Eleições Brasil 2020

Campanha de Covas esconde vice Nunes, alvo de Boulos na corrida contra o tempo para tentar virar em São Paulo

Na chapa do do PSOL, Erundina faz maratona de eventos e contrasta com vereador do MDB, que não foi à sabatina do UOL e ‘Folha’. Campanha contra atual prefeito aposta em desgaste entre ‘lavajatistas’

O vereador e candidato a vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (à esq.), faz campanha na zona Sul de São Paulo com o prefeito Bruno Covas no início dessa semana.
O vereador e candidato a vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (à esq.), faz campanha na zona Sul de São Paulo com o prefeito Bruno Covas no início dessa semana.Divulgação / Divulgação

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Com o acirramento da disputa na reta final da corrida eleitoral do 2 turno pela Prefeitura de São Paulo —pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira coloca Bruno Covas com 57% e Guilherme Boulos com 43% dos votos válidos dentro de uma margem de erro de três pontos percentuais—, os candidatos intensificaram suas agendas e participam de uma maratona de entrevistas, sabatinas, reuniões com lideranças diversas, lives, campanha de rua e debates. Pelo lado da campanha de Guilherme Boulos, a candidata a vice e deputada federal Luiza Erundina, também do PSOL, não faz por menos e cumpre uma agenda lotada de compromissos, apesar dos 85 anos. Pelo lado da campanha do prefeito Bruno Covas, do PSDB, o mesmo não se pode dizer do candidato a vice, o vereador Ricardo Nunes, do MDB. Nesta quarta-feira (25), Nunes não compareceu a uma sabatina com os vices promovida pelo portal UOL e o jornal Folha de S. Paulo. Erundina participou do evento. De acordo com o jornal, ele negou também diversos convites para entrevistas e um debate. Sob pressão, Nunes foi à tribuna da Câmara Municipal de São Paulo para se defender de acusações nesta quarta: “Eu não recebi nenhum convite [para a sabatina].” Na prática e à luz do que aconteceu ao longo da corrida eleitoral, a ausência parece desenha uma estratégia deliberada de tirar do foco o polêmico vice do prefeito em busca de reeleição, alvo preferencial da campanha adversária.

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Alvo de um boletim de ocorrência por violência doméstica, um perfil conservador que combate ativamente iniciativas pró-diversidade sexual e com relações controversas com empresas e Organizações Sociais que gerenciam creches em São Paulo, Nunes tem tido uma atuação discreta nestas eleições. Desde o início da campanha do segundo turno, no dia 16 de novembro, ele participou de poucos eventos públicos. Em seu Facebook, por exemplo, há somente cinco postagens de lá para cá, todas relacionadas à campanha. Em duas delas, caminha com Covas por bairros da zona sul. Em 2011 sua esposa, com quem segue casado, o acusou de violência doméstica, ameaça e injúria em uma ocorrência registrada 6ª Delegacia da Mulher, em Santo Amaro (zona sul). Ela retirou a queixa e hoje nega a acusação.

Em outra frente, Nunes é alvo de uma investigação da promotoria do Patrimônio Público e Social do Ministério Público do Estado de São Paulo que apura indícios de superfaturamento no aluguel de creches privadas que mantêm convênio com a prefeitura. O inquérito aponta que Nunes e outros três vereadores teriam sido favorecidos financeiramente por meio da Sociedade Beneficente Equilíbrio de Interlagos (Sobei). A entidade, com a qual o candidato a vice tem relação desde 1998, segundo o MP, recebe R$ 329 mil por mês da prefeitura de São Paulo. Reportagens do jornal Folha de S. Paulo, que revelou o caso, mostram que tanto donos dos prédios alugados com verba da prefeitura como dirigentes de entidades que gerem as creches nos espaços são ligados ao vereador.

A entidade gestora de escolas infantis ligada ao vice na chapa de Covas (PSDB) também utilizou recursos recebidos dos cofres públicos municipais para pagar empresas investigadas na máfia das creches e também a uma dedetizadora pertencente à família do vereador no valor total de 50 mil reais.

Tanto vereador quanto prefeitura negam qualquer irregularidade e em sua defesa, a campanha de Covas diz que não há contra ele nenhum processo judicial ou acusação concreta. Hoje com 53 anos de idade, Nunes foi eleito pela primeira vez em 2012 para a Câmara Municipal de São Paulo e reeleito em 2016. O advogado e empresário da zona sul da capital é casado, pai de três filhos e conservador. O candidato declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um patrimônio de R$ 4,8 milhões, entre imóveis e aplicações financeiras. Em 2016, ele investiu 450.000 reais na própria campanha.

