Eleições Brasil 2020

Eleição em Fortaleza testa frente ampla contra Bolsonaro

Pesquisas colocam candidato de Ciro Gomes, José Sarto, apoiado pelo PT de Camilo Santana, na frente do bolsonarista Capitão Wagner. Reta final tem panfletos com propaganda antigay para atrair evangélicos a ex-policial

Bandeiras da candidatura de José Sarto (PDT) no centro de Fortaleza.
Bandeiras da candidatura de José Sarto (PDT) no centro de Fortaleza.Marília Camelo / Marília Camelo

Todos contra Jair Bolsonaro. Assim se resume o segundo turno da eleição municipal de Fortaleza, a quinta maior cidade do Brasil, com 2,6 milhões de habitantes. Mesmo que o candidato do presidente, o Capitão Wagner Sousa (PROS), tente omitir o apoio dele na reta final, os partidos decidiram se unir em torno de José Sarto Nogueira (PDT) na tentativa de combater o bolsonarismo no Ceará. O pedetista representa o tradicional clã Ferreira Gomes, comandado pelos ex-governadores Ciro e Cid Gomes. É também o escolhido pelo atual mandatário Roberto Cláudio (PDT) e pelo governador Camilo Santana (PT), que no primeiro turno sinalizou um apoio tímido à concorrente de seu partido, Luizianne Lins.

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Nessa segunda etapa, Wagner tem o apoio dos nove partidos pequenos e médios que estavam com ele no primeiro turno. Enquanto Sarto aumentou seu leque de apoio de 10 para 16 siglas. Entre elas, há legendas antagônicas no cenário nacional como PT e PSDB ou PSOL e PSL. Os partidos de quase todos os derrotados em 15 de novembro declararam apoio ao pedetista. Apenas a candidata Luizianne Lins, que foi vítima de duros ataques por parte de Sarto, não se pronunciou oficialmente sobre o apoio. Está ressentida. Mas em seu Twitter ela replica pedidos de votos para quem é antibolsonaro, entre eles, Sarto.

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Nas ruas de Fortaleza ou entre quem estuda ciência política, circula a avaliação de que Wagner teria mais chances de se eleger, desde que não tivesse o apoio de Bolsonaro. O presidente tem rejeição de 46% na cidade, conforme o Ibope ―é no Nordeste onde o presidente amarga suas piores taxas no país. Enquanto os principais cabos eleitorais de Sarto, o governador Camilo e o prefeito Roberto Cláudio, outros frutos do arranjo Ferreira Gomes-PT, tem aprovações de 57% e 52%, respectivamente. “Quem não quer renovação? Mas o preço para tirar os Ferreira Gomes do poder é muito caro. Eleger bolsonarista não dá”, disse o pescador José Erivaldo Silva, de 52 anos, no cais do Porto do Mucuripe. “O voto no Sarto é uma espécie de continuidade. O capitão é a incerteza”, diz a vendedora Maria Vandineide de Souza, de 43 anos, no bairro Couto Fernandes, na região centro-oeste da capital.

Entre os apoiadores do policial reformado, o argumento é o da renovação. Cinco deles ouvidos pela reportagem dizem que, em caso de não dar certo, ele pode ser substituído daqui a quatro anos. “Votei no atual prefeito e acho que ele ficou devendo em várias áreas. Votarei no capitão porque acredito que ele vai nos trazer segurança”, disse a administradora Danielly Sinésio, de 24 anos. “Fortaleza está muito tempo nas mãos do mesmo grupo político o que favorece a corrupção. Tem de mudar e o capitão tem experiência para isso”, opina a ambulante Silviane Vieira, de 40 anos, no centro da cidade.

Parte dessa avaliação popular coincide com a feita por quem leciona na academia. “O capitão tem história na política. Foi vereador, deputado estadual e é deputado federal. Sempre muito bem votado. Ele não chegou agora, mas o apoio que teve do Bolsonaro mais o prejudicou do que o ajudou”, diz a socióloga Monalisa Soares Lopes, que é membro do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da Universidade Federal do Ceará.

