“Notei uma sensação estranha, como se sua alma o abandonasse”: as últimas horas de Ayrton Senna

A morte do brasileiro, que estaria completando 60 anos, representou um ponto de inflexão na Fórmula 1 e ajudou a salvar a vida de muitos pilotos

Ayrton Senna antes do início da corrida do Grande Prêmio de San Marino de 1994, onde perdeu a vida depois de seu carro se espatifar na curva Tamburello durante a sétima volta. O piloto tinha 34 anos.
Ayrton Senna antes do início da corrida do Grande Prêmio de San Marino de 1994, onde perdeu a vida depois de seu carro se espatifar na curva Tamburello durante a sétima volta. O piloto tinha 34 anos.Foto: Getty

Em 29 de abril de 1994, Rubens Barrichello sofreu um acidente pavoroso no circuito de Ímola (Itália), do qual apenas os mais otimistas esperavam vê-lo sair vivo. “Lá estava ele, preso naquele Jordan capotado e destroçado, endireitado com intenso furor pelos seguranças. Inconsciente, com a língua dobrada. Afogando-se”, lembra o jornalista italiano Giorgio Terruzzi, que naquele fim de semana cobria o Grande Prêmio de San Marino, em seu livro L’Ultima Notte di Ayrton Senna. Barrichello, que ainda não completara 22 anos, sobreviveu e seu amigo Ayrton Senna, 34, foi vê-lo na enfermaria o mais rápido que pôde. O que o tricampeão mundial não sabia é que, ao contrário de Barrichello, que milagrosamente se salvou, ele estava vivendo suas últimas 48 horas.

A imprensa especializada logo começou a se referir à sexta-feira 29, sábado, 30 de abril e domingo, 1º de maio de 1994 como o fim de semana mais sombrio da história da Fórmula 1. Barrichello não se lembra diretamente daqueles dias. “Passados 20 anos, Barrichello não se lembra. Não se lembra da visita de Ayrton na enfermaria de Ímola. Não se lembra de ter ido ao box de Ayrton no dia seguinte para se despedir antes de voltar para a Inglaterra por ordem do Dr. Watkins. Nada de corridas por um tempo. A amnésia, decorrência do grave traumatismo craniano, durou meses. E, em certos aspectos, durará para sempre”, relata L’Ultima Notte di Ayrton Senna. Já Ayrton Senna, aterrissou em Ímola carregado de más sensações; não se sentia confortável com a Williams que dirigia e o acidente de Barrichello havia aumentado sua inquietação.

“Ele nunca confessou isso publicamente, mas comentava-se que o carro que ele dirigia na Williams tinha facilidades eletrônicas que não eram permitidas nas corridas”, disse ao EL PAÍS Rafa Payá, jornalista especializado em Fórmula 1 no jornal As. “Seu sonho era pilotar na Ferrari; deixar a McLaren para começar a Williams em 1993 era o passo intermediário que ele tinha que dar para alcançar seu objetivo, mas as coisas na escuderia inglesa não estavam indo como ele esperava. Senna dava muita importância à segurança e não sentia que sua equipe o respaldava nesse sentido”, observa Payá.

Giorgio Terruzzi concorda e explica ao EL PAÍS que falar sobre segurança sempre foi um assunto tabu no mundo do automobilismo. “Os pilotos nunca falam sobre a morte ou o perigo que correm cada vez que rodam pelo circuito”, diz o italiano.

Conforme relatado no livro de Terruzzi, Ayrton Senna havia chegado a Ímola mais tarde do que o normal. “Os pilotos costumam chegar na quarta-feira ao circuito onde vão correr no fim de semana”, diz Rafa Payá. O brasileiro apareceu lá na quinta-feira, um dia antes de Barrichello sofrer o acidente espetacular, e estava enfrentando um fim de semana difícil. Era a terceira corrida da temporada, não havia conquistado nenhum ponto nas duas anteriores e um jovem, e quase recém-chegado, Michael Schumacher vinha em seu encalço.

“Senna tinha certeza de que o carro de Schumacher estava usando facilidades eletrônicas ilegais na época, e isso o torturava”, afirma Terruzzi. Mas não era a única coisa que o torturava. No Brasil e no Japão, apesar de ter obtido o melhor tempo na classificação e ter saído em primeiro no grid de largada, teve que abandonar a corrida depois de sofrer um acidente nos dois circuitos. Ele sabia que não tinha escolha a não ser ficar em primeiro lugar em Ímola, mas também sabia que o seu carro não era vencedor. “Não posso dirigir, tudo está rígido, o carro pula a todo momento. Parece uma cadeira elétrica”, disse Senna assim que chegou ao circuito.

