Ricardo Nunes, o controverso líder que governará São Paulo com os desafios da pandemia e do plano diretor

Vereadores da base governista esperam dele uma gestão de continuidade, sem mudanças drásticas. Já oposição demonstra receio de uma guinada mais à direita, já que ele é ligado a uma ala conservadora da igreja católica

Vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes.
Vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes.Reprodução
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A cidade de São Paulo será governada por um controverso líder. Com a morte neste domingo do prefeito Bruno Covas (PSDB), assumirá a prefeitura o vice Ricardo Nunes (MDB), de perfil mais conservador que o tucano, católico atuante e com experiência política anterior de dois mandatos na Câmara Municipal, onde chegou a compor as bases petista e tucana. Nunes, descrito como “sério” e “ponderado” por antigos colegas do Legislativo, terá à frente especialmente os desafios de seguir as políticas de combate à pandemia e a revisão do plano diretor da cidade. Distante do núcleo duro do tucanato, ele é visto por vereadores como alguém leal a Covas e solícito até mesmo com a oposição.

Desde que assumiu interinamente o cargo de prefeito com a licença médica de Covas, Nunes tem repetido que seguirá as orientações dele no comando da capital. E sinaliza que pode continuar nesta linha quando assumir definitivamente o cargo. Mas, na prática, sua trajetória é bem mais conservadora que a do tucano. Quando era vereador, adotou um discurso contrário a políticas de diversidade sexual nas escolas. Aos olhos da opinião pública, também pairam sobre ele ao menos dois escândalos que o fizeram mal aparecer durante a campanha eleitoral do ano passado: uma suposta agressão à esposa (que posteriormente mudou a versão e negou ter sido vítima de violência) e suspeitas de corrupção envolvendo empresas da família (que ele nega).

A escolha de Nunes para compor a chapa de Bruno Covas, conforme comenta-se nos bastidores, vem de um xadrez político arquitetado pelo governador paulista João Doria, que espera ter o apoio do expressivo MDB em uma eventual disputa ao Planalto no ano que vem. Com menos de dez anos na política, o advogado Ricardo Nunes construiu sua trajetória como empresário, líder comunitário da zona Sul e nas relações com setores da Igreja Católica. Como vereador por oito anos (de 2013 a 2020), expôs suas posições contra políticas de diversidade de gênero, contra o aborto e a favor da Escola sem Partido. Mesmo assim, tem tentado descolar-se do rótulo de conservador. “Sou um político de centro, sempre fui. Na campanha chegaram a me classificar como de extrema direita, o que não é real. Quiseram me colocar essa pecha porque sou católico atuante”, afirmou em uma entrevista ao Estadão no início do mês, quando assumiu interinamente a prefeitura. Sem destaque nacional dentro do MDB, ele ganhou a projeção política que o levou a vice da chapa de Covas ao assumir a presidência municipal do partido e após o apresentador e correligionário José Luiz Datena desistir de concorrer.

Desde abril, Nunes vinha aparecendo mais e participando de uma série de atos públicos nos quais representava Covas. Na manhã deste sábado (15), um dia após o Hospital Sírio-Libanês emitir nota afirmando que o quadro de saúde de Covas era irreversível, decidiu não cancelar a agenda e participou do Dia D da vacinação contra a gripe em uma escola da cidade. “Acho que a melhor homenagem que a gente pode fazer ao prefeito Bruno Covas é continuar cuidando da população, que é o que ele sempre nos orientou, o que ele sempre cobrou da gente, mesmo agora na internação, que a cidade não parasse, que cuidasse das pessoas”, justificou a jornalistas, visivelmente emocionado. Na mesma ocasião, afirmou que vinha mantendo contato com o prefeito por telefone e Whatsapp nos últimos dias. “A equipe tem seguido e continuará seguindo as orientações do prefeito”, sinalizou.

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Esta é a expectativa de boa parte da base governista na Câmara, conforme conta a vereadora Edir Sales (PSD). “Tenho certeza que ele vai dar continuidade e vai respeitar todas as orientações do Covas da maneira que for possível”, diz. Ela considera natural que cada prefeito promova mudanças e traga a sua equipe ao assumir definitivamente o cargo, mas diz não acreditar em alterações bruscas. “Ele vai ter bom senso e vai dar continuidade ao trabalho digno do Covas.” Sales, que é amiga de Ricardo Nunes, conta que o emedebista não tem adiantado detalhes sobre quaisquer mudanças que deseje implantar na Prefeitura. “A posição é uma só: seguir tudo o que Covas tinha preparado para o Governo que iniciou agora. Pelo que conheço do Ricardo Nunes, ele é de cumprir”, afirma o vereador Adilson Amadeu (DEM), ao narrar o relato de correligionários que participaram de uma reunião com os secretários municipais há duas semanas. Ele considera o emedebista “muito capaz” para assumir a titularidade do cargo. “É uma pessoa preparada. Lógico que o preparo político que o Bruno Covas tinha é muito maior, porque foi desde jovem criado na política. Era um político exemplar, de visão, importante não só para São Paulo, mas para o país”, declara.

