Jogos Olímpicos Tóquio 2020

Aos seis anos ela ganhou um skate. Aos 12, é uma das melhores do mundo

Rayssa Leal, brasileira conhecida como ‘fadinha do skate’, pode ir a Tóquio como favorita à medalha na estreia da modalidade nas Olimpíadas

Rayssa Leal com o título da etapa mundial de Los Angeles.
Rayssa Leal com o título da etapa mundial de Los Angeles.Julio Detefon

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Em setembro de 2015, um vídeo de uma menina que, com uma fantasia de fada, fez um heelflip —famosa manobra de skate— em uma calçada da cidade de Imperatriz, interior do Maranhão, viralizou no YouTube. Rayssa Leal, aos sete anos de idade, ganhou o apelido de “fadinha do skate” e uma fama repentina pela habilidade anormal em cima das quatro rodinhas. Ela foi elogiada por Tony Hawk, skatista mais famoso do mundo, e declarou o sonho de se tornar profissional do esporte, mas não sabia que a evolução seria tão meteórica. Aos 12 anos, Rayssa vai em busca de protagonizar seu conto de fadas como uma das candidatas à medalha em Tóquio-2020 na primeira vez que o skate será uma modalidade nos Jogos Olímpicos.

“Eu nem lembro que as outras meninas são mais velhas”, brinca Rayssa ao falar das concorrentes no esporte. Em sua categoria, o street skate, ela tem as compatriotas Leticia Bufoni (26) e Pâmela Rosa (20) como adversárias. “Elas eram meninas que eu sempre admirei e viraram amigas. Me tratam com muito carinho”, diz a fadinha. Bufoni foi a inspiração no começo da carreira de Rayssa e conhecê-la em 2015, segundo a maranhense, foi o momento mais emocionante de sua vida.

Letícia Bufoni é, hoje, a skatista brasileira em disputa pela vaga olímpica com maior currículo: a paulistana é tetracampeã mundial da categoria street. No entanto, Bufoni fechou 2019 em quarto lugar no ranking olímpico da modalidade, atrás da líder Pâmela, da vice Rayssa e da japonesa Aori Nishimura. Gabriela Pereira Mazetto e Virginia Fortes Aguas, outras duas brasileiras na disputa, ficaram em oitavo e décimo, respectivamente. Para as Olimpíadas, o Brasil poderá ser representado por até 12 skatistas, uma vez que o limite de atletas por país em cada categoria é três. Assim, seriam no máximo três na categoria street feminino, três na street masculino, três na park feminino e três na park masculino. Levando em conta o mundo todo, são 20 vagas para cada modalidade, que serão definidas de acordo com a classificação do ranking olímpico no dia 1 de junho de 2020. Hoje, Pâmela, Rayssa e Letícia seriam as brasileiras classificadas no street feminino.

“Primeiro preciso focar na classificação”, garante Rayssa, “porque o nível está muito alto. Tenho que mandar bem nas etapas mundiais para depois pensar nas Olimpíadas”. Mas a jovem não deixa de se encantar com a possibilidade de ganhar uma medalha olímpica aos 12 anos de idade, o que não está muito distante da realidade dela. Ano passado, Rayssa venceu a etapa mundial de street skate em Los Angeles e foi vice no torneio de São Paulo, perdendo para Pâmela. Como foi se tornar a skatista mais nova a ganhar uma etapa mundial? “Muito legal!”, responde a fadinha. “Só estou me divertindo, aprendendo manobras novas e fazendo amigos. Então nunca imaginei que tudo seria assim”, diz. Se Rayssa conquistar a medalha de ouro no Japão, será a mais jovem da história nas Olimpíadas, quebrando o recorde da americana Marjorie Gestring, vencedora da prova de saltos ornamentais aos 13 anos e 268 dias nas Olimpíadas de Berlim em 1936. A fadinha já fez aniversário em 2020 e tem como principal adversária pelo recorde a skatista britânica Sky Brown, 11 anos, que está em terceiro lugar no ranking de classificação para a prova olímpica na categoria park.

No vídeo em que Rayssa ganhou fama, ela aparece vestindo uma fantasia azul de fada. Em entrevista dada na época, ela contou que estava em um desfile da escola, de onde saiu direto para brincar no skate com os amigos. Na gravação, ela tenta duas vezes o heelflip e fracassa usando somente o vestido mas, por sugestão de um amigo, coloca as asas da fada (que havia tirado da fantasia para brincar após o desfile) de volta e então, na terceira tentativa, acerta a manobra com perfeição. “Nunca mais larguei o skate”, conta Rayssa. A fadinha se interessou pela prancha com rodinhas quando viu um amigo do seu pai praticando. Pediu de presente com apenas seis anos, ganhou e hoje é uma das melhores do mundo.

Desde que começou a competir, Rayssa perdeu um pouco da vivência comum de uma criança de 12 anos. A esportista chama a profissão de “brincadeira com responsabilidade” e admite não poder conviver sempre com seus amigos de escola, mas encara com bom humor a situação. “O que mudou foi que agora eu tenho mais amigos em vários lugares onde vou competir”, argumenta ela. Desde o ano passado, seus pais cogitam se mudar de Imperatriz para São Paulo; isso porque a pista de skate onde ela treina fica em uma praça pública e foi interditada por um mês para revitalização. O local já foi reaberto, mas continua sendo o único na cidade a disposição da profissional.

São os pais de Rayssa, Haroldo e Lilian, que a acompanham nos treinos, viagens, competições e administram sua carreira. Mesmo com ela precocemente famosa, os dois se preocupam com o futuro além da pista de skate: a jovem está no sétimo ano do ensino fundamental e frequenta a escola quando está em Imperatriz, enquanto os pais recebem a matéria dos dias nos quais ela falta quando está competindo. Rayssa não pretende deixar a escola enquanto não completar o ensino médio, mas desconversa sobre uma possível profissão que não seja skatista. “Pode ser que eu estude mais depois da escola. Mas também não me imagino fazendo outra coisa que não seja andar de skate”. Um misto da indecisão de uma criança de 12 anos com a dedicação de uma esportista olímpica.

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