Ayrton Senna estava nervoso. "Ele era muito tranquilo antes de correr, sempre se sentava no carro para ler a Bíblia. Mas naquele fim de semana estava inquieto e não queria correr", diz o especialista em Fórmula 1. No sábado, 30 de abril, aconteceu algo que causou comoção no mundo do esporte e fez com que Senna e outros pilotos se recusassem a correr no dia seguinte. O carro do austríaco Roland Ratzenberger, de 33 anos, bateu a 320 quilômetros por hora durante a classificação para o Grande Prêmio de San Marino. O piloto perdeu a vida quase instantaneamente: exatamente oito minutos depois de ter sido levado por um helicóptero. Era o segundo acidente em Ímola em menos de 24 horas. Não seria o último.

Senna estava no box quando Ratzenberger perdeu o controle do carro. Depois de assistir às imagens em câmera lenta no monitor, ele começou a chorar descontroladamente. Sid Watkins, médico que havia atendido Barrichello no dia anterior e a Ratzenberger, um pouco antes e sem êxito, recebeu o brasileiro na enfermaria. Eram amigos e, como relatado em L'Ultima Notte di Ayrton Senna, ele lhe deu um conselho: "Ayrton, deixa pra lá, não corra amanhã, há muitas outras coisas na vida. Você ganhou três campeonatos mundiais, é o melhor piloto do mundo. Não precisa se arriscar agora. Vamos sair daqui, vamos pescar." O piloto ficou em silêncio por um longo tempo e, de acordo com o próprio Watkins em seu livro Life at the Limit: Triumph and Tragedy in Formula One, ele lhe respondeu assim: "Há coisas que escapam ao nosso controle. Preciso continuar".

Giorgio Terruzzi garante que Senna não queria correr no domingo. “Quando olho para trás, lembro que a atmosfera estava muito tensa. O acidente de Ratzenberger foi algo horrível que nós, que estávamos lá, presenciamos, e isso nos marcou. Vimos muito sangue e eu cometi a estupidez de ir ver o carro após o acidente, e Ayrton também fez isso. Ele estava realmente triste e preocupado”, comenta o jornalista italiano.

Segundo Terruzzi em seu livro, o brasileiro suplicou ao chefe da Williams, Frank Williams, que pedisse o cancelamento da corrida do dia seguinte. “Estava convencido de que, depois dos acidentes de Barrichello e Ratzenberger, os pilotos não estavam em condições de competir”, conta Terruzzi, que naquela tarde testemunhou o momento em que Senna fez estas declarações reveladoras: “Consegui o melhor tempo, mas isso não significa que as coisas vão bem. Esta pista é um desastre ... Os carros são imprevisíveis, correm muito e é difícil dirigi-los. Será um ano com muitos acidentes e acho que estaremos com sorte se nada grave acontecer”.

Na noite de sábado, 30 de abril, Ayrton ligou para sua namorada, a modelo Adriane Galisteu. Ela, 12 anos mais jovem que ele, estava em Sintra (Portugal) e eles planejavam se encontrar depois do GP de domingo. “Tudo está uma merda, um austríaco bateu e se matou. Eu vi tudo. Morreu na minha frente. Sabe de uma coisa? Eu não quero correr.” É assim que Terruzzi reproduz a conversa do casal. “Nunca tinha escutado Ayrton falar desse jeito”, confessou Galisteu tempos depois.

No final de 1994, Adriane publicou Caminho das Borboletas, livro em que recordava assim sua história com Ayrton: “Quando o conheci, eu tinha 19 anos, ele, 31. Nos divertíamos muito e acho que eu lhe dava jovialidade em sua rotina, que era cheia de responsabilidades. O maior legado que Ayrton me deixou foi ter força para realizar meus sonhos. Nunca imaginei que ele poderia morrer fazendo o que mais amava e o que sabia fazer melhor. Em um piscar de olhos, tudo muda e não volta mais.”

