Boulos: “Não dá para olhar passivamente o Brasil sangrar até 2022, perdendo vidas à espera das eleições”

Estrela ascendente da esquerda, líder do PSOL é um dos articuladores dos protestos marcados para este sábado contra Bolsonaro em dezenas de capitais, teste de fogo para a oposição. “Ninguém gostaria de estar nas ruas num momento de pandemia, mas não existe alternativa”

Guilherme Boulos é líder do MTST e da frente Povo sem Medo, além ex-candidato a presidente em 2018 e a prefeito de São Paulo em 2020.
Guilherme Boulos é líder do MTST e da frente Povo sem Medo, além ex-candidato a presidente em 2018 e a prefeito de São Paulo em 2020.Wanezza Soares

Guilherme Boulos (São Paulo, 1982) é um dos principais articuladores das manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro marcadas para este sábado em mais de 100 cidades brasileiras. A pandemia de coronavírus vinha sendo até agora sendo um empecilho para que a oposição ao mandatário de ultradireita convocasse às ruas de forma convicta, mas Boulos defende que já não dá mais para esperar. Para ele, é preciso abrir o caminho para um impeachment por meio da pressão popular. “Existe um sentimento de que não há saída possível para a pandemia com Bolsonaro no poder”, argumenta o candidato do PSOL à presidência da República em 2018 e à Prefeitura de São Paulo em 2020, além de principal líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST).

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Em entrevista ao EL PAÍS, ele defende que há tempo hábil para abrir um processo de impeachment que afaste Bolsonaro até o início do ano que vem (ainda que, no momento, nem as pesquisas nem a maioria parlamentar governista no Congresso desenhem esse cenário como provável) e rebate a visão de algumas lideranças de esquerda de que é preciso deixá-lo “sangrar” até 2022. “Não sei onde essas pessoas vivem. Quem está sangrando é o Brasil, não é Bolsonaro. Estamos perdendo vidas”, sustenta. E manda um recado a outras lideranças da oposição: “Essa ideia de esperar até 2022 é de quem está descolado da realidade do povo brasileiro”.

Apoiados por todos os partidos de esquerda —mas sem o envolvimento direto deles—, os atos deste sábado foram convocados pela frente Povo sem Medo, que tem Boulos como um dos coordenadores, além da frente Brasil Popular e a Coalizão Negra por Direitos. Juntos, congregam centenas de movimentos sociais que, além do impeachment de Bolsonaro, demandam que se acelere a vacinação contra a covid-19 e o retorno do auxílio emergencial de 600 reais, abraçam a pauta antirracista e a luta contra violência policial, atacam as privatizações da Eletrobrás e dos Correios, entre outras pautas. Os maiores sindicatos tampouco chancelam a manifestação, convocada quando o país volta a temer uma nova onda forte de contágios pela covid-19. Para minimizar os riscos, todas as lideranças pregam uso de máscaras de maior capacidade de proteção e distanciamento social. Será um teste de fogo de capacidade de mobilização e de discurso para a oposição ante as imagens que o bolsonarismo produz, como no passeio de moto protagonizado pelo presidente no Rio na semana passada.

Pergunta. Por que uma manifestação agora, em meio a uma CPI que apura as negligencias do Governo Bolsonaro da pandemia?

Resposta. É importante pontuar que ninguém gostaria de estar nas ruas num momento de pandemia. Estamos fazendo mobilizações de rua porque não existe alternativa. Como bem disseram os colombianos que ocupam as ruas do país, quando um governo é mais perigoso que o vírus ―ou, como é o caso do Brasil, quando ele se alia ao vírus―, nós temos o dever de ir para as ruas derrubá-lo. A CPI escancara a crise política do Governo Bolsonaro e serve para levantar seus crimes de responsabilidade, suas declarações colocando todo seu negacionismo e boicotando as vacinas e as medidas de isolamento. A CPI cria um ambiente político que pode levar à corrosão de sua base social e parlamentar. Então, as manifestações podem cumprir um papel chave de abrir o caminho para o impeachment.

P. As lideranças vem enfatizando a necessidade de manter certo distanciamento de usar máscaras, sobretudo a PFF2, durante os atos. Por parte dos organizadores, existe alguma iniciativa de distribuir máscaras?

