Corey Feldman, o ex-astro infantil em quem ninguém acredita: abusos, delírios e predadores sexuais

Quando o ator de ‘Os Goonies’ se aproxima dos 50 anos, um documentário da HBO aborda o problema de ser criança em Hollywood. Das vidas de estrelas infantis, a de Feldman parece a mais perturbadora

Corey Haim e Corey Feldman em uma foto de arquivo. Em vídeo, trailer do documentário ‘(My) Truth: The Rape of 2 Corey’s’.

As crianças-prodígio parecem ter apenas dois destinos possíveis: morrer jovens ou viver para contar a crueldade de Hollywood. A vida de Corey Feldman (Los Angeles, 1971) contém todos os itens sórdidos das estrelas infantis. Explorado por seus pais, viciado em drogas aos 15 anos, arruinado aos 20. Mas ele se recusa a ser só um clichê e luta há uma década para que aqueles que abusaram sexualmente dele e de seu melhor amigo, Corey Haim (que morreu em 2010 aos 38 anos), paguem por seus crimes. Todas as crianças dos anos oitenta sonhavam com as aventuras que Feldman vivia (tinha uma mascote incrível em Gremlins, descobria um tesouro pirata em Os Goonies, fugia de casa em Conta Comigo, caçava vampiros em Os Garotos Perdidos), mas, por trás das câmeras, como ocorre muitas vezes com as estrelas infantis, sua vida era um filme de terror.

A primeira lembrança de Corey Feldman é participar de um anúncio do McDonald’s aos três anos. Seu pai, um músico frustrado que tinha conseguido um sucesso nos anos sessenta, e sua mãe, uma ex-coelhinha da Playboy, transformaram-no no responsável por manter toda a família e, quando estreou no cinema, aos 12 anos (com Sexta-feira 13, Parte 4: O Capítulo Final), já tinha aparecido em 50 anúncios e 100 episódios de televisão. Sua mãe oxigenava seu cabelo, dava-lhe comprimidos para emagrecer e batia nele com um pedaço de madeira sempre que não conseguia um papel. Ele mesmo contou que os filmes se transformaram em seu único espaço seguro, porque sua mãe não o maltratava durante as filmagens, para que não aparecesse com hematomas diante das câmeras. O diretor de Conta Comigo, Rob Reiner, deu a ele o personagem de Teddy (cujo pai, um veterano de guerra cruel e alcoólico, tinha queimado uma orelha do filho) porque nenhuma outra criança do elenco guardava tanta dor e tanta raiva em seu olhar. Corey tinha 14 anos.

Naquela filmagem, experimentou maconha e álcool com River Phoenix (que morreu de overdose em 1993, aos 23 anos) e foi arrastado pela vida noturna da Hollywood dos anos oitenta, uma década com tantas crianças-prodígio e tão pouco controle que foram abertas várias discotecas infantis em Los Angeles. Uma delas era a Soda Pop e seu dono, Alphy Hoffman, abusava sexualmente de sua clientela (Feldman também apontou o pai de Hoffman como um de seus predadores). Na Soda Pop, estrelas infantis como Alyssa Milano, Christina Applegate e Ricky Schroder compartilhavam festas com adultos, como o agente de pequenos atores Marty Weiss e o assistente de Feldman, Ron Crissom. Ambos acabariam cumprindo condenações por abuso de menores. Crissom iniciou Corey Feldman na cocaína e na heroína e chegou a lhe dar comprimidos para abusar sexualmente dele. “Eu tinha medo de dizer para ele parar, então fechava os olhos e fingia estar dormido”, confessaria Feldman ao Los Angeles Times.

Aos 15 anos, Feldman se emancipou de seus pais e descobriu que, do 1,1 milhão de dólares (5,9 milhões de reais) que havia ganho com sua série de sucessos, restavam apenas 46.000 (247.000 reais0. Toda noite Corey dormia com o revólver de seu avô debaixo travesseiro: “Eu costumava apontá-lo contra minha cabeça e pensar: ‘Deus, por que sou tão feio? Por que estou tão gordo?’ Eu me odiava e queria me matar”, revelou o ator à revista People. Feldman conta que ainda tem uma foto de seu 15º aniversário em que ele e Corey Haim posaram rodeados por cinco de seus predadores sexuais.

A popularidade daqueles que ficaram conhecidos como “os dois Coreys” os levaria a rodar 12 filmes juntos. Segundo Feldman, Haim lhe confessou que tinha mantido relações sexuais com Charlie Sheen (seu colega de elenco em A Inocência do Primeiro Amor) quando tinha 13 anos e Sheen, 19. Sheen negou as acusações de Feldman em um comunicado. A atriz infantil Alison Arngrim (da série Os Pioneiros) disse à Rolling Stone que “essa era a fofoca dos anos oitenta, as pessoas diziam que ‘todo mundo transou com os Coreys, vão passando-os uns aos outros”.

