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Evan Rachel Wood, a atriz e ativista que denunciou Marilyn Manson por abusos

A protagonista de ‘Westworld’, conhecida por defender os direitos LGTBI e falar abertamente sobre problemas de saúde mental, agora põe na mira o cantor com quem namorou por três anos

A atriz Evan Rachel Wood no Festival de Cinema de Sundance, em janeiro de 2020.
A atriz Evan Rachel Wood no Festival de Cinema de Sundance, em janeiro de 2020.Arthur Mola / AP

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Evan Rachel Wood, a atriz protagonista da série Westworld, da HBO, foi notícia nos últimos dias ao denunciar publicamente o cantor Marilyn Manson por ter supostamente cometidos abusos sexuais e emocionais contra ela durante um relacionamento que durou três anos. São episódios que ela já tinha narrado em 2018 no Congresso dos Estados Unidos, ao contar publicamente suas traumáticas experiências, embora sem dar o nome do suposto abusador. Quase três anos depois, Wood decidiu desmascarar o suposto agressor e fez isso novamente em público, via Instagram. “Sofri lavagem cerebral e me manipularam para que me deixasse submeter. Estou cansada de viver com medo de represálias, calúnias e chantagens. Estou aqui para expor este homem perigoso e chamar a atenção sobre as muitas indústrias que permitiram isso, antes de mais vidas venham a ser arruinadas”, escreveu a atriz. Por enquanto, já conseguiu que a gravadora Loma Vista Recordings revogasse seu contrato com Manson, de 52 anos, e que pelo menos outras quatro mulheres o denunciassem por abusos físicos e mentais.

A atriz costuma atuar como porta-voz de causas desse tipo, e nos últimos tempos se tornou uma das artistas mais ativas na luta pelos direitos da mulher e das vítimas de assédio sexual. Quando em 2018 deu seu depoimento no Congresso dos EUA, foi para pedir a criação da Lei de Declaração de Direitos de Sobreviventes de Agressões Sexuais, já aprovada nos 50 Estados.

Não era a primeira vez que contava sua experiência. Em 2016, a atriz de Aos Treze admitiu em uma entrevista à Rolling Stone ter sido estuprada em várias ocasiões. “Sim. Fui estuprada. Por um ser amado enquanto estávamos juntos. E em outra ocasião pelo dono de um bar. A primeira vez não tinha claro se aquilo que o parceiro fazia era considerado estupro, até que era tarde demais. Além disso, quem acreditaria em mim? Da segunda vez, achei que tinha sido culpa minha e que deveria ter resistido mais, mas estava assustada”, contou à publicação.

É um traço que compartilha com Dolores, a personagem da bem-sucedida ficção da HBO, que sofreu vários estupros. E foi justamente por se ver tão identificada com esse papel que ela conseguiu aceitar sua realidade e partir para a terapia. Foi diagnosticada com transtorno pós-traumático, algo que não esconde e que a leva a compreender os anos em que se autolesionava. Chegou a tentar o suicídio duas vezes, até que, de maneira voluntária, internou-se em uma clínica psiquiátrica.

Sobre sua passagem por esse centro de saúde mental, voltou a dar detalhes dois anos atrás, em um ensaio que publicou na revista Nylon explicando os estigmas que as doenças mentais acarretam e como tenta rompê-los. “Tendemos a sentir mais solidariedade por um braço quebrado que por um ataque de tristeza profunda. A simples menção da doença mental assusta as pessoas”, relatava na época. “Não sou uma especialista em saúde mental, mas posso compartilhar com vocês minha experiência a respeito. Quando tinha 22 anos, decidi me internar por minhas próprias pernas em um hospital psiquiátrico, e não sinto absolutamente nenhuma vergonha por isso. Olhando para trás, foi o pior e o melhor que podia me acontecer”. Contava a atriz, indicada três vezes ao Globo de Ouro. Para ela, estar na mira do público “foi um grande privilégio e um peso terrível”, dizia.

Wood está habituado à fama desde pequena. Tinha apenas sete anos quando começou a aparecer em telefilmes, e nove quando protagonizou O Poder da Emoção (1997), com Kevin Bacon e Mary Stuart Masterson. Seu papel mais importante chegou aos 14 anos, quando interpretou Tracy Louise Freeland, uma adolescente envolvida em drogas, sexo e crime, em Aos Treze (2003). Depois vieram títulos como Tudo pelo Poder (2011) e Allure (2017), entre outros. A atriz, nascida há 33 anos na Carolina do Norte, afirma que em todos os seus personagens havia algo que identificava com suas próprias experiências. Assim contou há alguns anos no evento Forbes 30 Under 30, em Boston, onde insistiu na necessidade de os atores e atrizes irem um pouco além de seus papéis na tela e se comprometerem com eles. “Meu maior desafio foi superar a mim mesma. Ninguém me reteve mais do que eu. E ninguém foi pior comigo do que eu”, disse naquele encontro, referindo-se a alguns dos problemas que compartilhou com seus personagens e a levaram a pedir ajuda profissional. “Trata-se de aprender a gostar de si mesma. Afinal de contas, quando você comete erros é só uma prova de que está tentando.”

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Mas nenhum risco jamais a reteve. Em 2011, declarou-se bissexual e tornou-se uma aguerrida defensora dos direitos LGBTI. Rechaçou as normas de gênero em Hollywood, e nos tapetes vermelhos, por exemplo, é muito comum vê-la de terno. “Quero transmitir uma mensagem positiva. Não se trata de humilhar os vestidos, mas sim de abrir opções para que haja uma escolha”, disse certa vez. Quando emprestou sua voz à rainha Iduna, mãe de Anna e Elsa em Frozen II, a atriz falou da possibilidade de que algum dia a Disney tenha uma protagonista LGTBI.

Sobre todas estas causas a atriz, que foi casada de 2012 a 14 com o ator Jamie Bell, com quem tem um filho, falou abertamente em entrevistas e também nas redes sociais. Ao menos no Instagram, pois há alguns meses decidiu sair do Twitter, devido ao ambiente negativo que percebia, conforme comentou em uma recente entrevista à Variety. “Percebi que estava permitindo muita negatividade na minha vida. Já luto com a ansiedade e tenho transtorno por estresse pós-traumático, e há certas coisas das quais não preciso na minha cabeça”, disse a atriz, que tampouco esconde que sofre de déficit de atenção e hiperatividade, sobre como se viu incapaz de administrar os comentários que recebia cada vez que escrevia algum texto de teor feminista ou contra a violência de gênero e sexual. “Senti que algumas coisas que poderia mencionar poderiam ser tiradas de contexto, ser chamada de radical ou extremista, e senti que quanto mais franca eu fosse, mais poderiam me atacar. Então decidi não entrar nesse jogo e saí.”

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