Arte

Treze obras-primas da cultura que foram massacradas quando lançadas

Discos, pinturas, filmes ou livros que hoje são peças fundamentais foram no passado maltratados pelos críticos e ignorados pelo público. Esta é a história de alguns deles

Autorretrato no museu Van Gogh de Amsterdam.
Autorretrato no museu Van Gogh de Amsterdam.ILVY NJIOKIKTJIEN (AFP)

O enterro de Edgar Allan Poe (Boston, 1809- Baltimore, 1849) foi assistido por sete pessoas. Ele morreu sem um centavo e sem que ninguém reconhecesse seu talento, ainda que tenha trabalhado sem descanso publicando seus poemas e contos em revistas e editoras que pagavam uma miséria. A história da cultura está cheia de artistas e de obras incompreendidas que anos mais tarde obtiveram todo o reconhecimento. Para alguns foi tardio (seus autores já tinham morrido); com outros, porém, ainda foi possível se fazer justiça em vida.

Estes são alguns casos:


– Marcel Proust, Em busca do tempo perdido (entre 1913-1927)

O que a crítica disse na época. Marcel Proust teve que pagar do próprio bolso a primeira edição de No caminho de Swann, o volume inicial de Em busca do tempo perdido, depois que a La Nouvelle Revue Française, uma influente revista e editora fundada por vários escritores, entre os quais André Gide, rejeitou o manuscrito. André Gide havia conhecido Proust anos atrás e, como não lhe causara boa impressão, não deu muita atenção ao texto. De fato, conta-se que ele nem sequer o leu inteiramente porque, como dizia Luis Antonio de Villena em um de seus artigos, Gide teve a impressão de que no livro havia “muitas marquesas, muitas xícaras de chá, muita criança mimada...”. O diretor da editora Ollendorf, que também recebeu o manuscrito e também o rejeitou, justificou a decisão dizendo: “Não entendo como um senhor pode encher 30 páginas para descrever como dá voltas e mais voltas na cama antes de poder cair no sono”.

O que se disse tempos depois. O próprio André Gide reconheceria posteriormente que rejeitar o livro de Proust havia sido um dos piores erros de sua vida. Uma opinião que seria ratificada quando À sombra das raparigas em flor, o segundo volume da série, recebeu o prêmio Goncourt. Apesar dessas primeiras reticências dos especialistas, a obra à qual Proust dedicou sua vida é hoje considerada o primeiro romance moderno graças a inovações como abordar a narração na primeira pessoa e com inúmeras referências subjetivas, em vez de usar um narrador onisciente. Elementos como estes, somados a uma deliciosa galeria de personagens, são os que fizeram com que Em busca do tempo perdido influísse em gerações posteriores de criadores, da mesma forma que entediou muitos leitores que, apesar dos anos transcorridos, continuam sem encontrar atrativos em uma história com quase nenhuma ação, descrições eternas e um estilo excessivamente delicado. Tem gente para tudo.

– James Joyce, Ulisses (1922)

O que a crítica disse na época. Quando Ulisses foi publicado, Virginia Woolf escreveu em seu diário: “Me parece o livro de um analfabeto, um livro desprovido de desenvolvimento; obra de um operário autodidata e todos sabemos quanto essas obras são lamentáveis, quanto são egoístas, insistentes, primárias, cruas e, em última instância, nauseabundas”. A obra do irlandês tampouco agradou D. H. Lawrence, que afirmou que o último capítulo da obra era “a coisa mais suja, indecente e obscena jamais escrita”, para concluir que Ulisses era um “cozido pútrido” cheio de “restos velhos e pedaços de repolho de citações da Bíblia refogados no caldo da obscenidade jornalística”. Tal e qual. O mais impressionante é que a obra-prima de Joyce não foi apenas maltratada no momento de sua publicação, mas hoje também acumula detratores. Sem ir mais longe, Paulo Coelho, que afirmou que o livro do irlandês “fez muito mal à literatura porque ninguém o leu, mas todo mundo diz que o leu”. Além disso, o brasileiro considera que, a partir de Ulisses, “os escritores esqueceram a parábola como forma de narrar” e que é um livro que “só dá para um tuíte”.