Os garotos iam a festas na mansão Playboy convidados por Hugh Hefner. Certa vez, o cofundador da Soda Pop Randy Miller entrou em uma limusine com Corey Haim e uma onça-pintada que ficou agressiva e teve de ser alvejada com um tranquilizante. Para celebrar o fim da filmagem de Um Sonho Diferente, os Coreys deram uma festa em uma suíte do Four Seasons à qual compareceram mil pessoas, e na manhã seguinte o hotel cobrou do estúdio uma conta de quase 10.000 dólares (54.000 reais): uma geladeira acabou no jacuzzi, voaram TVs pela janela e uma stripper acabou banhada em champanhe por Haim e Schroder. No filme para a televisão A Tale of Two Coreys (“uma história de dois Coreys”), de 2018, Feldman perde a virgindade com uma fã de Os Goonies que exclama: “Não posso acreditar que esteja cheirando coca com o Mouth!”.

Uma noite, Haim quis ter relações sexuais com Feldman (tentou convencê-lo dizendo que isso era normal em Hollywood). Para se livrar, Feldman disse para ele ir ver Robert Brascia, um ator de 30 anos que tinha mostrado interesse por Haim. Naquele momento, o melhor amigo de Feldman era o comediante Sam Kinison, de 35 anos, e sua brincadeira favorita era competir por ver qual dos dois conseguia cheirar mais fileiras. Como conta em sua autobiografia, Coreyography, na adolescência, Feldman chegou a consumir dois gramas de cocaína por dia e a gastar diariamente cerca de 300 dólares (1.600 reais) em drogas. “Eu me sentia destroçado, arrasado, com nojo. Precisava de um pouco de normalidade em minha vida. Então, liguei para o Michael Jackson.”

Feldman afirmou que Jackson nunca abusou dele, embora uma vez tenha lhe mostrado um livro com imagens de genitais. “O mundo do Michael, por mais maluco que pareça, era meu lugar feliz. Ele era inflexível contra as drogas e o álcool, em nem mesmo dizia palavrões diante dele. Estar com o Michael me devolveu a inocência, com ele eu sentia ter dez anos novamente”, assinalou o ator. Steven Spielberg os apresentou e mantiveram sua amizade até 2001, quando Feldman se sentiu abandonado pelo cantor.

Antes de fazer 20 anos, Feldman foi detido três vezes por posse de heroína. Aos 22, estava vendendo seus CDs nas ruas para conseguir dinheiro. Durante um de seus tratamentos de desintoxicação, injetou-se heroína pela primeira vez, juntamente com Dave Navarro (guitarrista do Red Hot Chilly Peppers) e Perry Farrell (vocalista do Jane’s Addiction). Em sua pior época, chegou a gastar mais de 1 milhão de dólares (5,4 milhões de reais) em drogas em um ano. E em 1995, aos 24 anos, desintoxicou-se definitivamente. Está limpo desde então.

Corey Feldman era uma glória do passado, um divorciado e uma piada para os humoristas (“Corey Feldman foi esfaqueado ontem à noite em seu carro”, brincou o comediante Patrick McLellan a respeito a um incidente real. “Já não estamos seguros nem em nossa própria casa!”) em uma idade em que a maioria das pessoas está terminando a universidade. O ator recorreu ao cinema B (Almôndegas 4, Assassinatos para Iniciantes) e a reality shows. Casou-se com uma modelo em um programa de televisão, em uma cerimônia oficiada por MC Hammer. No reality The Two Coreys (“os dois Coreys”), de 2008, Haim se instalava em sua casa durante um tratamento de reabilitação e, em um dos episódios, reclamava em sua cara por não o ter protegido dos predadores: “Você deixou que um cara com quem você ainda tem amizade me estuprasse, eu tinha 14 anos. E o que você fez? Colocou fileiras [de cocaína] para mim e estragou minha vida”. (Feldman apresentou Haim à cocaína e à heroína. Entre 1994 e 1999, dividiu uma casa com Brascia, o ator que tinha mostrado interesse sexual por ele quando era menor).

Em 2016, Feldman fundou o projeto musical Corey’s Angels, no qual cantava e dançava com movimentos espasmódicos rodeado de garotas de lingerie com asas e halos. As “anjinhas” eram coelhinhas que Feldman resgatou da mansão Playboy para ajudá-las a realizar seus sonhos. “Nenhuma precisa se deitar comigo”, esclareceu. Sua atuação no programa de TV Today viralizou na Internet e ele foi alvo de todo tipo de zombarias, alimentadas por um artigo da Vice sobre as festas que, naquela época, eram a principal fonte de renda de Feldman.

