Cupido no campo minado da era digital

Escritores, ensaístas e psicólogos que escreveram sobre o amor no século XXI mapeiam o contexto em que as relações atuais se desenvolvem, um território com uma nova retórica que amplia as opções ao mesmo tempo que pode afetar a autoestima

O ator Joaquin Phoenix, em um fotograma do filme 'Her' (2013), de Spike Jonze.
O ator Joaquin Phoenix, em um fotograma do filme 'Her' (2013), de Spike Jonze.

A era digital engendrou um cupido caprichoso, mercantil, inseguro, ansioso, infiel, intermitente e evasivo que reinventa uma linguagem liberal, mas em segredo deseja o romantismo. É o retrato falado do deus do amor no campo minado de uma era dual, analógica e digital, surgido de uma dúzia de livros recentes. De Mañana Tendremos Otros Nombres, de Patricio Pron (Premio Alfaguara de Romance), cujo O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva foi lançado no Brasil, até La Lira de las Masas – Internet y la Crisis de la Ciudad Letrada, de Martín Rodríguez-Gaona, Prêmio Málaga de Ensaio 2018, pasando pela pesquisa El Algoritmo del Amor – Un Viaje a las Entrañas de Tinder, de Judith Duportail. Obras nas quais ressoam as palavras de Gabriel García Márquez em Memoria de Minhas Putas Tristes: “O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança”.

Esse amor cuja busca é sempre a mesma, embora as vias tenham mudado de maneira vertiginosa. Vários narradores e ensaístas concordam com a definição dada por Patricio Pron: “As novas tecnologias trouxeram para as relações amorosas uma ampliação do conceito de relação que incorpora um vastíssimo repertório de possibilidades, desde a relação amorosa à distância prolongada até o encontro sexual entre duas ou mais pessoas por um período de tempo previamente acordado”.

O modelo proposto, tanto pela pornografia quanto pelos inúmeros aplicativos de encontros, diz Rodríguez-Gaona, é o de relações esporádicas, descartáveis, despersonalizadas, sem intimidade e dispostas ao consumo. Para o ensaísta peruano, o ambiente digital “tem implicações cruciais na reconfiguração da identidade individual (autorrepresentação como um simulacro) e na socialização (a necessidade de popularidade). Isso significou a hegemonia da extimidade (a erosão do privado) e do efêmero”.

Isso dá acesso a um catálogo de desejos conhecidos e secretos no qual, acrescenta Pron, “para muitas pessoas é mais fácil encontrar alguém cujo desejo coincida com o delas, ao mesmo tempo em que ratifica a ideia de gênero como um contínuo em que papéis como os tradicionalmente considerados masculino e feminino e a oposição entre homossexualidade e heterossexualidade podem ser adotados e em seguida abandonados sem que aspectos essenciais da identidade das pessoas sejam colocados em questão”.

Não é nada mais do que “uma recalibragem das coisas”, sentencia Saskia Vogel, autora de Soy una Pornógrafa. Opções não muito diferentes das tradicionais, insiste Vogel. Ela acredita que “não se pode dar como certo que uma perspectiva de amor ou de sexo se aproximará de alguém de acordo com um modelo com o qual esteja familiarizado ou com o que se entenda”. Reivindica que “o importante é a comunicação clara e honesta”.

É o aspecto que interessa Margarita García Robayo, “a transformação da retórica amorosa”. A escritora colombiana, autora de Primera Persona, não tem claro se a linguagem é obrigada a passar pelo mundo digital “sob suas condições específicas, mas o simples fato de que o meio obrigue a retórica a se esforçar é muito interessante”. E deve ser, acrescenta, sem perder o essencial, sem banalizar ou frivolizar a mensagem, “é um desafio nesta nova ordem”.