R. Existe, sim. Houve campanha de arrecadação de máscaras PFF2 e elas serão distribuídas na avenida Paulista, em São Paulo. Isso também está sendo articulado em varias outras cidades. Haverá uma equipe de saúde que estará orientando o distanciamento e distribuindo álcool em gel e essas máscaras. Do caminhão de som também estaremos passando a orientação reiteradamente ao longo do ato.

P. A frente Povo Sem Medo chegou a convocar um protesto no ano passado. Espera que os atos de agora sejam maiores, com mais adesão? As pessoas estão mais preparadas para ocupar as ruas, mesmo na pandemia?

R. Acho que vai ser um protesto expressivo, porque existe um sentimento de basta, de que não dá mais, em parte importante da sociedade brasileira, depois de um ano de pandemia e mais de 450.000 mortes. Estamos vendo que, com Bolsonaro, não existe saída para a pandemia. Podemos ter uma terceira onda, uma quarta e outras mais. Não dá para olhar passivamente o Brasil sangrar até 2022, a gente perdendo vidas à espera das eleições. Por isso a frente Povo sem Medo decidiu se unir às convocações.

P. Você acha que a esquerda deveria ter feito mais manifestações ainda no ano passado? Nos Estados Unidos as pessoas foram às ruas por causa da morte do George Floyd, na Colombia as pessoas estão agora protestando contra o Governo... A oposição brasileira está atrasada?

R. A pandemia é um fato inédito e não existe um manual para lidar com ela. Acreditei numa ideia de que a pandemia iria acabar e que, com ela acabando, poderíamos fazer as mobilizações. Quando teve o refluxo no final do ano passado, a expectativa era de que 2021 fosse o ano de retomada. E aí veio a segunda onda, avassaladora. O que começamos a compreender agora nos debates coletivos? Que desse jeito não vai ter saída. Não dá para ficar prevendo o pós-pandemia. Enquanto Bolsonaro estiver no poder, não haverá fim da pandemia, porque ele vai continuar boicotando a vacinação, vai continuar tomando todas as medidas na contramão do que os especialistas recomendam. Estamos no nível mais baixo de isolamento, a maior parte das pessoas já está nas ruas se arriscando e se expondo. Não dá para esperar o momento em que a pandemia acabe para fazer mobilização, porque do jeito que as coisas andam, ela não vai acabar.

P. Todos os partidos da esquerda brasileira estão unidos pelo impeachment, ou tem aqueles que preferem deixar Bolsonaro sangrar até o ano que vem?

R. Olha, todos os partidos entraram com ações de impeachment. Eu vejo aqui e acolá pessoas com essa tese “deixa Bolsonaro sangrar até 2022”. Não sei onde essas pessoas vivem. Quem está sangrando é o Brasil, não é Bolsonaro. Estamos perdendo vidas, 19 milhões de brasileiros estão passando fome... A quarentena no Brasil foi tratada como privilégio, não como direito. A maioria do povo brasileiro está todo dia em ônibus lotados, trens lotados, metrôs lotados, se amontoando para ir ao trabalho e se expondo ao vírus. Quem é que está sangrando? É o Brasil, é o nosso povo. Então, essa ideia de esperar até 2022 é de quem está descolado da realidade do povo brasileiro.

P. O fato de ainda estamos na pandemia faz com lideranças acabem não apoiando enfaticamente os protestos, como você vem fazendo?

R. A convocação é muito unitária, com o apoio de todos os partidos da esquerda brasileira e de vários movimentos sociais. Conseguimos um grau de unidade. Agora, cada liderança se coloca como se sente à vontade. Estou convicto de que é preciso se levantar. Em momentos de decisão, em momentos de crise, não podemos nos omitir. Temos que apontar os rumos, e nesse caso o rumo é derrotar Bolsonaro, é buscar construir as condições para um impeachment, e também pautar a retomada do auxílio emergencial de 600 reais e a vacinação em massa. A manifestação tem também o papel de pressão sobre o Governo, alterando as relações de força.

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P. Mas existe tempo hábil para o impeachment? Ou acredita que as manifestações e a CPI tem mais chances de sangrar Bolsonaro até as eleições de 2022?

