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O dia em que Ayrton Senna morreu e virou uma lenda

Há 25 anos, o carismático piloto brasileiro perdia a vida no autódromo italiano de Ímola, após sair da pista numa curva a mais de 200 quilômetros por hora

Ayrton Senna
Fãs assinam pôster em homenagem a Ayrton Senna em Imola, na Itália, onde o piloto morreu há 25 anos. Local foi palco de homenagens nesta quarta. AFP

Michael Schumacher é sempre lembrado por seus recordes; Lewis Hamilton, por não haver quem seja capaz de cravar uma volta rápida tão perfeita como ele; Alain Proust, não por acaso apelidado de O Professor, sabia como ninguém otimizar os recursos à sua disposição. Nenhum deles, entretanto, jamais chegará a alcançar a magnitude do personagem que Ayrton Senna construiu ao longo das 11 temporadas em que competiu na Fórmula 1, a melhor vitrine possível para que um brasileiro com alma de Robin Hood sacudisse o status quo da categoria e se transformasse em um herói transversal. Há 25 anos O Mágico, como era apelidado mundo afora, ascendeu à categoria de lenda, mas para isso pagou o preço mais alto: sua vida.

Naquele domingo, 1º de maio, às 14h17 (hora local), o mundo inteiro perdeu um ícone único. A Williams de Senna escapou de forma horripilante na curva Tamburello, a 216 quilômetros por hora. O episódio foi tão sombrio, e o golpe de tal dimensão, que a Fórmula 1 adotou medidas de segurança que lhe permitiram passar os 20 anos seguintes sem chorar nenhuma fatalidade, até o acidente de Jules Bianchi no Grande Prêmio do Japão de 2014, quando o francês bateu de frente num guindaste e sofreu ferimentos que o levaram à morte meses depois.

Embora Senna tenha acumulado três títulos (1988, 1990 e 1991), a marca que deixou leva muitos especialistas a considerarem-no o melhor de todos os tempos. Sobretudo pelos valores que transmitiu enquanto pôde – morreu com apenas 34 anos – e que serviam como um ímã. Combinava seu descomunal talento com uma grande ambição e um tremendo espírito de sacrifício. Foi dos primeiros pilotos a darem um passo além em termos de preparação física. Era educado, respeitoso e socialmente comprometido, uma mistura perfeita que contrasta com a leveza dos discursos dos atuais integrantes do grid. Além de suas virtudes, era capaz de se indignar, se rebelar e ir às nuvens quando se julgava maltratado pelos poderosos, em especial pela Federação Internacional do Esporte Automobilístico (FISA, na sigla em francês).

“Sua morte foi como a de um filho para a McLaren. Ele saiu porque nosso carro não estava à altura, e por isso nos sentimos em parte responsáveis por sua morte, por não ter conseguido retê-lo”, diz Joaquin Jo Ramirez

A FISA era o órgão regulador do Mundial da F-1, e na década de 1980 era presidida por Jean-Marie Balestre, um francês que não fazia nenhum esforço para ocultar sua sintonia com o principal rival de Senna. Prost era o arqui-inimigo do brasileiro e sua antítese em todos os sentidos, como fica perfeitamente refletido num delicioso documentário dirigido por Asif Kapadia. O filme, aclamado em sua estreia pela crítica, oferece uma ideia da dimensão do tricampeão e do nível de sua rivalidade com O Professor, completamente em desacordo com a projeção que se faz dele. “Ayrton e eu tínhamos um vínculo. Sua morte foi o final da minha história com a Fórmula 1. Ninguém pode falar dele sem me mencionar, e ninguém pode se referir a mim sem falar dele”, admitiu Prost há alguns anos.

Além do francês, são muitos os que sentem sua falta. Alguns continuam no paddock; outros só aparecem como visita. Entre eles está Joaquín Jo Ramírez, coordenador da McLaren, equipe na qual Senna conquistou seus três troféus. “Embora tivesse acabado de ser contratado pela Williams, sua morte foi como a de um filho para a McLaren. Ele saiu porque nosso carro não estava à altura, e por isso nos sentimos em parte responsáveis por sua morte, por não ter conseguido retê-lo”, conta o mexicano a este jornal, falando de sua casa na província de Málaga, no sul da Espanha. “Era uma dessas pessoas com aura, com uma eletricidade especial. Se ele entrava numa sala, o ambiente desse cômodo mudava”, acrescenta Ramírez, que em várias ocasiões testemunhou as peças pregadas nele por Gerhard Berger, um de seus melhores amigos no grid. Certa vez, na Austrália, o austríaco encheu a cama do colega de sapos, e outra vez substituiu sua foto do passaporte por uma de seus genitais, o que obrigou Senna a permanecer mais tempo que o previsto na Argentina.

Várias pessoas participaram de uma cerimônia nesta quarta, em Ímola, onde Senna morreu há 25 anos, no Grande Prêmio de San Marino.
Várias pessoas participaram de uma cerimônia nesta quarta, em Ímola, onde Senna morreu há 25 anos, no Grande Prêmio de San Marino. AFP

“Ayrton não é uma celebridade, ele está acima delas. Está numa categoria mítica que vai além do tempo e do espaço. Impôs-se no mundo desenvolvido e conseguiu isso sem trapaças, com tenacidade e determinação. Isso é o que faz dele uma fonte de inspiração”, relata Viviane, irmã de uma pessoa com uma personalidade imponente em todos os sentidos, às vezes até cômica. Alguém capaz de colidir no muro em Mônaco quando dispunha de 50 segundos de vantagem sobre o segundo colocado (“Ele queria me humilhar”, garante Prost). A irritação foi tanta que Senna desceu do carro e foi diretamente para o apartamento que mantinha em Montecarlo, onde a empregada não o deixou entrar em casa, porque não o reconhecia. Ainda estava de macacão.

Homenagem em Interlagos

AFP

O circuito de Interlagos, onde Senna ganhou dois de seus grandes prêmios, em 1991 e 1993, acolheu nesta quarta-feira uma homenagem aos 25 anos da morte do piloto. Centenas de pessoas correram pelas pistas do circuito e admiraram objetos do esportista em uma exposição em sua memória. 

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