Isto atesta a jornalista francesa Judith Duportail, que quis experimentar no mundo digital o verso de Lope de Vega “isto é amor, quem o provou sabe”. E o sabor para ela foi agridoce. Depois de romper com o namorado, Duportail buscou a esperança no Tinder, o aplicativo de encontros presente em quase todos os países do mundo. Logo ela quis saber como funcionava por dentro esse mercado do amor e do sexo, do corpo e dos sentimentos. Ficou sabendo, por exemplo, que as mulheres costumam usar o aplicativo para melhorar a autoestima e os homens “para um caso de uma noite”. Logo entrou em uma ilusão de egos, consolos, verdades e mentiras à espera de “recolher migalhas de afeto”. E logo percebeu que o Tinder tem um algoritmo secreto sobre a desejabilidade de cada usuário e sua classificação, e em função disso coloca as fotos, forma pares e sugere encontros. Duportail descobriu que o Tinder é mais conservador do que parece.

O cupido afilhado do mundo digital proporciona encontros em linha “horríveis”, segundo Ronja von Rönne: “O pior do pior, um inferno muito especial cheio de fotos de pênis e selfies de homens que parecem que só querem comer o queijo da sua geladeira”. A escritora e blogueira alemã, autora de Ya Vamos, dá como exemplo os portais de pornografia, que “destroem a confiança em si mesmas de milhões de adolescentes, e seu consumo excessivo faz com que o sexo real pareça um pouco estranho e incômodo”.

Isso é ratificado pelo psicólogo e escritor britânico Frank Tallis, autor de O Romântico Incurável – E Outros Casos de Desejo e Loucura: “O acesso à pornografia fez com que muitos jovens temam o sexo porque sentem que devem se comportar como estrelas pornô”.

Tal excesso de oferta, reflete Pron, leva muitas pessoas “à paralisia amorosa: a oferta é grande demais para escolher somente uma coisa. É difícil imaginar como a provisoriedade em que vivemos poderia ser compensada por uma precariedade também afetiva”.

Isso reforça uma cultura do narcisismo, insiste Tallis. A socialização eletrônica, explica Rodríguez-Gaona, cria dependência da aceitação e da interatividade (um efeito da dopamina), “o que gera desgaste psicológico e aumento dos transtornos narcisistas”, porque depois de vários contatos infrutíferos “ocorre apatia e a volta à segurança da reclusão e do autoerotismo”.

O modelo de comunicação aposta na linguagem liberal, mas ao mesmo tempo deseja em segredo o romantismo

Edurne Portela, autora de Formas de Estar Lejos, ficou sabendo da existência dos GPS dos telefones celulares quando o marido de uma amiga o instalou no telefone dela para sempre saber onde estava: “Acabou se revelando um abusador. Mas o outro lado da moeda também existe. Não sei o que teria sido de mim sem o Skype e o e-mail durante os anos em que estive longe do meu parceiro. Uma forma de usar a tecnologia limita o amor, a outra amplia as possibilidades de vivê-lo plenamente”.

Enquanto Monica Ojeda, autora de Mandíbula, vê outras vantagens desse novo território, como “a libertação do império do amor monogâmico e da heterossexualidade”, o filósofo Manuel Cruz abre um caminho inquietante e um futuro já vivível. Ele o faz por meio do filme Ela, no qual o protagonista se apaixona por um sistema operacional com voz de mulher, e explica: “Quando a voz feminina desse sistema responde ao protagonista que mantém o mesmo tipo de relação com mil e tantos usuários, ele entra em crise. O mais fácil é interpretar essa reação como um gesto ridículo de quem reivindica exclusividade do que é apenas um artefato. Aqui se trata de outra coisa: se ela [o sistema operacional] mantém a mesma relação com tanta gente, isso não significa que não lhe corresponda, nem que lhe seja infiel, nem que seja promíscua, coisas todas elas não previsíveis em um sistema operacional. Se a máquina pode manter a mesma relação com tantos usuários é porque o encarnado por Joaquin Phoenix é intercambiável, o que o coloca diante da evidência da absoluta insubstancialidade desse eu, pelo qual ele mesmo tinha tanta estima”.

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