Ayrton passou sua última noite com vida no Hotel Castello em Castel San Pietro Terme. Ali sempre ficava no quarto 200. Frank Williams, o chefe de sua escuderia, ficava no quarto 100, um andar abaixo, e Ron Dennis, chefe da McLaren, no quarto 300, apenas um andar acima. Jantou na trattoria Romagnola com vários amigos e jornalistas, e pouco depois das 22 horas ao retornou ao hotel.

"Senna era empático e se preocupava com as pessoas. Nos grandes prêmios era o grande defensor dos pilotos, apoiava quando alguém tinha alguma queixa ou não se sentia à vontade", lembra Rafa Payá sobre o brasileiro, sem deixar de salientar que era um homem muito peculiar. "Era mulherengo, apesar de muito católico. No Brasil, casou-se com a que havia sido sua grande amiga de infância, Lilian de Vasconcelos Souza, mas logo se divorciaram, e a partir desse momento Senna teve 300 namoradas. Mas também gostava muito de ficar sozinho e seus relacionamentos amorosos não o afetavam profissionalmente, sabia como se isolar. Os problemas que tivesse fora das pistas não o perturbavam", observa Payá.

"Durante muito tempo, Senna teve relações curtas, completamente desprovidas de envolvimento emocional", concorda, em seu livro, o jornalista Giorgio Terruzzi, que também menciona a estreita relação do piloto com a religião. "Deram-lhe uma Bíblia e ele começou a ler passagens. Rapidamente aprendeu a compartilhar com Deus suas decepções, aspirações e êxitos."

Joaquín Jo Ramírez, coordenador da McLaren, a equipe pela qual Senna conquistou seus três títulos, falou ao EL PAÍS sobre Senna em maio de 2019: “Era uma dessas pessoas com aura, com uma eletricidade especial. Se ele entrasse em uma sala, a atmosfera desse lugar mudava.”

No domingo, 1º de maio de 1994, Ayrton Senna estava exausto. Mal dormira, com a mente dando voltas pelos acidentes de Barichello e Ratzenberger e também a má relação que sua família mantinha com Adriane, que não aceitavam. Quis falar com Gerhard e Niki Lauda assim que chegou ao circuito. "É preciso agir com rapidez e tomar decisões sobre a segurança, mesmo que isso envolva confrontos", disse o piloto, de acordo com L'Ultima Notte di Ayrton Senna.

O brasileiro chegou ao circuito de Imola depois das oito da manhã, acompanhado por seu irmão, Leonardo. Conversou com Lauda sobre uma reunião na semana seguinte para decidir que medidas tomar em relação à segurança nos grandes prêmios e vestiu o macacão para iniciar o aquecimento. Já no carro, rodando na pista, dedicou algumas palavras por rádio a seu eterno rival, Alain Prost (que se aposentara no ano anterior e estava no estande dos comentaristas): “Gostaria de enviar uma mensagem a Alain Prost: Alain, sinto sua falta”.

Alain Prost e Ayrton Senna protagonizaram o desafio mais selvagem da história do automobilismo. A rivalidade fez com que a Fórmula 1, mais do que nunca, se consolidasse no imaginário coletivo. O público não queria perder o duelo de ambos no asfalto, e as corridas eram seguidas por multidões. Prost, conhecido como “O Professor”, tinha quatro campeonatos mundiais (1985, 1986, 1989 e 1993). Senna acumulava três (1988, 1990 e 1991). Em 1988 e 1989 ambos estiveram na McLaren e conseguiram – num ano, Senna; no seguinte, Prost – que a escuderia ganhasse o campeonato.

“A escolha de meu companheiro em 1988 estava entre Senna e Piquet. Eu disse a Ron Dennis [diretor da McLaren] que devia escolher Ayrton, porque era o piloto com mais talento, e para mim a equipe vinha em primeiro lugar. Se agora fosse começar de novo minha carreira, agiria de forma diferente, me concentraria mais em mim e no meu trabalho. Podia ter dito não à chegada de Ayrton à McLaren. Uma de minhas virtudes é que, quando tomo uma decisão, normalmente não me arrependo. Mas definitivamente errei naquela ocasião”, contou Alain ao jornalista Nigel Roeucken em 1998, quatro anos depois da morte de Senna.

