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Sean Connery, o ícone masculino que não teria triunfado no século XXI

O primeiro ator que interpretou James Bond no cinema chega aos 90 anos afastado de Hollywood e como multimilionário graças ao personagem que o catapultou à fama

Sean Connery no Festival de Cinema de Edimburgo, em 2010.
Sean Connery no Festival de Cinema de Edimburgo, em 2010.Danny Lawson / PA Wire/Press Association Images /Cordon Press

Vistos com certa perspectiva, os filmes de James Bond são machistas. Não só pela figura de homem perfeito encarnada pelo agente 007, mas também pelo que encarnam os papéis femininos ao longo da saga: mulheres-enfeite que se lançam desesperadamente aos braços do protagonista. Uma ficção que em alguns casos não dista muito da realidade. Sean Connery, o primeiro ator a interpretar o espião mais famoso do Reino Unido na telona, também foi criticado ao longo do tempo por sua atitude misógina. O ator, que nesta terça-feira completa 90 anos, costumava dizer que era “melhor bater nas mulheres com a mão aberta que com o punho fechado”, e anos mais tarde, durante uma entrevista, persistiu em sua posição: “Não acho que seja algo ruim bater numa mulher se ela merecer”. Durante muito tempo lhe consentiram esse tipo de comentário, respaldado em sua imagem de homem atrativo e querido pelo público e pela imprensa de sua época. Hoje não teria sido aplaudido.

Sobre seu aspecto polêmico quis falar sua segunda esposa, Micheline Connery. A pintora francesa disse ao Sunday Express que as palavras de seu marido foram tiradas de contexto e que o mataria se ele chegasse a lhe encostar um dedo. Palavras de apoio que contradizem as da primeira esposa do ator, Diane Cilento, mãe de seu único filho, Jason. A atriz publicou em 2007 a autobiografia My nine lifes (“minhas nove vidas”), e tanto no livro como em diferentes entrevistas acusou Connery de tê-la maltratado física e psicologicamente. Em 2008 chegou a dizer sobre o ex-marido que tinha obrigado seu filho a trabalhar desde criança e o deserdara, algo que enfureceu o ator. “Não vejo esta mulher há 37 anos e ela não sabe nada de mim nem da minha vida atual. Diane não conseguiu refazer sua vida após nossa separação e já tive que lutar com suas acusações de que eu era violento com ela e bobagens do tipo. Agora as mentiras se tornam ainda mais maliciosas e, o que é pior, ela envolveu o nosso filho”, alegou Connery no Daily Telegraph.

O machismo foi também um dos argumentos que esgrimiram seus detratores nos anos noventa para não lhe conceder o título de sir, um reconhecimento da coroa britânica à sua trajetória profissional, afinal entregue em 2000. Políticos britânicos queriam negar a Connery o título cavalheiresco também por suas opiniões políticas. Nascido em Edimburgo em 1930, o ator sempre se definiu como escocês independentista e apoiou o Partido Nacionalista Escocês. “Como escocês e como alguém que durante toda sua vida amou tanto a Escócia quanto a arte, acredito que a independência seja uma oportunidade muito bonita para que a deixemos escapar”, escreveu em um artigo no The New Statemen por ocasião do referendo de 2014. “Falando claramente, não há ato mais criativo que o de criar uma nação”, acrescentou.

Sua campanha pelo sim à independência chegou num momento em que Connery se mantinha afastado do foco midiático. “Cansei de lidar com idiotas. Em Hollywood é cada vez maior a distância entre os que sabem fazer filmes e os que os financiam”, expressou sobre sua aposentadoria definitiva da Meca do cinema, em 2007. Seu último filme foi A liga extraordinária, e a partir de então só faria algumas participações especiais emprestando sua voz. Suas aparições são cada vez mais esporádicas. Vive sua aposentadoria nas Bahamas com uma fortuna estimada em cerca de 180 milhões de dólares (um bilhão de reais). Deixou-se ver alguma vez como espectador do Aberto dos EUA e outros eventos de tênis, pois é um grande aficionado deste esporte e do golfe. Aliás, Connery frequentava o Clube de Golfe de Guadalmina, em Marbella (sul da Espanha), onde dispunha de uma moradia. Um imóvel que lhe ofereceu durante mais de duas décadas um remanso de paz na Costa do Sol, mas também uma dor de cabeça que o levou a estar envolvido no chamado caso Goldfinger, uma trama de supostas irregularidades na venda de 72 apartamentos. O ator foi inocentado, mas sua esposa aguarda um julgamento no qual a promotoria lhe pede 2,5 anos de prisão e uma multa de 22,8 milhões de euros (151 milhões de reais) por um suposto crime contra a Fazenda Pública.

O casal Connery vendeu a Malibú —como era conhecida a casa de Marbella— em 1998, e agora o ator quer se desfazer da mansão que possui em Nice (França), chamada La Roc Fleoui, por 30 milhões de euros. Um imóvel de vários andares construído em 1928. Um local idílico, com vista ao mar, onde foram rodadas algumas cenas de 007 – Nunca mais outra vez, o último filme em que entrou na pele de James Bond. Connery estava cansado de interpretar o popular espião ao qual dava vida desde 1962, ano em que estreou 007 Contra o satânico Dr. No. Um primeiro episódio que trouxe fama e dinheiro ao ator, que logo se cansaria do seu personagem mais célebre e só continuaria pelos rendimentos que propiciava. “Sempre odiei o maldito James Bond. Eu queria matá-lo”, chegou a revelar certa vez sobre o personagem que interpretou por mais de 20 anos.

Algo similar ocorreu com Daniel Craig, que anunciou em março que 007 – Sem tempo para morrer é o último filme do agente que ele fará. Após 15 anos como responsável pelo personagem, não descarta que uma mulher o substitua. “Todos deveríamos ser considerados para o papel”, manifestou ao The Mirror. Uma mudança que a atriz inglesa Lashana Lynch parecia encabeçar. Entretanto, os produtores decidiram neste ano reabrir o casting porque “[Bond] pode ser de qualquer cor, mas é um homem”, conforme disse a produtora Barbara Broccoli à revista Variety.

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