Economia da América Latina terminará 2021 abaixo dos níveis anteriores à pandemia, diz Banco Mundial

Entidade alerta que o crescimento “tem sido mais fraco do que o esperado”, apesar de um contexto internacional que considera favorável para a região

Isabella Cota
México -
Trabalhadores de restaurantes protestam para pedir que o Governo mexicano permita a entrada de clientes em seus estabelecimentos na Cidade do México, em janeiro de 2021.
Trabalhadores de restaurantes protestam para pedir que o Governo mexicano permita a entrada de clientes em seus estabelecimentos na Cidade do México, em janeiro de 2021.GLADYS SERRANO

Os países da América Latina e do Caribe estão perto de recuperar as perdas econômicas por conta da pandemia, mas as sequelas são duras e os governos devem se concentrar nos problemas que já tinham antes da covid-19, disse o Banco Mundial em seu relatório semestral sobre a região, apresentado na quarta-feira. Na média, o Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina crescerá 6,3% neste ano, prognóstico melhor do que os 4,4% feitos pela entidade há sete meses, mas inferior à queda do PIB regional de 6,7% no ano passado.

“A região está saindo aos poucos da crise e crescendo novamente, no entanto, apesar de alguns novos setores emergentes, a recuperação é mais fraca do que o esperado”, disse William Maloney, economista-chefe para a América Latina e o Caribe do Banco Mundial, em uma coletiva de imprensa virtual desde Washington. A América Latina tem problemas de infraestrutura, educação, política energética, capacidade empresarial e inovação que antecedem a pandemia e, se não os atacar, o crescimento não será suficiente para reduzir a pobreza, disse o especialista. “Temos que nos concentrar nos problemas estruturais de longo prazo, bem como reduzir a incerteza no curto prazo”, disse Maloney.

As previsões para 2022 e 2023 apontam para um crescimento de menos de 3%, o que, segundo Maloney, é insuficiente para reativar as economias e reduzir a pobreza. “Estas previsões não são muito mais altas do que as baixas taxas de crescimento da década passada, quando crescemos muito menos do que o resto do mundo”. Em geral, a recuperação tem sido decepcionante para uma região que depende em grande medida do comércio internacional, diz o relatório. “Dadas as vigorosas recuperações dos principais parceiros comerciais, as baixas taxas de juros globais e a perspectiva de outro superciclo de produtos primários, era de se esperar que as taxas de crescimento fossem 1,5 ponto porcentual mais altas”, diz o relatório.

Em todos os países, com exceção do Brasil, a taxa de pobreza, medida como a porcentagem de habitantes que vivem com 5,50 dólares (cerca 30 de reais) ou menos por dia, atingiu seu nível mais alto em uma década, com uma média de 26,4% (O Brasil implementou transferências monetárias diretas para sua população mais vulnerável, contendo melhor a pobreza do que outros países). Além disso, crianças e jovens perderam um ano e meio de escolaridade, enquanto a queda registrada no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU superou a observada durante a crise financeira global de 2008 e 2009.

O banco afirma que existem riscos a curto e médio prazo para os países, entre eles a recorrência de surtos de covid-19, que prejudicarão a produção. A contração da liquidez nos mercados financeiros globais em resposta à inflação, a crescente dívida pública e privada e o aumento dos déficits nos orçamentos dos governos também funcionam como forças contrárias à recuperação. O relatório afirma que, com base em pesquisas realizadas pelo órgão, entre 40% e 60% das empresas atrasaram o pagamento de suas dívidas devido à queda de receita provocada pela pandemia.

O efeito dos ‘Pandora Papers’

Questionado sobre a posição do Banco Mundial sobre os Pandora Papers, uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ na sigla em inglês) da qual o EL PAÍS fez parte, que revelou fortunas escondidas em territórios offshore, Maloney deu a entender que espera que o banco forneça mais informações sobre o assunto. “A informação pública sobre propriedades e posses de funcionários públicos é uma ferramenta fundamental para promover a transparência e combater a corrupção”, disse Maloney. “Apoiamos essa agenda de aumento da transparência no sistema tributário, promovendo a troca de informações entre jurisdições, melhorando a cooperação internacional sobre as ações das instituições nas quais os cidadãos depositaram sua confiança. É uma agenda extremamente importante para nós”.

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