Atletismo

Paulo André Camilo: “Se um dia eu perder a ambição de alcançar o Bolt, prefiro não sair da cama”

Maior velocista em atividade do Brasil, o atleta capixaba lamenta ano perdido devido à pandemia, mas, a 200 dias da Olimpíada, segue perseguindo a meta de correr 100 metros abaixo de 10 segundos

Paulo André Camilo já correu abaixo dos 10s, mas marca não foi oficializada.
Paulo André Camilo já correu abaixo dos 10s, mas marca não foi oficializada.Divulgação

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Não basta se tornar o brasileiro mais rápido da história. Para Paulo André Camilo, 22, sua missão no atletismo só estará cumprida quando chegar ao posto de atleta mais veloz do mundo. “Se um dia eu acordar sem ambição de alcançar o que o [Usain] Bolt alcançou, prefiro não sair da cama”, diz o velocista, em referência ao jamaicano detentor do recorde mundial dos 100 metros rasos. O sonho funciona como um estilingue, que ele, durante o recesso das competições devido à pandemia de coronavírus, aproveitou para esticar ao máximo em busca do impulso definitivo na carreira.

As credenciais, obtidas enquanto a normalidade ainda vigorava nas pistas, são animadoras. Paulo André foi campeão mundial e pan-americano no revezamento 4x100m. Nos 100 metros rasos, prova nobre do atletismo, se destacou como o homem mais rápido do Brasil na atualidade ao correr abaixo dos 10 segundos. Porém, seu tempo de 9s90 não foi homologado, já que o vento na pista de Bragança Paulista, sede do penúltimo Troféu Brasil, estava acima do permitido para a contabilização de recordes. Ainda assim, ele permanece confiante de que, em breve, vai bater a marca de Robson Caetano, que cravou 10 segundos em 1988. “Eu já quebrei o recorde brasileiro. Falta apenas a oficialização”, explica. “Tinha receio de falar, mas, agora, quebrar a barreira dos 10 deixou de ser um sonho para virar uma meta prestes a se concretizar. Meus 100 metros estão encaixando cada vez mais. Evoluí bastante na parte inicial, principalmente no bloco [de largada]. Só preciso de uma competição com vento legal.”

Entretanto, a expectativa de recorde em ano olímpico acabou se convertendo em apreensão diante da crise mundial de saúde que obrigou o adiamento da Olimpíada de Tóquio para 2021. “A pandemia foi um choque e nos pegou de surpresa pela paralisação de tudo. A partir do momento em que as competições pararam, tive de mudar meu planejamento”, conta. O principal antídoto foi se desapegar da pressão do tempo. “É um baque, né? Ganhei um ano de treinamento, mas, por outro lado, perdi um ano de competição. O que me conforta é pensar que meus objetivos foram apenas adiados. Ainda sou jovem. O mais importante, neste momento, é a saúde da humanidade.”

Seu refúgio na quarentena foram as pistas de Vila Velha, no Espírito Santo, onde aproveitou para aprimorar os treinos e matar a saudade da família, longe da rotina de viagens que experimenta desde os 15 anos. O fato de ter o pai Carlos Camilo, ex-atleta e professor de educação física, como treinador facilitou a adaptação à nova realidade. “Estou acostumado a ficar 24 horas com meu pai. Nossa relação hoje é tranquila”, afirma o velocista, lembrando da época em que os desentendimentos marcavam a convivência dentro e fora das pistas. “Já foi mais conturbada, porque, no começo, a gente não sabia separar muito bem a coisa de pai e filho, treinador e atleta. Mas eu amadureci. Aprendi a lidar com as diferenças e nossas personalidades fortes.”

Carlos o ajudou, principalmente, a manter o equilíbrio ao longo do retiro em Vila Velha. “O aspecto emocional sempre foi determinante na minha carreira. Meu pai me cobra muito isso. Não adianta treinar todos esses anos e chegar na hora da largada com o pensamento de que não vou conseguir. Durante a pandemia, tive alguns momentos de desmotivação, por não ter competição, pelos boatos de cancelamento da Olimpíada… Mas segurei a onda para voltar ainda mais focado em meus objetivos.” A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) remarcou para dezembro o Troféu Brasil, que consagrou o capixaba como tetracampeão nacional dos 100 metros (10s13).

No fim de agosto, Paulo André já tinha recebido um alento. Foi convocado pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para integrar a Missão Europa, projeto que concentrou os melhores atletas do país em um centro de treinamento em Portugal, visando a continuidade da preparação para os Jogos de Tóquio. Distante do ritmo frenético de competições, ele usou o período de isolamento para se engajar mais na causa da igualdade racial, inspirado pelo movimento Black Lives Matter. “O atletismo é um esporte de predominância negra, mas acho importante me posicionar sempre contra o racismo. Quero ser uma referência no esporte em relação a isso.”

Usain Bolt, maior velocista de todos os tempos, também é negro e ganhou a primeira de suas três medalhas olímpicas nos 100 metros às vésperas de completar 22 anos, mesma idade de Paulo André. O recorde (9s58) do jamaicano, que se aposentou do esporte há três anos, permanece intacto. Porém, o atleta brasileiro se vê em condições de entrar na corrida para desbancá-lo. “O Bolt é um atleta icônico, uma referência além da modalidade, como Phelps e Ayrton Senna. A lição que ele deixou é que não basta só talento. O treinamento é primordial. Trabalho para alcançar as marcas dele. Sempre com os pés no chão, mas sonhar alto é meu maior combustível.”

Guiado pelo pai, Paulo André Camilo hoje administra a ansiedade, a 200 dias do início dos Jogos, a fim de estabelecer logo a marca abaixo dos 10 segundos. Seria um trampolim para conquistar ao menos uma medalha olímpica em sua tão sonhada prova de fogo, colocada em banho-maria pela pandemia. “Sigo ansioso e muito confiante para a Olimpíada. Estou num estilingue, que se estica cada vez mais. Quando as competições voltarem a todo vapor e essa corda soltar, tenho certeza que vou voar bem longe.”

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