COPA AMÉRICA

A Eurocopa goleia a Copa América

Quando comparado à competição sul-americana, torneio entre seleções europeias ganha em audiência, qualidade e controle sanitário. Na Europa, jogos ocorrem estádios com público, em sedes com vacinação adiantada, e chama mais atenção dos brasileiros do que competição aqui sediada

Cristiano Ronaldo comemora gol marcado contra a França na Eurocopa.
Cristiano Ronaldo comemora gol marcado contra a França na Eurocopa.Bernadett Szabo / AP

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Copa América e Eurocopa começaram no mesmo fim de semana, entre 11 e 13 de junho, e têm as finais marcadas para 10 e 11 de julho, respectivamente. Um deleite para o fã de futebol no Brasil que, durante um mês, tem partidas diárias para assistir desde a manhã, a depender do fuso europeu, até as últimas horas da noite. No entanto, dados de redes sociais, sites de buscas e audiências de televisão têm mostrado uma clara preferência do brasileiro pelo torneio que não tem a sua seleção —ao contrário do campeonato da Conmebol, a Euro ganha a preferência reunindo protagonistas do futebol mundial em estádios com torcida, possibilitados por locais onde a pandemia de covid-19 está mais controlada do que na América do Sul, um dos epicentros globais da covi-19.

A audiência da televisão é uma boa forma de medir o interesse da população em geral. No domingo, 13 de junho, as duas competições foram mostradas na TV aberta: a Euro teve Inglaterra x Croácia, às 10h (horário de Brasília) na Globo, e Brasil x Venezuela abriram a Copa América no SBT, às 18h (também horário de Brasília). Pela manhã, a Globo liderou o Ibope em todas as praças do país com o jogo europeu, tendo 9 pontos de média em São Paulo e 10 no Rio de Janeiro. Já a partida da seleção brasileira no SBT, oito horas depois, teve pico de 15,6 pontos em São Paulo, mas também ficou atrás da Globo, que teve 16 pontos de média com o Domingão do Faustão apresentado por Tiago Leifert no mesmo horário. As 2,8 milhões de pessoas que assistiram ao Brasil na emissora de Silvio Santos consistem a pior audiência registrada em um jogo da seleção na televisão aberta desde 2016.

A diferença fica ainda maior nos números da TV paga. Transmitida pela ESPN no Brasil, a estreia da seleção brasileira na Copa América marcou 0,89 ponto de audiência, ficando em 22º lugar em levantamento feito com as transmissões esportivas mais assistidas na televisão fechada na primeira semana dos dois torneios. O Brasil perdeu até para Áustria x Macedônia, jogo pela primeira rodada do grupo C sem grandes atrativos que aconteceu no mesmo dia 13 de junho, foi transmitido pelo SporTV e marcou 0,94 ponto. Entre os dias 7 e 15 de junho, o SporTV teve 47 das 50 maiores audiências da tv paga. Segundo informou o UOL, o clássico da Euro entre as últimas duas campeãs mundiais, França x Alemanha, no dia 15 de junho (terça-feira às 16h), teve a segunda maior audiência da televisão fechada desde o início da pandemia. O SporTV ainda registrou um aumento de 42% da audiência da Eurocopa 2021 em comparação com a última edição, em 2016 (quando também aconteceu simultaneamente com a Copa América, mas com esta transmitida pela Globo).

Os dados da internet seguem a mesma lógica. Segundo o Google Trends, a Eurocopa foi um termo de pesquisa buscado em média quatro vezes mais que a Copa América durante o mês de junho. Na plataforma, o pico das pesquisas relacionadas à Euro, em 19 de junho, teve um volume quase sete vezes maior que a competição sul-americana. No ranking dos assuntos esportivos mais buscados no Brasil desde o início de ambos os torneios, quem lidera é o Brasileirão, com a Eurocopa em 4º lugar e a Copa América em 11º, atrás até da série B do campeonato brasileiro e do time de basquete do Palmeiras. O mesmo entre os jogadores: desde que estreou na Euro, em 15 de junho, o astro português Cristiano Ronaldo só perdeu por um dia em popularidade na plataforma para Neymar, o jogador mais pesquisado entre os brasileiros na Copa América.