O que se disse tempos depois. A publicação de Ulisses não foi isenta de dificuldades e, quando finalmente veio à luz, houve muitas críticas, a ponto de dar origem a um processo judicial por obscenidade. No entanto, com o passar do tempo, a influência da obra de Joyce foi tal que Mario Vargas Llosa chegou a afirmar: “Desde o surgimento de Ulisses, todos os romancistas contemporâneos seriam discípulos de Joyce”. Por seu lado, Samuel Beckett, que chegou a ser assistente do irlandês, chamou-a de “obra heroica” e uma infinidade de leitores e críticos destaca a revolução que implicou para a língua inglesa e para a forma de plasmar os diferentes níveis de comunicação, do monólogo interior à conversa de café ou as conversas de rua e, às vezes, tudo isso junto.

– Van Gogh, obra pictórica (por volta de 1881-1890)

O que a crítica disse na época. A carreira de Van Gogh não começou bem em termos de crítica. Um de seus primeiros trabalhos, Os comedores de batatas, foi qualificado como “irreal, feio e mal executado”. Seu amigo, o também pintor Anthon Van Rappard, chegou a escrever-lhe sobre isso: “Você concordará comigo que esse trabalho não pode ser levado a sério. (...) A arte é demasiado elevada para ser tratada com tanta negligência”. A partir daí, a coisa não melhorou. A crítica acadêmica o ignorou e os colecionadores não se interessaram por seus trabalhos. Van Gogh nunca pôde viver da pintura.

O que se disse tempos depois. Van Gogh é uma das figuras fundamentais do pós-impressionismo. Os críticos destacam sua renovação dos motivos da arte até aquela época e, principalmente, a paleta de cores, que enriqueceu e ampliou. Seu museu holandês é um dos mais visitados do mundo e há muitos colecionadores particulares que pagam fortunas por seus quadros. O retrato do Doutor Gachet, de 1890, atingiu um recorde no início dos anos noventa ao ultrapassar os 80 milhões de dólares (cerca de 335 milhões de reais). Desde então, foi vendido duas vezes mais por um valor que ronda os 100 milhões, o mesmo preço que atingiu o Autorretrato com a orelha cortada, datado de 1889.

– Orson Welles, Cidadão Kane (1941)

O que a crítica disse na época. Este filme, que geralmente lidera muitas listas dos melhores filmes da história do cinema, não foi muito apreciado em sua época. Cidadão Kane caiu mal para os críticos, especialmente os dos veículos de comunicação pertencentes a Randolph Hearst, magnata da imprensa norte-americana que serviu de base para o personagem de Kane. De fato, a produtora recebeu ofertas milionárias dos advogados de Hearst para destruir todas as cópias antes da estreia. Talvez também por influência de Hearst, o filme não ganhou nenhum Oscar e, finalmente, foi um fracasso de bilheteria. Jorge Luis Borges, que em 1941 era crítico de cinema da revista Sur, disse sobre o filme: “Cidadão Kane tem pelo menos dois argumentos. O primeiro, de uma imbecilidade quase banal, quer subornar o aplauso dos muito distraídos”. E, também, acrescentou Borges, “sofre de gigantismo, de pedantismo, de tédio. Não é inteligente, é genial: no sentido mais noturno e mais alemão dessa palavra ruim”

O que se disse tempos depois. Existem poucos críticos que não consideram Cidadão Kane uma obra-prima. Durante meio século liderou a lista dos melhores filmes da história do cinema, de acordo com a Sight and Sound, a revista do British Film Institute. Foi preciso esperar 2012 para que fosse superado por Um corpo que cai, de Hitchcock. As razões para elevá-lo à categoria de obra-prima são, entre outras coisas, as inovações técnicas colocadas a serviço da narrativa —como os planos tomados de cima para baixo, os planos tomados de baixo para cima e a incrível profundidade de campo da cena da infância de Kane— ou sua trilha sonora, escrita expressamente para o filme em vez de recorrer à música de arquivo de compositores clássicos, como era usual na época.


