“Copa América no Brasil é inaceitável para a saúde pública e pode impulsionar a terceira onda”

Especialista chama a atenção para os riscos de organizar um torneio continental em momento de nova piora da pandemia no país. Sede foi confirmada pela Conmebol, mas, após repercussão negativa, Governo Bolsonaro diz agora que “não é certa” realização do torneio no país

Bolsonaro posa com jogadores após a conquista da Copa América de 2019, no Maracanã.
Bolsonaro posa com jogadores após a conquista da Copa América de 2019, no Maracanã.CARL DE SOUZA (AFP)
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“É evidente que a Copa América pode impulsionar a terceira onda. A realização desse torneio no Brasil é absolutamente despropositada, inaceitável do ponto de vista da saúde pública, e só poderia acontecer num país que não tem respeito pela vida”. Assim resumiu Bruno Gualano, professor e pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), as possíveis consequências da escolha, anunciada pela Conmebol na manhã desta segunda-feira (31), do Brasil como sede de última hora da edição de 2021 do principal torneio entre seleções sul-americanas, marcado para começar em 13 de junho. Trata-se de um torneio que, negado na Colômbia pelo caos político e social e na Argentina pela crise sanitária, migrou para o país mais atingido pela pandemia de covid-19 no continente. Na noite de segunda, e após a repercussão negativa durante o dia, o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, e o secretário nacional do Esporte, Marcelo Magalhães, afirmaram que a realização do evento no país “não está certa”.

Originalmente, colombianos e argentinos dividiriam as sedes. A Colômbia recuou no dia 21 de maio, enquanto a Argentina comunicou que não receberia o torneio neste último domingo, 30 de maio. Cerca de 12 horas depois, o anúncio do substituto: “A Conmebol agradece ao presidente Jair Bolsonaro e sua equipe, assim como à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) por abrir as portas do país ao que hoje em dia é o evento esportivo mais seguro do mundo”, publicou a entidade do futebol sul-americano no Twitter. “O Governo brasileiro demonstrou agilidade e capacidade de decisão em um momento fundamental”, acrescentou Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol, que ainda disse que “o Brasil vive um momento de estabilidade, tem estrutura comprovada e experiência acumulada e recente para organizar uma competição dessa magnitude”. Nos últimos dias, o Brasil ultrapassou 460.000 mortos e 16,5 milhões de infectados pela covid-19, além de detectar variantes brasileiras e indiana, atrasos na vacinação e aumento da lotação em hospitais que preocupam os especialistas para uma terceira onda ainda mais mortal nos meses em que será realizada a Copa América. “E não temos como medir o impacto desse evento nos números porque o Brasil não adotou a testagem e o rastreio de casos como uma política de combate à pandemia. Se você não testa, não sabe a dimensão do problema. Só vamos ver a ponta do iceberg lá no fim, que são o aumento de mortes e as UTIs lotadas”, comenta Bruno Gualano.

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O especialista coordena, desde o ano passado, um grupo de estudo da USP que busca dimensionar os impactos que o futebol tem, com todos os seus protocolos, na crise sanitária brasileira. Em uma pesquisa divulgada em março de 2021, o grupo analisou testes feitos em mais de 4.000 atletas, homens e mulheres, de oito torneios realizados pela Federação Paulista de Futebol (FPF) em 2020, e chegou a conclusão de que o índice de infecção entre esses jogadores (11,7%) é equivalente ao de profissionais de saúde na linha de frente da pandemia. Foram 25 surtos detectados apenas no futebol paulista —para efeito de comparação, o futebol no Qatar, que foi usado como comparação por apresentar uma realidade semelhante à brasileira, não teve nenhum surto entre 549 atletas e o índice de casos positivos ficou em 4,4%. “É importante lembrar que esse estudo foi feito em 2020, antes da segunda onda, antes das variantes e antes do relaxamento das restrições —e só em São Paulo. Tudo indica que em 2021 foi muito pior”, pontua Gualano.

