Brasil vive mês mais letal da pandemia, com a piora no atendimento de pacientes: “Muitos não morreriam”

Mais de 1.000 pessoas esperam por leitos de UTI ou enfermaria exclusivos para covid-19 em hospitais municipais de São Paulo, apesar da corrida para criar novas vagas. “Tem que interromper a circulação do vírus ou a expectativa para abril será horrorosa”

Uma profissional de saúde atende a um paciente com covid-19 em uma UTI de um hospital na cidade de São Paulo, no último 23 de março, o mês mais letal da pandemia no Brasil.
Uma profissional de saúde atende a um paciente com covid-19 em uma UTI de um hospital na cidade de São Paulo, no último 23 de março, o mês mais letal da pandemia no Brasil.AMANDA PEROBELLI (Reuters)

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Março de 2021 nem terminou e já é o mês mais letal da pandemia no Brasil. Neste domingo, foram registradas 1.656 mortes por coronavírus nas 24 horas anteriores ―um recorde para o dia, após uma semana em que foram contabilizados mais de 3.000 óbitos diários em três dias distintos, levando o total de vítimas para 312.206 no país. Além da dramática escalada de mortes por covid-19, outro drama ganhou uma proporção maior no período: a fila de pacientes infectados pelo coronavírus à espera de um leito hospitalar. Enquanto as autoridades vem anunciando seus esforços para ampliar o sistema de saúde e as taxas de ocupação até indicam uma pequena margem para receber pacientes, na prática, a constatação é de que a estrutura não tem dado conta da demanda crescente.

Mais de 6.000 pessoas aguardavam especificamente por uma vaga em unidades de terapia intensiva (UTI) em todo o país na semana passada. Nem mesmo São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, escapa do caos no pior momento da crise sanitária. Na última quinta-feira, ao menos 1.040 pessoas esperavam por um leito de UTI ou de enfermaria exclusivos para covid-19 em hospitais municipais e, embora todos os dias cerca de 200 vagas sejam abertas ou desocupadas, a fila de espera não fica abaixo de 1.000 pessoas há cerca de duas semanas. Morrer sem ter chance a um atendimento adequado para tratar a doença é uma realidade e especialistas apontam a urgência de estancar o contágio com o endurecimento das medidas de distanciamento social (enquanto a vacinação caminha lentamente) é a única saída para minimizar a crise.

Até a sexta-feira, ao menos 508 pessoas aguardavam por um leito de UTI na capital paulista, ainda que tenham sido criadas 292 vagas deste tipo na cidade de São Paulo neste mês. O gargalo se estende até mesmo na fila dos leitos clínicos ou de enfermaria, que, embora sejam destinados a pessoas com quadro de saúde moderado, já absorvem também os casos graves. O EL PAÍS teve acesso a dados do sistema de regulação municipal que mostram que, na tarde da última quinta, 736 pacientes esperavam por uma vaga de enfermaria na capital paulista. Naquele mesmo dia, o prefeito Bruno Covas (PSDB) anunciou a criação de leitos em universidades da cidade, que mantém em 91% a taxa de ocupação de UTIs e tem 82% de leitos de enfermaria utilizados atualmente.

A fila de espera é dinâmica e o número exato muda a cada momento. A central de regulação municipal funciona 24 horas sem parar, e os chamados reguladores estão o tempo todo avaliando prontuários e pedindo vagas aos hospitais municipais que, por sua vez, respondem se podem ou não receber mais pacientes. As transferências dependem se há estrutura para o transporte seguro, das condições do hospital e do quadro clínico do paciente. Como o momento é de escassez, há muitas negativas mesmo com os dados gerais de ocupação não chegando a 100%. Na prática, várias unidades de pronto-atendimento (UPA) da cidade estão com pacientes em estado grave e intubados. A cara do colapso no sistema de saúde ainda passa pela escassez de medicamentos, de oxigênio e de leitos, além da limitação de equipes especializadas até mesmo nos hospitais mais estruturados.