– Renzo Piano e Richard Rogers, Centro Pompidou (1977)

O que a crítica disse na época. Quando o Centro Pompidou foi inaugurado, em 1977, recebeu ferozes críticas negativas do público e da crítica. O jornal Le Figaro publicou a respeito: “Paris tem seu próprio monstro, como o do Lago Ness”. Outros detratores também o chamaram de “espaçonave catapultada para o coração de Paris” e de “ato grosseiro de jactância”. O desenho futurista do edifício, que lembra uma refinaria de petróleo ou uma base espacial, se chocou com os edifícios senhoriais da Cidade Luz que, anos depois, voltaria a viver uma nova polêmica arquitetônica com a pirâmide de vidro do Louvre.

O que se disse tempos depois. O Centro Pompidou é atualmente um dos edifícios mais importantes do século XX. Isso é demonstrado pela lista feita no início deste ano por cerca de cinquenta projetistas para o The Now Institute, um centro de pesquisa associado à Universidade de Los Angeles. Nessa lista, o Pompidou aparece na posição número quatro, somente atrás do Pavilhão Barcelona de Mies van der Rohe, da Notre Dame de Haut e da Villa Savoye, ambas de Le Corbusier. O edifício parisiense de Piano e Rogers está à frente da Fábrica Johnson de Frank Lloyd Wright, da Casa Farnsworth de Van der Rohe, do Guggenheim de Nova York e do terminal da TWA localizado na mesma cidade norte-americana.

– Igor Stravinsky, A Sagração da Primavera (1913)

O que a crítica disse na época. Sergei Diaguilev, empresário dos Balés Russos, encomendou a Igor Stravinsky a música para um espetáculo estrelado por Nijinski que deveria estrear em Paris. Em 1913, o Théâtre des Champs Élysées da capital francesa recebeu a primeira apresentação dessa obra, intitulada A sagração da primavera, que foi duramente criticada pelos presentes. Desde a abertura, o público se mostrou descontente com as inovações sonoras de Stravinsky. Os risos e assobios foram seguidos por gritos. O vozerio atingiu tal magnitude que os bailarinos não conseguiam ouvir a orquestra, então Nijinski, nos bastidores, teve de indicar os passos que deveriam executar. A condessa de Pourtalés, ali presente, protestou gritando: “É a primeira vez em 60 anos que alguém se atreveu a zombar de mim!”.

O que se disse tempos depois. Quando ―50 anos após a estreia— a partitura manuscrita original de A sagração da primavera foi devolvida a Stravinsky, o compositor escreveu na última página: “Espero que qualquer um que ouvir esta música jamais experimente a zombaria a que foi submetida e da qual fui testemunha no Théâtre des Champs Elysées, em Paris, na primavera de 1913”. Na época em que recebeu a partitura, no início dos anos sessenta, a obra do compositor russo já havia se tornado um clássico do século XX, graças à sua proposta inovadora que rompia com o conceito de beleza e harmonia próprio do Romantismo. De fato, as inovações de Stravinsky na música nessa e em outras criações não só tiveram efeito na esfera erudita, mas gênios do jazz como Charlie Parker também se renderam à sua criatividade e originalidade.

– Sex Pistols, Never mind the Bollocks... (1977)

O que a crítica disse na época. Os Sex Pistols não deixaram pedra sobre pedra em seu primeiro trabalho. Criticaram a rainha Elizabeth II, a gravadora EMI, a sociedade britânica quase em sua totalidade, utilizaram palavras de baixo calão... A indignação que provocaram entre os ingleses bem-pensantes fez que os funcionários da EMI, empresa encarregada de imprimir os discos da banda, se negassem a manipulá-los por considerá-los obscenos, e o mais bonito que os críticos lhes disseram foi que não sabiam tocar. O público, porém, levou o álbum ao número um das paradas britânicas.

O que se disse tempos depois. Quatro décadas após seu lançamento Never mind the Bollocks é um clássico da música pop. Alguns críticos, esquecendo-se de que os Ramones tinham lançado seu disco homônimo em 1976 (um ano antes), descrevem-no como o primeiro disco de punk da história. Há inclusive quem vá além e o qualifique como “o melhor disco da história”, como fizeram em 1988 os leitores que participaram de uma votação da revista inglesa Q. A Rolling Stone, por sua vez, o colocou no 41º lugar na lista dos melhores discos já gravados.