Em 1990, Prost foi contratado pela Ferrari e colocou como condição não ter Senna como companheiro de equipe, fechando assim as portas ao brasileiro, que sempre havia querido competir pela escuderia presidida por Luca Cordero di Montezemolo. Mas em 1993, aos 38 anos, ele se aposentou e Senna viu a chance de fechar contrato oficialmente com a Ferrari – o que nunca chegou a acontecer. “O presidente da Ferrari disse em mais de uma ocasião que era questão de tempo até que Senna fizesse parte de sua equipe”, diz Rafa Payá. Mas Ayrton morreu antes de cumprir seu sonho de vestir o macacão vermelho.

No último domingo da vida de Senna, ao concluir a volta de aquecimento, o piloto se dirigiu aos jornalistas que o esperavam e disse uma frase hoje considerada premonitória: “A Fórmula 1 não voltará a ser a mesma depois deste fim de semana.”

Minutos antes de iniciar aquela que foi última corrida de Ayrton Senna, no box do piloto reinava uma calma que contrastava com o alvoroço na Benetton de Schumacher e na Ferrari de Berger. Enquanto eram acertados os últimos detalhes antes do início da prova, Giorgio Terruzzi, que estava lá, recorda que Senna estava “mergulhado em suas meditações”, alheio ao caso à sua volta. A corrida começou, e não demorou para que ocorresse o desastre. Na sétima volta do circuito de Ímola, na curva Tamburello, Ayrton Senna perdeu o controle do veículo e colidiu contra o muro. O braço direito da suspensão dianteira saiu disparado em direção à sua cabeça e o acertou justo abaixo da viseira. “Quando vimos sua cabeça se mexer no carro, pensamos que estava vivo”, confessou anos mais tarde Barrichello.

Terruzzi recorda que seu primeiro pensamento foi de negação: isso não podia estar acontecendo com Ayrton. “Minha cabeça não estava preparada para assimilar que Senna podia morrer no circuito. Ele era o chefe, e sem ele a Fórmula 1 não tinha sentido. Eu não queria perceber a gravidade da situação.”

Demoraram quatro minutos para tirá-lo do carro. Realizaram uma traqueotomia, mas não havia nada a fazer para salvar sua vida. Ayrton, como compreendeu o doutor Watkins, mostrava sinais de morte cerebral. O médico da Fórmula 1 recorda em seu livro como encontrou o brasileiro deitado na pista. “Suspirou profundamente. Tinha a cara tranquila. Parecia dormir. Enquanto estava socorrendo, notei uma sensação estranha, como se sua alma o abandonasse.” Às 18:40 do domingo 1.o de maio de 1994, foi certificada a morte de Ayrton Senna.

“O pior veio duas semanas depois, quando aceitei que ele havia morrido”, confessou Schumacher, que venceu a corrida de Ímola naquele domingo. “Pensei que Ayrton podia ter quebrado uma perna ou um braço, mas que tudo continuaria igual. Foi depois do pódio que me disseram que ele estava em coma. Eu sabia que há vários tipos de coma, mas havia muitas informações contraditórias. Não sabia o que pensar. Não podia imaginar que ele pudesse chegar a morrer. No máximo, perderia algumas corridas e pronto.”

Como afirma Rafa Payá, a segurança na Fórmula 1 nunca foi uma prioridade. Após a morte de Senna, contudo, começou a ser considerada um assunto de suma importância. Foram tomadas medidas que conseguiram fazer a Fórmula 1 passar 20 anos sem mortes. Embora hoje as medidas de prevenção de acidentes sejam enormes, o francês Jules Bianchi morreu aos 25 anos depois de passar nove meses em coma em decorrência das sequelas deixadas pelo acidente sofrido no Grande Prêmio do Japão em 2014. “A morte de Ayrton Senna foi um ponto de inflexão, uma tragédia que serviu para mudar as coisas e que ajudou a salvar as vidas de muitos pilotos”, diz Payá.

“Ayrton e eu tínhamos um vínculo. Sua morte foi o final da minha história com a Fórmula 1. Ninguém pode falar dele sem me mencionar, e ninguém pode se referir a mim sem falar dele”, declarou Prost no documentário Senna, de Asif Kapadia.

Ayrton não foi o piloto que ganhou mais títulos. Depois dele, Schumacher acabou conquistando sete campeonatos, Lewis Hamilton seis e Sebastian Vettel, quatro. Mas, mesmo antes de sua morte torná-lo uma lenda do automobilismo, Ayrton Senna já era uma instituição. Como afirma o próprio Terruzzi, que viveu de perto seus melhores (e últimos) anos como piloto, “Ayrton Senna era o chefe. O primeiro da lista. O intocável.”

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