R. Se o processo for aberto neste ano, existe todas as condições, seguindo todos os ritos legais, de Bolsonaro ser afastado ate o início do ano que vem. Isso é uma questão de salvar vidas no Brasil. As pessoas às vezes acreditam que o impeachment é impossível pelo tipo de articulação que Bolsonaro fez com o Centrão, que foi comprado com um nível absurdo de emendas parlamentares. Mas o Centrão é fiel aos seus próprios interesses e a ninguém mais. Quando ele enxergar que Bolsonaro está afundado em todas as pesquisas de opinião, semana a semana, com a CPI em seu encalço, o ambiente político começa a mudar. Esses deputados querem se reeleger em 2022, e estar na base de apoio de Bolsonaro começa se tornar uma dificuldade para a reeleição deles. Não é fácil, evidentemente não é um caminho natural, mas é possível de ser construído.

P. Enquanto a CPI acontece, na Câmara estão aprovando o fim do licenciamento ambiental, a privatização da Eletrobras... Como fazer o calor da rua convencer esse Centrão, que tem interesses ideológicos parecidos aos de Bolsonaro?

R. Uma parte do Congresso, não é de hoje, é composta por bancadas de interesses, bancadas de lobistas. O lobby do agronegócio, o lobby das empreiteiras... Você tem um conjunto de interesses que atuam para aprovar leis que favorecem seus negócios, seus lucros, e frequentemente causando danos ao povo brasileiro. O que coloco em relação ao Centrão não é no sentido de convencê-lo. A questão não passa por aí, passa por um cálculo de interesses deles.

P. Antes da pandemia, em 2019, tivemos manifestações bastante amplas pela educação. Mas desde então não tivemos mais grandes manifestações contra Bolsonaro até agora —e dificultadas pela pandemia. Houve alguma dificuldade da esquerda e dos movimentos sociais em encontrar uma pauta comum contra Bolsonaro?

R. Como você bem lembrou, teve o tsunami da educação e também uma série de outras convocações ao longo do ano, como contra a reforma da Previdência. Agora, naquele momento a popularidade de Bolsonaro ainda estava alta, foi o primeiro ano dele de Governo. Existia ainda na sociedade, ou em parte dela, uma expectativa positiva de um presidente que tinha sido recém eleito. Quando a popularidade dele começa a cair, em 2020, é justamente o momento em que entra a pandemia. A queda da aprovação do Governo poderia levar a uma onda de mobilizações, mas isso veio com a pandemia, e aí se criou um ambiente muito difícil para fazer mobilizações. Teve as puxadas pelas torcidas organizadas, que nós nos envolvemos, mas agora espero que a gente possa construir um outro ciclo.

P. Desde 2016 a esquerda vem colhendo resultados ruins nas eleições. Acha que depois das eleições municipais e da queda das condenações do ex-presidente Lula, a maré virou? O momento é também mais propício para a esquerda?

R. O grande sentimento na sociedade brasileira hoje é de rejeição a Bolsonaro. Inclusive de pessoas que acreditaram nele em 2018. É importante que se diga que a maioria das pessoas que votou em Bolsonaro não é terraplanista, não é viúva da ditadura nem defende tortura. Muita gente votou como um desabafo, um grito de “basta, quero mudar, acabar com a corrupção”. Esse era o clima das eleições de 2018. Mas o cara que se apresentou como quem ia mudar tudo que está aí é o mesmo que hoje está nos braços do Centrão, que governa para salvar o filho metido em rachadinha, e que está ligado às milícias do Rio de Janeiro. Isso também fez com que aquele caldo que existia em 2018 se voltasse contra Bolsonaro. Fora o desastre econômico e sanitário. O grande sentimento que existe é o de virar a página desse pesadelo chamado Jair Bolsonaro. Espero que isso possa se traduzir em um amplo movimento já em 2021, mas que isso também se traduza em vitória eleitoral em 2022. Porque se trata de derrotar Bolsonaro, de derrotar essa ameaça à democracia, mas também de apresentar um projeto de reconstrução nacional que vire a página de seis anos de neoliberalismo que sangraram o povo brasileiro. Eu e meus companheiros do PSOL estamos empenhados em construir uma unidade que expresse isso.

P. Ou seja, se o antipetismo foi o principal movimento que levou Bolsonaro ao poder, o antibolsonarismo pode ser o movimento que agora vai tirá-lo do poder?

R. O antibolsonarismo deve dar a tônica das eleições de 2022, caso ele chegue até lá como presidente. Estamos trabalhando para que ele não chegue, porque o contrario vai significar um custo de vidas e um custo social altíssimo.

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