Bombardeio

Identificado em pesquisas qualitativas promovidas pela equipe de propaganda da campanha do PSOL como grande “calcanhar de Aquiles” de Covas junto ao eleitorado conservador e apoiador da Operação Lava Jato e pelo menos em tese avesso à corrupção —principalmente aqueles que votaram em outros candidatos do centro para a direita como Arthur “Mamãe Falei” do Val (Patriotas) e Joyce Hasselmann (PSL)— Nunes tem sofrido diversos ataques de Boulos e da campanha do PSOL como um todo neste segundo turno. Nos últimos dias, tem sido constante na propaganda do PSOL no rádio, TV e Internet a mudança do tom alegre que marcou a campanha para algo soturno e grave quando aponta as suspeitas sobre Nunes e mostra ele ao lado de Covas sorrindo.

Isso não mudou a estratégia de discrição em relação ao vice da campanha tucana. Na avaliação de profissionais da campanha de Boulos, a má imagem dele junto a parte do eleitorado mais conversador também foi identificada na campanha tucana, e por isso o “escondem”. Covas ficou bravo quando foi questionado durante uma sabatina na rádio CBN sobre os problemas do vice, no início da semana. “É impressionante como vocês são pautados pela propaganda do PSOL”, disse. “Fico horrorizado com isso, como gostam de acabar com a vida do meu vice sem denúncia”, afirmou. O prefeito havia dito a mesma coisa na noite anterior, durante entrevista com Boulos ao programa Roda Viva, na TV Cultura. No contra-ataque, o tucano também pesou o tom da crítica ao rival ao associar Boulos a Cuba em sua propaganda eleitoral.

“As duas estratégias de campanha reagem a um ponto que pode ser definidor do pleito no domingo, pela atenção que ambas as campanhas dão ao assunto do vice do Covas”, afirma o cientista político Vinícius Do Valle. “A campanha tucana identificou que isso machuca ela, muda de assunto para o antipetismo e antiesquerdismo e aposta que possui uma gordura para queimar e chegar no domingo na frente. A do PSOL vê aí uma chance de ganhar ao desestimular aquele eleitor que votou em outros candidatos no primeiro turno e tende para o Covas no segundo a sair de casa para votar, além de conquistar quem ainda está indeciso”, diz.

A escolha de Nunes para a chapa foi estratégica, mas deu-se não sem resistência no PSDB. O vice de Covas é conservador, ligado à ala carismática da igreja católica e integra a bancada da Bíblia na Câmara Municipal de São Paulo. Em suas redes sociais, não faltam postagens com imagens e vídeos em eventos religiosos. Entre aliados de Covas, entende-se que a escolha de Nunes se deu por pressão do governador João Doria. O PSDB trabalhava por uma chapa pura. Integrantes do DEM e do MDB insistiram num vice da coligação que apoia a reeleição do prefeito e emplacaram o vereador. A aliança com Nunes também é vista entre os tucanos e analistas políticos ouvidos pela reportagem como fundamental para o bom desempenho de Covas junto aos eleitor mais conservador e religioso e uma ponte e ensaio para uma possível futura aliança entre MDB e PSDB nas eleições de 2022, caso o arranjo se mostre estável.

Na contramão tucana, a campanha do PSOL busca ao máximo aproveitar e expor a presença de Erundina na chapa. A ex-prefeita de São Paulo ganhou agenda própria e usa a experiência política e administrativa e sua ficha limpa para se colocar como fiadora para a inexperiência de Boulos em uma eventual administração municipal. Para proteger-se da covid-19, a deputada federal sai para as carreatas da campanha em uma espécie de papamóvel, dentro de uma cabine de acrílico montada na caçamba de uma caminhonete.

Luiza Erundina, candidata a vice-prefeita de São Paulo.
Luiza Erundina, candidata a vice-prefeita de São Paulo.Fernando Cavalcanti

No segundo turno, Erundina intensificou sua participação na campanha. Em seu Facebook, por exemplo, até a noite de quarta-feira nessa só nessa semana, havia mais de 30 postagens sobre as eleições, com a participação da candidata em pelo menos cinco atos de rua. “O Ricardo Nunes me parece que está se escondendo”, afirmou na sabatina Folha/UOL nesta quarta. “O próprio candidato, cuja chapa ele compõe, também não dá muita informação sobre o vice e muito menos explicações [sobre] por que ele desapareceu. Deve ser porque ele deve explicações”, disse Erundina.

Uma atenção maior a esse confronto de vices nessa reta final de campanha justifica-se. Covas passa por tratamento contra um câncer no aparelho digestivo. A doença está controlada, mas não curada, e há a possibilidade do atual prefeito ter de afastar-se por alguns períodos para tratamentos de saúde. Nessa conta, também pesa o histórico recente de abandono do cargo entre os tucanos eleitos para a prefeitura na avaliação do eleitor. O senador José Serra e o governador João Doria interromperam o mandato para concorrer ao Governo do Estado em 2006 e em 2018, respectivamente. Por outro lado, a idade avançada da vice de Boulos pesa contra a chapa do PSOL. Seus 85 anos colocam Erundina no grupo de risco da pandemia de covid-19 que, apesar da previsão da existência de vacinas no ano que vem, ainda não tem data para acabar

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