Na nova lista das melhores músicas da ‘Rolling Stone’, Aretha Franklin desbanca Bob Dylan

Nova seleção da mítica revista atualiza a de 2004 sob a influência do movimento Black Lives Matter

Aretha Franklin nos estúdios Atlantic Records de Nova York em janeiro de 1969.
Aretha Franklin nos estúdios Atlantic Records de Nova York em janeiro de 1969.Michael Ochs Archives

Foi planejada para causar alvoroço e conseguiu. Assim é possível definir a nova lista das 500 melhores músicas de todos os tempos, que domina a discussão musical desde a nova divulgação pela revista Rolling Stone dias atrás. Ecoou em todo o mundo, apesar de se tratar, mais até do que sua estreia em 2004, de uma listagem orientada ao mercado norte-americano (a primeira colocada tem edições nos cinco continentes).

O debate se manifesta no topo. Like a Rolling Stone, de Bob Dylan (a vencedora da lista de 2004), cede seu lugar a Respect, canção de Otis Redding dinamizada por Aretha Franklin. Um conflito de casal, sobre a divisão de papéis no lar, com subtexto sexual, substitui uma história de ressentimento: Dylan comemorava a previsível queda aos infernos de uma garota (geralmente identificada com Edie Sedgwick, do círculo de Andy Warhol). Um adendo: sempre foi inquietante escutar Like a Rolling Stone em um estádio, cantada por dezenas de milhares de vozes, como se aquele vingançaa (o prato-que-se-come-frio) fosse interpretada como hino da liberdade roqueira.

Com a importância da maior relevância outorgada às mulheres, talvez o principal vetor dominante seja um derivado do Black Lives Matter: o reconhecimento da dívida dos Estados Unidos com sua população negra. Não é circunstancial que se elimine Hound Dog, de Elvis (antes na posição 19), e aterrisse a versão original, de Big Mama Thornton. Do top ten da lista desaparecem o narcisista número 2 (Satisfaction, dos Rolling Stones) e o utopista número 3 (Imagine, de John Lennon), substituídos por músicas que fazem referência às lutas afro-americanas, tanto com retórica estridente (Fight the power, do Public Enemy) como em versão conciliadora (A Change Is Gonna Come, de Sam Cooke). Em geral, os rappers adquirem maior visibilidade com as ascensões de Missy Elliott (agora número 8) e Outkast (número 10).

No quesito Beatles, é intrigante que Hey Jude caia e apareça Strawberry Fields Forever: passamos, então, do comunal ao introspectivo. Poderíamos argumentar que a preferência pela obra prima psicodélica de Lennon obedece à crescente respeitabilidade das substâncias psicotrópicas, cada vez mais afastadas do estigma “das drogas”. Pelo contrário, se desvanece uma prima irmã, a gloriosa Good Vibrations, dos Beach Boys, talvez submergida por seu léxico hippie. Os matizes da linguagem importam tanto como a modernidade do canal de divulgação: Dreams, editada pelo Fleetwood Mac e anteriormente desprezada, irrompe arrasadora na indicação das grandes graças a um vídeo do TikTok, concebido em 2020, como publicidade de um refrigerante.

Para os que desejam certa estabilidade na listagem, o consolo de que o novo top ten ainda mantém Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, e What’s Going On, de Marvin Gaye. A invasão do pop latino não chegou ao topo, mas o reguetón, estrelas juvenis e country estilizado mudaram o perfil das 500 Melhores Músicas de Todos os Tempos. Esses consumidores fazem parte da audiência de leitores da nova Rolling Stone, que até dedicou uma capa ao fenômeno coreano BTS.

Na revista, explicam essas mudanças sísmicas por sua vontade de fazer um ranking mais inclusivo: se os eleitores em 2004 foram 170, agora se orgulham de ter tabulado as opiniões de 250 artistas, jornalistas e figuras da indústria. Mas já sabem que o sabor final da mistura obedece aos ingredientes conscientemente escolhidos. Também não revelamos nada de novo se avisamos que essas listas são, para dizer de modo educado, retocadas na etapa final, às vezes até com a participação dos departamentos de publicidade e mercadotecnia.

Jann Wenner, o fundador da Rolling Stone, demonstrou maestria nessas artes obscuras. Ainda que não fosse realmente um profundo conhecedor de música, entendia o conceito do capital simbólico. Sua revista ajudou a estabelecer o cânone do rock, com abundantes números especiais e volumosos livros históricos, reforçando a hegemonia cultural de sua própria geração, a dos baby boomers. Sua grande jogada foi se apropriar, com o fundador da gravadora Atlantic Records, Ahmet Ertegun, de uma ideia alheia e muito comercial: o Rock & Roll Hall of Fame. No começo, antes da materialização de sua sede-mausoléu em Cleveland, um computador participou de algumas das votações e tudo aquilo, da seleção de candidatos à revelação dos ganhadores, dava um aspecto de inesperado a decisões pré-concebidas. Com o tempo, à medida que esse particular Hall of Fame crescia em importância, cada anúncio anual provocava um escândalo, ao reiterar sua antipatia ao heavy metal e ao rock mais popular (ainda que a organização tenha prometido se desprender desses preconceitos).

Mas Jann Wenner, desde 2017, já não é o proprietário da Rolling Stone. A revista mudou de periodicidade (antes quinzenal, agora mensal), de papel, de tamanho e, evidentemente, de conteúdos. Agora tenta cativar a geração Z sem incomodar muito os grupos demográficos anteriores. Missão impossível, dizia aquele.

LISTA DE 2021

1. Respect, de Aretha Franklin.

2. Fight the Power, do Public Enemy.

3. A Change Is Gonna Come, de Sam Cooke.

4. Like a Rolling Stone, de Bob Dylan.

5. Smells Like Teen Spirit, do Nirvana.

6. What’s Going On, de Marvin Gaye.

7. Strawberry Fields Forever, dos The Beatles.

8. Get Ur Freak On, de Missy Elliott.

9. Dreams, do Fleetwood Mac.

10. Hey Ya!, do Outkast.

LISTA DE 2004

1. Like a Rolling Stone, de Bob Dylan.

2. (I Can’t Get No) Satisfaction, dos The Rolling Stones.

3. Imagine, de John Lennon.

4. What’s Going On, de Marvin Gaye.

5. Respect, de Aretha Franklin.

6. Good Vibrations, dos Beach Boys.

7. Johnny B. Goode, de Chuck Berry.

8. Hey Jude, dos The Beatles.

9. Smells Like Teen Spirit, do Nirvana.

10. What’d I Say, de Ray Charles.

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