Tribuna
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“Virando o vinho desse jeito você vai ficar bêbada muito rápido, Mirela”

Leia um trecho de ‘Copo Vazio’, de Natalia Timerman. O romance, lançado pela editora Todavia, acompanha Mirela, uma mulher bem-sucedida perturbada por um abandono repentino

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— Pode subir.

Mirela coloca o interfone de volta no gancho. Olha ao redor na cozinha: tudo em ordem, exceto por dois copos em cima da pia, que — percebe num pensamento ínfimo — fazem parte da ordem.

Na sala, recolhe um casaco e um cachecol apoiados no encosto de uma cadeira e os sapatos e meias do chão, ao lado do sofá. Junta o jornal espalhado e o coloca em cima da mesa. Leva a roupa até o quarto.

Finalmente ele vem até sua casa, pensa, indo na direção do banheiro. Já faz tempo — um, dois, quase três meses, conta enquanto ajeita de novo o cabelo na frente do espelho. Nota uma mancha na blusa, na altura do ombro. O que será?

A campainha toca.

Não está nervosa. Deveria estar? Pisa descalça o chão de sua casa até a porta. Abre.

Ele sorri curto, mais com os olhos, a boca fechada tentando esconder. Uma garrafa de vinho na mão esquerda. Ela beija o sorriso, segura sua mão e o traz para dentro. Rui.

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Cinema, casa, tanto faz. Está frio. Deixa eu abrir este vinho. Não tem muito o que comer, podemos pedir alguma coisa. Tanto faz. Quer ficar descalço? Vamos tomar vinho e nos esquentar. Música? Qualquer uma, assim de fundo. Que bonito você tá. Sorriso escondido de novo. Os olhos dele brilham. Os dela também? Com Pedro deviam brilhar. Com certeza. Deixa eu tomar mais vinho. Virando o vinho desse jeito você vai ficar bêbada muito rápido, Mirela. Vamos preparar alguma coisa, deixa eu ver o que tem. Aumenta a música. Preguiça de sair. Gostar é isso? Vou cortando os tomates enquanto você vai cortando esse pão. Onde tem água? Quer gelada? Que beijo mais geladinho. Como foi lá ontem? A reunião com o cliente? Foi boa. Devo viajar pra Singapura. É lindo lá. Não sabia que você conhecia. Fui a trabalho também. Há uns dois anos. Eu não consigo entender o que você faz, Rui. Sabe que às vezes nem eu? Engraçadinho. Pedro não fazia nada além de estudar. E jogar basquete. E ir à academia. Você gosta de esporte, Rui? Jogo um futebolzinho. Ah, é. Segundas, né? Isso. Vamos colocar esses pães no forno? Deixa eu colocar mais vinho pra você. Será que eu gostava mesmo do Pedro, assim, na hora de estar com ele? Tá pronto, quer comer aqui ou na sala? Tanto faz. Tanto faz? Tanto faz. Tá gostoso. Tô cansado. Que bom que ficamos em casa. É sim. Podemos ver um filme. Ou ficar conversando. Ou qualquer coisa.

Silêncio. Mastigam. Mirela termina a taça de vinho.

Tem mais, vamos abrir outra garrafa? Eu topo. Vamos pra sala? Vamos. Vou deitar nesse cantinho do sofá, meu lugar preferido da casa. Que livro é esse? Ah, um livro qualquer. Comecei, vou terminar, mas não é nada de mais. Esse jornal é de hoje? É sim, comprei voltando pra casa.

Rui lê o jornal. Mirela lê o livro na noite de quarta. Não é um livro que exija muita atenção, a leve embriaguez não chega a atrapalhar. Está frio lá fora. Ela apoia os pés no colo de Rui, sentado no outro canto do sofá. Leem em silêncio. O pensamento voa da página — não chegou a ler assim, lado a lado, em silêncio, com Pedro. Talvez seja o vinho, mas nesse momento este é o maior sonho: um sofá, um livro, um Pedro.

Está acontecendo. Com Rui.

Pedro estaria talvez na poltrona, do outro lado da sala, um pouco mais longe dela, fora do alcance de seu corpo; e provavelmente estaria com o livro dele também. Teria tirado o livro de dentro da mochila preta, sempre cheia. Que raios ele carregava naquela mochila? Que livro estará lendo hoje? Rui vira a folha. Ela tenta se concentrar na leitura, mas o vinho, mas o momento que escapa.

Mirela se levanta para encher sua taça. Não, melhor água. Quarta à noite. O que Pedro estará fazendo? Sente raiva da própria pergunta. Sente raiva dos caminhos escondidos em cada instante, os caminhos que sempre levam a ele. Como um vício. Um escape. De quê? Quando estava com Pedro, tentava escapar de alguma coisa? Quer esquecer que ele existiu. Que ele existe. Quer esquecer que ele existe? A água desce gelada. Volta para o sofá. Para a mesma posição. Rui fecha o jornal, olha para Mirela e fica em silêncio. Volta, Mirela. Volta para onde você está. As perguntas esbarram na boca fechada. Vamos dar uma volta? Vamos ver um filme? Vamos dormir? Vamos trepar? Silêncio. Mirela se impressiona por Rui não perguntar se está tudo bem. Admira isso nele. Pedro seria assim também? Chega!, tem vontade de gritar. Mirela se senta.

Sabe, Rui. Não sei se consigo. O quê? (As palavras agora saíram.) Que a gente fique junto. Como assim? Não sei. Não consigo estar aqui.

Ele a olha em silêncio, sério, parecendo tentar entender mais que reagir a qualquer sentimento.

Você é um cara legal, muito legal, mas talvez eu precise ficar sozinha mais um tempo. Quer que eu vá embora? Não, não quero, olha só que estranho, eu deveria querer, né? Por quê? Ah, Rui. Eu poderia dizer que é só um cara. Um cara que já saiu da minha vida há mais de um ano. Ou talvez nunca tenha chegado a entrar. Mas não pode ser, Rui, sei lá, virou outra coisa, sabe? Não sei, Mirela, mas tudo bem. Vem cá. Se quiser me contar, escuto. Se não quiser, tudo bem.

Ficam em silêncio, abraçados no sofá, até que se deitam, até que adormecem, até que Rui acorda de madrugada e desperta Mirela de leve para que durmam na cama.

No dia seguinte, houve um dia seguinte.

Trecho do romance ‘Copo Vazio’, publicado pela editora Todavia.

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