– Paul Verhoeven, ‘Robocop’ (1987)

O que a crítica disse na época. Paul Verhoeven teve que remontar Robocop mais de dez vezes para evitar que recebesse a classificação R (para maiores de 18 anos). Apesar disso, a violência de muitas de suas cenas, algumas das quais roçavam o sadismo, fez muitos especialistas, como o crítico britânico Barry Norman, não a tratarem muito bem em suas resenhas. Tampouco agradou a personagem de Nancy Allen, colega policial do Robocop, que, na opinião de jornalistas como Susan Faludi, seguia a tradição do cinema comercial de criar personagens femininos sem personalidade nem nada para contribuir.

O que se disse tempo depois. Trinta anos e várias sequências depois, Robocop já é um clássico da ficção científica graças justamente a algumas daquelas coisas que, na época, jogaram contra o filme, como a violência, o humor e as críticas aos meios de comunicação e ao neoliberalismo. Além disso, como dizia a revista Fotogramas, “suas inevitáveis sequências foram muito inferiores”, o que demonstra que, apesar de ser um produto de Hollywood, o filme original tinha esse toque de autor que só Verhoeven poderia lhe dar.

– Giacomo Puccini, La bohème (1896)

O que a crítica disse na época. A ópera de Puccini estreou no Teatro Régio de Turim em fevereiro de 1896. Embora a orquestra fosse regida por Arturo Toscanini (chamado de O Maestro, como se não houvesse outro igual), o público e a crítica receberam a montagem com frieza. Pareceu, no dizer de um dos críticos, “muito popular, com melodias fáceis e excessivamente açucarada”. Em 1898, data de sua estreia no teatro Liceu, de Barcelona, o crítico do La Vanguardia advertia aos leitores: “Não esperem grande coisa da partitura do jovem compositor italiano”. Meses mais tarde, aquele mesmo jornal recebia uma irada carta em que um leitor se queixava de que La bohème tivesse sido selecionada como uma das melhores óperas do ano. Segundo ele, a obra do Puccini era “leve, servida como diversão extraordinariamente tenoril”, e com uma partitura que podia ser definida como “uma deliciosa mentira musical ouvida sempre com gosto e com comodidade”.

O que se disse tempos depois. Apesar dessa má acolhida, La bohème se tornou rapidamente uma das peças-chaves do repertório operístico, porque companhias de todo o mundo começaram a interpretá-la. O sucesso foi tal que a casa de partituras Sonzogno encarregou a Ruggero Leoncavallo outra ópera chamada Bohemia para tentar tirar uma lasca do negócio das partituras, como tinha feito Ricordi vendendo as de Puccini. Por volta de 1900, apenas quatro anos depois de sua estreia, a crítica tinha mudado de parecer, e em 1905 a temporada operística do Covent Garden londrino programou seis apresentações de La bohème, que só foi superada por Il Trovatore , de Verdi, e Madame Butterfly, de Puccini, representadas sete e onze vezes, respectivamente.

– Ludwig van Beethoven, Quinta sinfonia (1808)

O que a crítica disse na época. A estreia da Quinta sinfonia de Beethoven ocorreu em 22 de dezembro de 1808, em Viena. A orquestra era regida pelo próprio compositor, mas a falta de ensaios fez a interpretação ser um desastre, a tal ponto que algumas peças tiveram que ser interrompidas e reiniciadas. Tampouco ajudou que o programa desse dia fosse inteiramente composto por obras de Beethoven, e que o espetáculo durasse mais de quatro horas. Tudo isso fez que até os maiores fãs do músico alemão não soubessem apreciar a Quinta.

O que se disse tempos depois. Apenas alguns meses depois de sua estreia, a Quinta Sinfonia voltou a ser programada. Entre o público se encontrava o escritor E.T.A. Hoffmann, que ficou admirado com a sensibilidade de Beethoven e sua ambiciosa forma de compor música. Depois da audição, Hoffmann, que também era compositor e crítico musical, escreveria: “A Quinta sinfonia é uma das obras mais importantes do maestro, a quem ninguém pode negar hoje em dia a primeira posição na classificação dos compositores de música instrumental”.

