein chega ao tribunal que o condenou em Nova York, em 24 de fevereiro.Carlo Allegri / Reuters

Harvey Weinstein, de 67 anos, foi condenado a 23 anos de prisão. O tribunal penal do Estado de Nova York anunciou nesta quarta-feira a sentença do ex-magnata de Hollywood pelas duas acusações em que foi considerado culpado no final de fevereiro: um crime de primeiro grau (sexo oral forçado) contra a ajudante de produção Mimi Haleyi e violação em terceiro grau (sexo sem consentimento expresso) da atriz Jessica Mann. O produtor de cinema, que chegou à corte em cadeira de rodas para ouvir a sentença, poderia pegar a pena máxima de 29 anos atrás das grades. As seis mulheres que testemunharam no julgamento sentaram-se juntas na primeira fila do tribunal. O veredicto do júri, emitido no final de fevereiro, inocentou Weinstein dos três delitos mais graves pelos quais era acusado, o que evitou a condenação à prisão perpétua do homem que se tornou símbolo do abuso de poder para obter sexo.

Os advogados de Weinstein pediram ao juiz James Burke, que presidiu o julgamento por quase dois meses, a pena mínima permitida por lei, cinco anos de prisão. A defesa alegou que restavam ao produtor cerca de 12 anos de vida, de modo que uma sentença maior “provavelmente constituiria uma sentença de prisão perpétua”. Depois de ouvir o veredicto do júri em 24 de fevereiro, Weinstein foi levado de ambulância ao Hospital Bellevue, em Nova York, com dores no peito. Uma semana depois, ele foi submetido a uma cirurgia cardíaca. Depois, foi internado na enfermaria da prisão de Rikers Island para aguardar a sentença.

O outrora dono de Hollywood, produtor de filmes como Pulp fiction e Shakespeare apaixonado, entre outros sucessos, sempre defendeu sua inocência. O júri do primeiro e único processo criminal desde o início do movimento Me Too eximiu Weinstein das acusações de estupro em primeiro grau (com uma arma ou violência extrema) e as duas de agressão sexual “predatória”, um termo legal que implica que o crime faz parte da conduta natural do acusado. Esses eram os delitos mais graves e poderiam ter levado à prisão perpétua.

As investigações jornalísticas do The New York Times e da The New Yorker, publicadas em outubro de 2017, não apenas desvendaram os abusos sexuais cometidos por Weinstein, como também tiraram o véu de uma conduta criminosa disseminada na indústria cinematográfica. Multiplicou-se o número de mulheres que levantaram a voz contra o gigante de Hollywood até chegar a 90 supostas vítimas. Enquanto isso, nas redes sociais muitas quebraram o silêncio e compartilharam suas histórias de assédio: em suas casas, em seus locais de trabalho, em seus relacionamentos. A mobilização de mulheres de diferentes partes do mundo deu origem ao #MeToo, um movimento que em dois anos mudou a maneira como as pessoas interagem na sociedade.

“O veredicto [contra Weinstein] muda a história para as gerações futuras. Terão um mundo melhor,” disse em ferereiro Lauren O’Connor, que afirmou ter sido abusada pelo produtor quando trabalhou como assistente na The Weinstein Company, empresa vendida em meados de 2018. O grupo de denunciantes Silence Breakers (as que romperam o silêncio) comemorou a decisão do júri, interpretada como um precedente para casos futuros relacionados a abuso sexual. “O sistema de Justiça criminal está se adaptando às mudanças culturais que vimos nos últimos dois anos”, disse a repórter Lauren Sivan, membro do Silence Breakers.

Nova York não era a única batalha legal que Weinstein enfrentava. No início de janeiro, a procuradoria do distrito de Los Angeles apresentou quatro acusações formais contra o criminoso por dois supostos ataques sexuais cometidas em fevereiro de 2013. Os dois casos de abuso ocorreram em dias consecutivos e em quartos de hotel na área de Los Angeles. Segundo o procurador do distrito, Jackey Lacey, na época as duas supostas vítimas confidenciaram o ocorrido a outras pessoas na época.

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