Para o especialista, a pesquisa prova que os protocolos e medidas sanitárias adotadas pelo futebol para que o setor continue funcionando em meio à pandemia “não serviram de nada”, bem como a abertura desse setor influencia no aumento de transmissões na sociedade —levando em conta somente os dados de jogadores envolvidos diretamente no esporte. Esses protocolos são, no entanto, o argumento para que centenas de pessoas envolvidas nas delegações de dez seleções sul-americanas, além de toda a equipe e imprensa responsável por trabalhar em um evento dessa proporção, possam comparecer a jogos em diferentes Estados no Brasil. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), apesar de fazer oposição a Bolsonaro durante toda a crise sanitária, afirmou em entrevista coletiva que ”não fará objeção caso a CBF defina São Paulo como um dos locais de jogos, desde que protocolos sejam obedecidos”. Na direção oposta, governadores de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), e Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), anunciaram que barrarão jogos da Copa em seu Estado.

Vacinas em cima da hora

Visando atenuar os efeitos que a realização de seus torneios podem ter na pandemia por todo o continente, a Conmebol fechou um acordo de doação no qual recebeu 50.000 doses da vacina contra o coronavírus do laboratório chinês, Sinovac, para imunizar equipes e delegações de times e seleções que disputam seus torneios continentais, em troca de patrocínio. Atlético-MG e Atlético-GO, que jogam competições sul-americanas, foram os dois times brasileiros que já imunizaram seus atletas com as doses da Conmebol. “É um problema ético, porque esses caras estão furando a fila para o circo passar”, opina Gualano, que lembra que, apesar dos jogadores serem perigosos vetores de transmissão, não consistem grupos de risco, enquanto muitos destes grupos não receberam sequer a primeira dose no Brasil. E, no caso da seleção brasileira, boa parte da delegação não foi vacinada a duas semanas da estreia da competição, o que inviabiliza a devida imunidade antes da realização da Copa América. “Além de tudo é uma medida simbólica, que passa uma falsa sensação de segurança. Resume como as prioridades são o futebol, o bar, o shopping, e não as UTIs ou os remédios para intubação. Os protocolos são só engodo”, conclui o pesquisador.

Independentemente das vacinas, a postura adotada pela Conmebol durante a pandemia ainda é alvo de outras críticas. Na final da Libertadores, realizada no Maracanã em 30 de janeiro, a entidade permitiu a presença de 5.000 pessoas nas arquibancadas —precedente que pode servir, inclusive, para a abertura ao público na final da Copa América, que deve ser no mesmo estádio. Mais recentemente, a Conmebol forçou a realização de partidas da mesma competição na Colômbia, onde jogadores do Atlético-MG e do América de Cali paralisaram a partida pelo gás lacrimogêneo oriundo da repressão a protestos sociais que aconteciam do lado de fora; e na Argentina, contornando o decreto federal que paralisou o futebol local durante os últimos dias de maio.

As sedes da Copa América ainda não foram confirmadas pela Conmebol —apenas as datas de início e fim, que permanecem em 13 de junho e 10 de julho. Nos bastidores, as maiores possibilidades apontam para partidas realizadas em locais mais estruturados, como Rio e São Paulo, e em cidades que contam com estádios herdados da Copa do Mundo cuja utilização é esporádica, uma vez que o calendário não prevê uma pausa nos jogos dos principais campeonatos nacionais. Seriam os casos de Manaus, Recife, Natal e Brasília. Na capital nacional, o evento esportivo já respinga entre a classe política. Randolfe Rodrigues (Rede), senador do Amapá e líder da oposição, avisou em seu Twitter que protocolou um pedido para a convocação do presidente da CBF, Rogério Caboclo, na CPI da Pandemia, que apura supostas negligências do Governo federal no combate à pandemia. Na Câmara, o deputado federal Júlio Delgado (PSB-MG) irá ao Supremo Tribunal Federal (STF) para barrar a realização do torneio no Brasil.

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