Um dos principais apoiadores locais de Wagner, o senador Eduardo Girão (Podemos-CE), diz que tentar transferir a questão nacional para a disputa municipal faz parte de uma estratégia eleitoral. “É um jogo político, querem nacionalizar a campanha para não olharem os problemas gravíssimos que temos aqui, como a saúde que não funciona”, disse. Girão doou neste ano 1,2 milhão de reais para a campanha do militar reformado, o que representa 36% do total de recursos arrecadados por ele. O senador ainda critica o apoio dos irmãos Ferreira Gomes a Sarto. “Essa oligarquia quer fazer da Prefeitura de Fortaleza um bunker para a campanha presidencial deles”, afirmou.

A administradora Danielly Sinésio, eleitora de Capitão Wagner (PROS).
A administradora Danielly Sinésio, eleitora de Capitão Wagner (PROS).Marília Camelo / Marília Camelo

Favoritismo pedetista e ofensiva pelo voto evangélico

A última pesquisa Ibope divulgada na segunda-feira mostra que no segundo turno Wagner cresceu só dois pontos percentuais em comparação com resultado eleitoral. Saltou de 33% dos votos para 35%, das intenções. Enquanto que Sarto foi de 35% para 53%. “Todos os cenários indicam a vitória de Sarto”, ressalta a professora Monalisa.

Para essa especialista, ao longo de toda campanha eleitoral, os candidatos se preocuparam mais em desconstruir os adversários do que em apresentar propostas. Foi o que aconteceu no debate desta terça-feira, na TV Jangadeiro/SBT. Wagner tentou atribuir a marca de corrupto a Sarto, citando uma CPI da qual o pedetista foi alvo na década de 1990 na qual teria cobrado propina da extinta TV Manchete. Sarto diz que é ficha limpa e que nunca foi punido judicialmente. Já o pedetista chamou Wagner de fascista e afirmou que ele é defensor de policiais acusados de cometerem uma chacina com onze vítimas em 2015 no bairro Curió.

Na reta final, a campanha de Wagner ainda copiou a estratégia de Bolsonaro de 2018. Tentou se aproximar ainda mais dos evangélicos e colar em seu adversário a pecha de radical de esquerda. “Veja a expressão de ódio, de raiva, na expressão do candidato a cada resposta que ele profere. Aqui comigo não tem ódio, aqui tem amor”, disse Wagner no debate desta terça-feira. A resposta de Sarto é de que seu adversário, sim, prega a divisão. “Eu sou médico. As minhas mãos trazem a vida. Você nasceu do motim, você nasceu da violência”, afirmou no debate, citando o início da carreira política de Wagner, como líder de uma rebelião policial.

O nível da campanha baixou, de fato, nesta semana. Em igrejas evangélicas na periferia de Fortaleza, foram distribuídos panfletos apócrifos com fotos de Sarto, Ciro e Cid Gomes, Roberto Cláudio e Camilo Santana. No papel havia frases como: “Por que meu pastor não vota no Sarto?”. Ainda usa a estratégia de vincular o candidato à “ideologia de gênero”, dizendo que ele apoia a “política gay para as crianças”. Algo refutado pelo pedetista.

Sarto está na política partidária eleitoral há 32 anos. Foi vereador e cumpre seu sétimo mandato como deputado estadual. É o atual presidente da Assembleia Legislativa do Ceará. Já passou por seis legendas, geralmente seguindo os Ferreira Gomes. Enquanto Wagner cresceu politicamente entre 2011 e 2012, quando liderou um motim de policiais. Era suplente de deputado em 2010, foi eleito vereador dois anos depois, em 2014 foi o deputado estadual mais votado e, em 2018, o federal. Foi derrotado para a prefeitura em 2016 e o PROS é o seu segundo partido. Independentemente de quem vencer no próximo domingo, a eleição fortalezense será usada como ao menos um laboratório do pleito de 2022.

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