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Alguns fatores podem explicar a preferência do brasileiro pelo torneio europeu. A começar pelo aspecto esportivo. A Eurocopa coloca em campo as últimas quatro campeãs mundiais: França, Alemanha, Espanha e Itália. Nas quatro últimas finais, apenas em 2014 uma seleção não europeia (a Argentina) chegou à final da Copa do Mundo. O último Mundial em específico, de 2018, teve quatro países europeus como semifinalistas, um cenário que não acontecia desde 1982. Com relação aos protagonistas do jogo, a comparação também favorece a Euro: enquanto Messi e Neymar polarizam a disputa sul-americana na Copa América em seleções que pouco empolgam, o torneio europeu traz grandes estrelas divididas entre países, como Cristiano Ronaldo em Portugal; Mbappé na França; Lewandowski (o atual melhor do mundo) na Polônia; De Bruyne na Bélgica; Müller na Alemanha; Modric na Croácia, entre outros. Em tese, são argumentos a favor de um campeonato que, por ser mais equilibrado e ter mais bons jogadores, é mais atrativo para o público. Há, por fim, a questão do ineditismo. Nos últimos seis anos, aconteceram duas Eurocopas (2016 e 2021), o que valoriza a competição e aumenta a expectativa acerca dos jogos. A Copa América, ao contrário, é acusada por alguns de ter sido banalizada pela Conmebol: ela aconteceu em 2015, 2016, 2019 e 2021.

Também é relevante a presença de públicos nos estádios, permitida por conta do avanço da vacinação contra a covid-19 em boa parte do velho continente, que torna o espetáculo mais agradável. No Reino Unido, onde mais de metade da população já recebeu as duas doses da vacina, está permitida a presença de até 25% da capacidade máxima do estádio, a mesma regra adotada na Itália. Quem mais restringiu foi a Alemanha, que tem cerca de metade dos cidadãos imunizados com a primeira dose, além de uma média móvel de 80 mortes e 2.000 casos por dia, e limitou suas arquibancadas para no máximo 20% da lotação. Por outro lado, na Hungria, que tem a segunda maior taxa de mortalidade do mundo pelo coronavírus (300 mortes a cada 100.000) e também metade da população imunizada com primeira dose, foi liberada a capacidade máxima nos jogos. Cada uma das 11 cidades-sede tem sua regra específica mas, em geral, a UEFA exige uso de máscara e apresentação de imunidade comprovada —a carta de vacinação ou um teste negativo— para permitir a entrada nas partidas.

A expectativa é que o estádio de Wembley, em Londres, consiga receber 60.000 pessoas (quase sua capacidade máxima) nas semifinais e final da Euro. As flexibilizações, no entanto, são motivo de preocupação para Organização Mundial da Saúde (OMS) que, nas palavras do diretor-executivo Robb Butler à agência de notícias AFP, verificou que “os casos de covid-19 já estão aumentando nas zonas onde as partidas estão sendo disputadas”, sem especificar países. Na Dinamarca, autoridades locais informaram 29 contágios relacionados às partidas que aconteceram de portões abertos em Copenhague, enquanto a Finlândia reportou 80 torcedores infectados após o jogo da seleção em São Petersburgo, na Rússia. Ainda assim, é uma realidade muito diferente do Brasil, onde a Copa América despertou críticas por acontecer em um país com mais de 2.000 mortes por dia, à beira da terceira onda e com pouco mais de 10% da população completamente imunizada. Entre jogadores, delegações e funcionários que participam da Copa América, foram registrados por Conmebol e Ministério da Saúde 166 casos positivos de covid-19 em duas semanas de competição. No mesmo período, foram oito infectados divulgados na Eurocopa, sendo casos isolados e divididos entre as delegações de Espanha, Suécia, Eslováquia, Portugal e Escócia.

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