– George Orwell, A revolução dos bichos (1945)

O que a crítica disse na época. O romance de George Orwell foi rejeitado por vários editores, alguns dos quais não consideravam oportuno publicar uma história crítica ao stalinismo quando a URSS ainda era uma aliada da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Outros, sem notarem as conotações políticas da história, rechaçaram-na argumentando que “é impossível vender histórias de bichos nos Estados Unidos”. Em todo caso, a negativa mais chamativa de todas chegou a Orwell pelas mãos do poeta T.S. Eliot, que qualificou o romance de trotskista, ao mesmo tempo em que aconselhava não publicá-lo porque, na sua opinião, “não era a melhor forma de criticar a situação política que o mundo atravessa”.

O que se disse tempos depois. Finalizada a Segunda Guerra Mundial, A revolução dos bichos finalmente saiu. O desaparecimento de Hitler como inimigo comum fez aflorarem os antigos enfrentamentos entre os Estados Unidos e a URSS, e ao bloco ocidental já não era mais tão inconveniente uma crítica inteligente, mas até certo ponto velada, ao regime soviético. Desta forma, este se tornou um dos livros mais populares de Orwell, junto com 1984, e deu lugar a diferentes adaptações, tanto radiofônicas —entre as quais destaca a de 1947 da BBC— como cinematográficas, teatrais e inclusive musicais. O Pink Floyd, por exemplo, inspirou-se no livro para compor Animals, disco de 1977 em que se destacam canções como Pig, Sheep e Dog, que fazem referência a alguns dos personagens do romance

– Stephen King, Carrie (1974)

O que a crítica disse na época. Embora atualmente ninguém discuta o talento e a qualidade de Stephen King como narrador, o fato é que não foi nada simples para o escritor norte-americano publicar seu primeiro romance. Foram vários —dizem que mais de 30— os editores que a rejeitaram por não se encaixar nos cânones do terror da época. Entretanto, quando finalmente saiu pela editora New American Library, chegou a vender 30.000 exemplares em formato bolso no primeiro ano. Apesar desse sucesso, Carrie é, por seu conteúdo, um dos livros mais censurados nos colégios dos Estados Unidos.

O que se disse tempos depois. Carrie é um clássico do terror tanto em sua versão literária como na adaptação cinematográfica Carrie, a estranha, feita por Brian de Palma em 1976, com Sissy Spacek no papel de Carrie White. O livro de King inaugurou uma nova forma de abordar o terror, ao ambientar as histórias não em paragens inóspitas ou casas mal assombradas, e sim em cenários urbanos cotidianos, como um colégio. Além disso, os protagonistas não eram monstros, cientistas loucos ou zumbis, e sim adolescentes com problemas de adaptação e em pleno despertar sexual, que provocam muito mais medo.

– Nick Drake, Pink moon (1972)

O que a crítica disse na época. “A verdade é que, depois de receber umas duas dúzias de mensagens da Capitol Records elogiando Nick Drake, eu esperava muito mais do que este insípido monte de lixo”, dizia o crítico norte-americano David F. Wagner sobre Pink moon, o terceiro disco do cantor e compositor britânico. “Parece um fã a meio caminho entre Cat Stevens e Donovan (...). Não sabe cantar, e as letras são uma estupidez”, acrescentou Wagner. Embora seja verdade que nem toda a crítica foi tão cruel, tanto Pink moon como os dois trabalhos anteriores de Drake não foram bem recebidos nem pelos especialistas nem pelo público. Uma situação que levou o artista a uma profunda depressão, que acabaria causando sua morte por ingestão excessiva de antidepressivos, sem que ainda hoje esteja claro se foi um fato acidental ou intencional. Tinha 26 anos.

O que se disse tempos depois. Nick Drake é um dos artistas pop mais importantes da segunda metade do século XX, e Pink moon é seu melhor disco. Este sóbrio LP marcou as seguintes gerações de músicos e fãs, e, embora tenha sido necessário que transcorressem várias décadas desde sua publicação, também foi avaliado muito positivamente por revistas especializadas, como Mojo e Q. De fato, Pink Moon foi eleito pela edição inglesa da Rolling Stone como um dos 500 melhores discos da história, como um dos 200 melhores pela Uncut, e como um dos 100 melhores pela Melody Maker.

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