Crítica
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‘The Crown’: a propaganda se aperfeiçoa

Série consegue fazer com que a rainha e a instituição que ela representa deixem de ser um 'souvenir' de porcelana para ser vistos como sobreviventes heroicos

Olivia Colman como a rainha Elizabeth II na terceira temporada de 'The Crown'.
Olivia Colman como a rainha Elizabeth II na terceira temporada de 'The Crown'.Sophie Mutevelian / Netflix

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The Crown deveria ser estudada como um dos exercícios de propaganda mais eficazes do século XXI. Desde que a série de Peter Morgan entrou em 2016 na grade global da Netflix, a figura de Elizabeth II deixou definitivamente para trás a caricatura de látex feita pelo programa satírico Spitting Image para se aprofundar no caminho aberto em 2006 pelo filme A Rainha e seguido em 2013 por The Audience, ambos escritos por Morgan. Sem restrições aparentes em seu desenvolvimento dramático e com um orçamento milionário, The Crown se alimenta tanto dos livros de história quanto das memórias não oficiais e das páginas dos tabloides. Entre uns e outros, a série lucra com a única épica que interessa: a de uma mulher sem carisma aparente a quem o destino reserva um papel para o qual, no fundo, ninguém nasce preparado. Uma mulher agarrada ao seu dever com a mesma determinação que à sua bolsa.

A terceira temporada começa com a chegada ao poder do primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson e seu Governo de esquerda abertamente antimonárquico. O relacionamento de Elizabeth II com Wilson é a melhor trama de episódios marcados por um novo elenco, no qual a atriz Olivia Colman interpreta a monarca madura. Um golpe que vai além do mero efeito publicitário de incluir a ganhadora de um Oscar por interpretar a rainha Ana no filme A Favorita. Para Colman (a grande madrasta de Fleabag), basta sua técnica prodigiosa para construir com as doses certas de ironia a compostura rígida de uma mulher tão afável quanto fria e obstinada. Uma rainha dura com os seus e consigo mesma, que só deixa suas emoções transparecerem diante de seus cavalos puros-sangues e de sua antagônica irmã, a bon vivant e beberrona Margaret, recriada com desenvoltura por Helena Bonham Carter. Assim como nas temporadas anteriores, a caracterização de Philip de Edimburgo é prejudicada pela canastrice, e embora melhore bastante nas mãos do ator Tobias Menzies, continua sendo o mesmo personagem aborrecido. Outra coisa é o agora crescido príncipe Charles (Josh O’Connor), um jovem sensível, angustiado com seu futuro papel, que se olha no espelho do defenestrado duque de Windsor ao estar fatalmente apaixonado por uma mulher que ninguém em sua família vê com bons olhos. Sim, Camilla.

O sucesso de The Crown reside em seu caráter ambíguo. Esse que alterna com humor e distância os conflitos íntimos e familiares para sobrepô-los com alguns episódios da história do Reino Unido. Assim, entre os duelos públicos e privados de uma monarca que não sabe ou não quer chorar, The Crown consegue aquilo que parece ser seu principal objetivo, que a rainha e, mais importante, a instituição que ela representa deixem de ser um mero souvenir de porcelana para ser percebidos como os heroicos sobreviventes de uma espécie em perigo de extinção. E, como no melhor teatro, lembrar que o destino dos reis não é apenas representar um povo, mas também entretê-lo.