Era preciso pagar 250 dólares (1.345 reais) para participar de um evento na “Feldmansion”, 500 (2.690 reais) para passar uma hora na banheira com uma das “anjinhas” e 2.500 (13.450 reais) para passar a noite em um quarto. A reportagem da Vice assinalou que mal havia gente nas festas.

Meses depois, oito das anjinhas de Feldman o acusaram nas redes sociais de abusos sexuais, maus-tratos e exploração. Afirmaram que não podiam comer carne e que eram obrigadas a se drogar e a observar as relações sexuais do ator com outras garotas (quase sempre ansiosas para vencer em Hollywood, algumas delas menores de idade). Courtney, a terceira esposa de Feldman e ex-coelhinha e anjinha, era quem convencia as garotas de que não tinham opção a não ser se submeter aos desejos do líder do grupo. Corey Feldman afirmou tratar-se de uma campanha contra ele perpetrada pelo Wolfpack, um grupo que, segundo o ator, ataca-o em várias redes sociais.

A missão do Wolfpack era afundar sua carreira, desprestigiar sua imagem e intimidá-lo com ameaças de morte para que não revelasse as redes de pedofilia que agem nas altas esferas de Hollywood. Feldman pediu 10 milhões de dólares (54 milhões de reais) para poder enfrentar as consequências de publicar um documentário no qual contaria finalmente todos os detalhes, com nomes e sobrenomes, sobre aqueles abusos sexuais. Segundo ele, a líder do Wolfpack é a mãe daquele que foi seu grande amigo, Corey Haim.

Judy Haim critica Feldman há anos por explorar a memória de seu filho para lucrar economicamente, e negou que Charlie Sheen abusasse dele. Chamou Feldman de mentiroso, doente e vigarista. Judy Haim também se defende daqueles que a culpam pela inocência truncada de seu filho: “A indústria e a mídia sempre culpam os pais. Mas você só pode vigiá-los até certo ponto. O que se supõe que eu deveria ter feito? Ir a todas as festas com ele? Acompanhar cada filmagem? E se um produtor quisesse ler um roteiro com ele em seu camarim? Meu filho saiu um dia para jogar bilhar com seus amigos e ocorreu tudo aquilo com ele”.

Em março deste ano, o documentário (My) Truth: The Rape of Two Coreys (“minha verdade: o estupro de dois Coreys”) finalmente foi lançado, apesar de vários problemas técnicos que Feldman atribuiu a uma invasão hacker por parte de seus inimigos. No documentário, Susie Sprague (a segunda esposa do ator), Jamison Newlander (coprotagonista de Os Garotos Perdidos) e três outras pessoas que trabalharam com Haim confirmam a história de que Sheen abusou do garoto. Os cinco asseguram que Haim lhes contou que o protagonista de Top Gang! e Two and a Half men o estuprou entre dois trailers usando gordura vegetal Crisco como lubrificante. Sheen se limitou a divulgar um comunicado afirmando que “essas alegações doentias, distorcidas e bizarras nunca ocorreram; levem em conta a fonte delas e ouçam o que sua mãe, Judy Haim, tem a dizer sobre isso”. Sheen também entrou com uma ação contra o tabloide National Enquirer, mas acabou retirando-a.

Feldman diz que, além daquela agressão em seu carro com uma seringa, uma vez dois caminhões tentaram empurrar seu carro para fora da estrada. Sua paranoia de perseguição e as acusações das “anjinhas” fazem dele uma vítima imperfeita (assim como Asia Argento e Rose McGowan no movimento #MeToo), mas levando em conta a descoberta de que Harvey Weinstein chegou a contratar agentes do Mossad para destruir a reputação de mulheres que pretendiam denunciar seus abusos, é preciso ter em mente que às vezes as histórias mais terríveis acabam se revelando reais.

Depois da transmissão do documentário, Feldman abandonou os Estados Unidos, temendo represálias. Às vezes vai a reuniões com uma câmera escondida, porque já não confia em ninguém. “As pessoas traem constantemente minha confiança e a usam contra mim. É emocionalmente devastador. Sou uma pessoa inteligente, mas há algo em mim muito ingênuo. Ainda existem muitas coisas no mundo que não entendo, mas estou aprendendo”, afirmou à Rolling Stone. Considera que a imprensa o utiliza, que seus amigos o traem e que a indústria ri dele. E, com quase 50 anos, continua se surpreendendo sempre que isso ocorre, não como um homem cínico, mas como uma criança que foi enganada por todos os adultos que a cercavam.

Recentemente, perguntaram a Feldman se tinha visto Stranger Things, um fenômeno da Netflix que apela à nostalgia de basicamente toda a filmografia de Corey Feldman. Ele respondeu: “Uma turma de crianças dos anos oitenta que andam de bicicleta e tentam derrotar uma conspiração perversa, mas nenhum dos adultos as ouve nem acredita nelas? Pois é. Essa foi minha infância”.

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