O circuito do esporte que abraça Bolsonaro

De Lucas Moura a Emerson Fittipaldi, personalidades esportivas declaram apoio ao candidato do PSL. Manifestações políticas ainda são raras entre atletas em atividade

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Outros jogadores de futebol também já saíram a público para endossar a campanha de Bolsonaro, como Jadson e Roger (Corinthians), Rossi (Internacional), Dagoberto (Londrina) e Lucas Moura (Tottenham), que justificou a escolha com base no critério de eliminação. “Faz tempo que estamos em crise e os candidatos que elegemos não adiantaram. Nenhum candidato é o salvador da pátria. Só acho que temos que mudar”, escreveu em seu perfil no Twitter. Questionado por um seguidor, o atacante evangélico refutou o rótulo de preconceituoso atribuído ao ex-capitão: “Se fosse racista, estaria preso”. Ex-jogadores da seleção brasileira, Cafu, Edmundo e Rivaldo completam o time de bolsonaristas declarados.

Nas arquibancadas, Bolsonaro divide opiniões. No mesmo domingo em que Felipe Melo o homenageou em rede nacional, torcedores do Atlético-MG citaram o candidato do PSL ao entoar música homofóbica para provocar os rivais no Mineirão: “Ô, cruzeirense, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar viado”. A equipe alvinegra condenou o cântico: “O Clube Atlético Mineiro lamenta profundamente as manifestações homofóbicas de parte dos torcedores. Reiteramos nosso repúdio a quaisquer gestos de preconceito ou de incitação à violência”. Por outro lado, torcidas organizadas como Gaviões da Fiel (Corinthians) e Torcida Jovem (Santos) manifestaram repúdio a Jair Bolsonaro, alegando incompatibilidade entre as propostas do candidato e os ideais das instituições.

Porém, o presidenciável militar ostenta uma ala de apoiadores não apenas no futebol. Jogadores das seleções masculinas de vôlei e basquete e atletas de outras modalidades já levantaram bandeira pró-Bolsonaro. A última personalidade do esporte a seguir o rastro da extrema direita foi o bicampeão mundial de Fórmula 1, Emerson Fittipaldi. Diretamente de Miami, onde vive com a família, o ex-piloto publicou nas redes sociais uma foto ao lado do filho mais novo e um kart com o número 17. “Esse é o meu número, que desejo para os meus filhos e as próximas gerações de brasileiros.” Na última quinta-feira, Fittipaldi visitou Bolsonaro durante a internação no hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Mas o grande reduto bolsonarista no esporte é o circuito das artes marciais. Vários lutadores de MMA se revelam eleitores convictos do capitão, inclusive dentro dos ringues, como José Aldo, Wanderlei Silva, Paulo Henrique Borrachinha, Warlley Alves – que ironizou o ex-presidente Lula ao dedicar uma vitória a Bolsonaro – e Felipe Sertanejo, atualmente confinado no reality show A Fazenda, da Record.

A bolha do futebol

Na maioria dos casos, manifestações políticas por parte de atletas, sobretudo ídolos em evidência, são desencorajadas por clubes, assessores e empresários. Existe o temor de que, independentemente da causa ou partido apoiado, uma tomada de posição gere desconforto com torcedores e patrocinadores a ponto de comprometer a carreira esportiva. Nos Estados Unidos, o jogador Colin Kaepernick processou franquias da NFL por boicote depois que ele se ajoelhou durante a execução do hino norte-americano para protestar contra a violência policial. Chamado de antipatriota pelo presidente Donald Trump, o quarterback de 30 anos já acumula duas temporadas no ostracismo.

No Brasil, a figura do jogador politizado não costuma ser assimilada com naturalidade dentro do esporte mais popular do país. O zagueiro Paulo André, atualmente no Atlético-PR, chegou a acusar retaliação de dirigentes por causa de seus posicionamentos em defesa dos direitos dos atletas à frente do movimento Bom Senso FC. Ex-atacante do Atlético-MG nas décadas de 70 e 80, Reinaldo Lima afirma ter sofrido perseguição do regime militar devido a manifestações contrárias à ditadura. “O futebol sempre foi um meio conservador. Não aceitam que um jogador tenha posições políticas, que se proponha a pensar”, afirmou Reinaldo.

Berço da Democracia Corinthiana, liderada por Sócrates e companhia também no período da ditadura, o Corinthians – fora os tímidos apoios de Jadson e Roger a Bolsonaro – já não conta com tantos jogadores dispostos a se aventurar na arena político-ideológica. “Nem me preocupo com política. Não entendo. E não me agrega nada”, diz o lateral-esquerdo Danilo Avelar. Imersos em uma intensa rotina de treinos, jogos e concentrações, boleiros geralmente se sentem mais confortáveis em manifestar suas opiniões depois que param de jogar, como Juninho Pernambucano, que defende Lula e se opõe a Bolsonaro, e Ronaldo Fenômeno, que se tornou cabo eleitoral de Aécio Neves em 2014.

Apesar da onda a favor de Bolsonaro, ainda são raros os jogadores em atividade que abrem o voto ou se engajam na militância de um candidato. Em 2012, na eleição para prefeito de São Paulo, o ídolo tricolor Rogério Ceni apoiou José Serra (PSDB), enquanto o palmeirense Marcos Assunção aderiu à campanha de Fernando Haddad (PT). Há quatro anos, às vésperas do segundo turno presidencial, Júlio Baptista e Neymar também declararam apoio a Aécio.

“Via de regra, o atleta está tão voltado para a competição, em um período curto de sua vida, que realmente não olha para o resto do país. Sem contar que a esmagadora maioria deles é vítima do sistema educacional brasileiro”, afirma o jornalista Juca Kfouri. Ele defende que jogadores como Felipe Melo se expressem livremente e não enxerga motivos para censura a declarações públicas de voto – o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) ameaçou denunciar o volante do Palmeiras por conduta antidesportiva. “Felipe Melo não fez nada mais que dedicar seu gol a um candidato. Outros jogadores têm o mesmo direito, assim como qualquer cidadão.”

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