Governo Bolsonaro

Chanceler Ernesto Araújo comunica sua demissão aos subordinados no Itamaraty

O diplomata encabeça a área mais ideológica do Executivo de Jair Bolsonaro. Saída do Governo só foi confirmada oficialmente à noite, em meio à reforma ministerial

Ernesto Araújo conversa com Bolsonaro durante a cúpula virtual do Mercosul, na última sexta-feira.
Ernesto Araújo conversa com Bolsonaro durante a cúpula virtual do Mercosul, na última sexta-feira.MARCOS CORREA / AFP

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O diplomata Ernesto Araújo decidiu renunciar ao cargo de chanceler nesta segunda-feira, enquanto o Brasil se torna o epicentro mundial da pandemia, com uma média que ultrapassa 2.500 mortes diárias. A informação passou a circular após Araújo comunicar, por meio de seu chefe de gabinete, o diplomata Pedro Wolny, aos secretários e outros subordinados do Itamaraty que pediria demissão. Mas a troca só foi oficializada à noite, quando o Governo Bolsonaro comunicou a mudança de comando em seis ministérios —incluindo o das Relações Exteriores, que ficará com o diplomara Carlos Alberto Franco França.

As intensas pressões dos últimos dias do Congresso Nacional e de representantes do poder econômico pressionavam o presidente Bolsonaro a mudar a chefia do Ministério das Relações Exteriores, liderado até agora pela ala mais ideológica de seu Governo. Araújo, fervoroso anticomunista e trumpista, é considerado o maior responsável pelo fato de o país não ter conseguido comprar na China e em outros mercados doses suficientes para fazer uma vacinação em massa que permita vislumbrar no horizonte alguma recuperação econômica.

A gestão da pandemia começa a afetar de forma determinante a política de Bolsonaro mais de um ano após os primeiros casos. Embora mantenha o firme apoio de um terço do eleitorado brasileiro, setores mais pragmáticos que o apoiaram em 2018 para evitar que o PT voltasse ao poder estão se afastando do presidente à medida que o Brasil vai somando mortes por coronavírus. As filas para conseguir vaga na UTI e a lentidão com que a vacinação avança ―porque o Brasil começou a negociar tarde e rejeitou várias ofertas de laboratórios― influenciaram nas críticas e na exigência de que Bolsonaro afastasse Araújo.

Na semana passada, mais de 10 senadores pediram sua demissão numa audiência no Legislativo. No fim de semana, circulou uma carta com o apoio de 300 diplomatas que também pediam a sua saída da função. Araújo é o segundo ministro de Bolsonaro que cai neste ano por causa da pandemia. O primeiro foi o general Eduardo Pazuello, foi substituído na semana passada pelo médico Marcelo Queiroga.

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Bolsonaro avaliava três nomes para substituir Araújo. São dois diplomatas ―Luis Fernando Serra, embaixador na França, e Nestor Forster, embaixador nos Estados Unidos― e um militar, o almirante Flávio Rocha, que acumula as funções de secretário de Assuntos Estratégicos e de Comunicação do Planalto. Por fora, corriam os nomes de quatro políticos: o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP) e os senadores Fernando Collor (PROS-AL), Nelsinho Trad (PSD-MS) e Antonio Anastasia (PSD-MG).

O nome menos aceito entre diplomatas brasileiros consultados pela reportagem era o do embaixador Serra, que é apontado como um “novo Ernesto”, já que compartilha dos mesmos ideais. Há um movimento crescente entre a categoria para apoiar um nome que venha de fora do Itamaraty. O objetivo é evitar que qualquer descaminho que continue sendo seguido possa ser vinculado à carreira diplomática. “Uma eventual condução equivocada poderia cair no colo dos militares ou dos políticos, não dos diplomatas. Se não, vão pensar que todos nós somos incompetentes como o Araújo ou que concordamos com essa política externa do presidente”, afirmou um diplomata ouvido pela reportagem.

Carreira política

Araújo quis fazer parecer que a gota d’água de sua demissão ocorreu por causa de um tuíte que ele escreveu no domingo, quando decidiu atacar a senadora Kátia Abreu (PP-TO), presidente da Comissão de Relações Exteriores insinuando que o interesse dela e dos senadores em derrubá-lo tinha vinculação com o leilão da frequência de internet 5G. Há uma intensa movimentação em Brasília para evitar que o Governo Bolsonaro impeça a participação da empresa chinesa Huawei, como fez a antiga Gestão de Donald Trump nos Estados Unidos.

Na prática, contudo, ele queria ter um álibi para usar politicamente entre os militantes bolsonaristas, quis jogar para a plateia, conforme observou outra fonte do meio diplomático. “O cálculo dele foi: ‘já que eu vou cair, eu vou cair atirando’. Ele quis parecer ser a vítima de uma conspiração comunista desencadeada pela China, assim como outros membros deste Governo já fizeram”, disse outro diplomata. A referência era aos ex-ministros da Educação Abraham Weintraub e da Saúde Eduardo Pazuello.

Líder da Minoria no Senado, Jean Paul Prates (PT-RN) disse que Araújo era um bode na sala e que a sua saída é uma tentativa de retirar a responsabilidade de Bolsonaro na má condução da crise sanitária do país. “Que Araújo é uma catástrofe diplomática, ninguém nega. Mas ele é o bode que colocaram na sala para que outros não paguem o pecado a ser expiado. Se o Brasil não tem vacinas, o responsável é Bolsonaro”, afirmou em nota. “As relações exteriores devem ser pautadas pelo equilíbrio e pela moderação. Ele foi o exemplo de tudo o que não deve ser feito. Atacou nações, culturas, atacou a verdade e por fim agrediu o senado federal”, criticou o deputado o vice-líder do Cidadania na Câmara, deputado Daniel Coelho (PE), também em nota.

Os embates com a China não são novos. Araújo já chamou a covid-19 de “comunavírus” e “vírus chinês”, porque os primeiros casos foram registrados naquele país. Ao atacar os comunistas, mais uma vez, ele tenta dar um start em eventual carreira política. Ao deixar o ministério Araújo teria dificuldades em assumir uma embaixada, pois precisaria ser aprovado pelo Senado, onde tem hoje alta rejeição. Nessa linha, lhe restaria quatro caminhos dentro da carreira diplomática ir para um consulado, cargo inferior ao de embaixador; ou ocupar uma das representações brasileiras que não precisam ser votadas pelo parlamento. São elas: embaixador do país na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), representante da área de desarmamento na Organização das Nações Unidas (ONU) e ou a representação do Brasil junto às organizações internacionais em Londres (Rebraslon).

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