Já a oposição demonstra receio de uma guinada mais conservadora no Governo. “Nunes é ligado a uma ala conservadora da igreja católica e ao interesse de combater pautas de liberdades individuais. A gente vê com cautela uma gestão dele, com a preocupação de que pautas conservadoras ganhem mais vazão tanto no Executivo quanto na Câmara”, diz a vereadora Elaine Mineiro (PSOL). Ela também prevê a possibilidade de um alinhamento ainda maior do Legislativo com o Executivo ―Covas já detinha uma forte base de apoio―, já que o presidente Milton Leite (DEM) é amigo de Nunes. “Preocupa um pouco essa relação, que deveria ser de cooperação, mas também de fiscalização”, aponta Mineiro. O EL PAÍS tentou falar com Leite, que preferiu não dar entrevista neste momento.

A relação de Nunes e Covas foi estreitada especialmente durante a campanha eleitoral, quando eclodiu o escândalo de um boletim de ocorrência de violência doméstica contra o então candidato a vice. O tucano o defendeu publicamente e classificou o episódio como “descabido”. Após vencerem as eleições, Nunes prometeu ser um “fiel escudeiro” do prefeito. E desde então abraça um perfil discreto, mas atuante. Diante do quadro de saúde já complicado de Covas nas últimas semanas, ele tomava o cuidado de afirmar publicamente confiar na sua recuperação e não acreditar que teria de assumir definitivamente a gestão. Nas redes sociais, costuma creditar seus atos públicos à “gestão Bruno Covas”. Diferente do prefeito tucano ―que assumiu a Secretaria das Subprefeituras quando vice de Doria na gestão municipal―, Nunes ocupava apenas o cargo de vice. Mas mantinha-se ativo participando de operações contra festas clandestinas na pandemia e do grupo que discute o avanço da covid-19.

Polêmicas na campanha

Durante a campanha eleitoral, o ex-vereador viu sua imagem arranhada após ter seu nome citado em um inquérito que investiga irregularidades em repasses para creches privadas da capital. Uma entidade gestora de escolas infantis supostamente ligada a ele teria utilizado recursos públicos para pagar empresas investigadas na máfia das creches e também a uma dedetizadora pertencente à família do ex-vereador. Nunes negou a denúncia e disse recentemente que o inquérito foi arquivado, mas apareceu pouco na campanha e evitou participar de debates.

Na Câmara Municipal, ele fez parte da Comissão de Finanças e tem bastante conhecimento sobre as contas municipais. Também costumava defender a anistia e a regularização de templos religiosos irregulares. Como vereador, ainda integrou a Comissão Parlamentar de Inquérito do Teatro Municipal e presidiu a CPI da Sonegação Tributária. Costuma expor como trunfo político o desdobramento desta última: a recuperação de 1,2 bilhão de reais aos cofres da cidade. “Fiz isso sempre com participação da sociedade, com muita audiência pública. E é o que vamos fazer agora com a revisão do plano diretor”, prometeu em entrevista ao Estadão.

Durante o seu primeiro mandato como vereador, em 2014, Nunes apoiou a criação de um aeródromo em Parelheiros, no extremo sul da capital paulista. A proposta foi bastante criticada pelos impactos ambientais, recebeu negativas da Justiça e não prosperou. Nos próximos meses, ele terá o desafio de discutir o Plano Diretor e destravar programas de intervenção urbana, como por exemplo os da Vila Leopoldina e do centro. “A revisão do plano diretor é um desafio que vai depender muito dos vereadores, porque todos têm demandas para oferecer à cidade. A Câmara está preparada para continuar fazendo o trabalho que tinha com Covas”, acrescenta o vereador Adilson Amadeu.

Ao anunciar seu afastamento do cargo por um mês no início de maio para intensificar o tratamento contra o câncer, Bruno Covas emitiu uma nota na qual disse confiar em Nunes para dar continuidade ao seu plano de Governo: “Tenho a convicção que nosso vice Ricardo Nunes e nossa equipe de secretárias e secretários manterão a cidade no rumo certo, cumprindo nosso programa de metas e plano de Governo, priorizando o combate à pandemia e seus efeitos.”

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