“Teve paciente pronado em uma cadeira nesta semana. E temos visto muitos óbitos”, contou uma profissional de uma UPA do bairro Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, que pediu para não ser identificada. Pronar é uma manobra médica na qual o paciente é colocado com a barriga para baixo para aliviar a região das costas e tentar melhorar a oxigenação dos pulmões. Esta técnica tem sido usada tanto em pacientes intubados quanto naqueles que estão usando máscaras de oxigênio. “Como a demanda triplicou, improvisaram leitos. As salas estão cheias, mas não tem muita estrutura para atender essa demanda. Estamos com três respiradores, um deles está vazando. Estão usando mesmo assim”, conta a profissional de saúde.

A UPA de Santo Amaro tem tentado se adaptar ao máximo para atender à demanda crescente de pacientes e um andar inteiro já foi reservado para os infectados pelo novo coronavírus. Mas há dias em que o fluxo é tão grande que espaços destinados a outras doenças passam a atender também pessoas com covid-19. Salas de choque viraram unidades de terapia intensiva, mesmo respiradores com problemas estão sendo utilizados e, às vezes, os pacientes são colocados em cadeiras porque as macas estão esgotadas. Os profissionais estão exaustos e precisando escolher quem deverá ter prioridade conforme o quadro clínico e a escassez de condições para assisti-los ―numa triste realidade relatada por médicos e enfermeiros de outros Estados, como o Rio Grande do Sul.

Na última sexta-feira (26), enquanto uma família aguardava os trâmites para liberação do corpo de uma vítima da covid-19 em uma UPA do bairro Pedreira, também na na zona sul da capital paulista, 23 pacientes aguardavam lá dentro uma vaga de UTI ou enfermaria ―uma dessas pessoas estava na fila desde o dia 20 de março. A família estava muito abalada e não quis dar entrevista. Na semana anterior, o prefeito Bruno Covas admitiu a morte de um paciente de 22 anos na fila da UTI. Dias depois, o pai do jovem, que também contraiu a covid-19, sofreu uma piora no quadro de saúde e foi incluído na lista de espera por um leito.

A Prefeitura de São Paulo tem dito que essas unidades ―com estrutura menores que os hospitais e equipes mais reduzidas― foram equipadas para dar a assistência de terapia intensiva e que quando alguém morre na fila de espera não significa necessariamente que foi por falta de assistência. O EL PAÍS perguntou à Secretaria municipal da Saúde quantas pessoas morreram à espera de um leito no mês de março e quantas aguardam um leito de enfermaria e de UTI, mas só recebeu resposta sobre as mais de 500 pessoas na fila da terapia intensiva.

O papel do colapso na alta mortalidade

O secretário municipal da Saúde de São Paulo, Edson Aparecido, afirmou em entrevista coletiva na semana passada que as UPAs têm cumprido um papel importante para desafogar a pressão nos hospitais, já lotados. E admitiu que há pessoas morrendo de covid-19 nos mais diversos tipos de unidades de saúde da cidade, inclusive UPAs e AMAs. “Óbitos têm ocorrido pela criticidade dos casos, não por falta de leitos de UTI”, justificou. “Equipamos todas as nossas UPAs para que tenham serviço de terapia intensiva para atender”, afirmou o secretário, citando a variante brasileira P1 como uma das causas para a elevada mortalidade, já que a cepa é potencialmente mais transmissível e pode provocar quadros mais graves. Mas, nesta equação, outro fator é considerado pelo médico intensivista e integrante do Conselho Consultivo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), Ederlon Rezende: as condições precárias de assistência em um sistema de saúde colapsado.

Segundo Rezende, que atua no projeto UTIs Brasileiras e monitora dados de hospitais públicos e privados de todas as regiões do país, houve um aumento de 18% na mortalidade de pacientes em terapia intensiva entre os meses de dezembro, janeiro e fevereiro em relação ao trimestre anterior. “Estamos cheios de leitos de UTI improvisados. É o ônus do colapso do sistema. Morrem pessoas que em condições normais não morreriam”, afirma. “Podemos considerar que é melhor ter leito montado na UPA para as pessoas não morrerem sem assistência na rua, mas longe de achar que elas estão recebendo a assistência que precisariam.”

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O problema observado em São Paulo é um espelho do que está acontecendo em praticamente todo o país. Segundo o Conselho Nacional de Secretários Estaduais da Saúde (Conass), na última quinta-feira 6.370 pessoas com covid-19 estavam na fila da UTI. Rezende diz que o Brasil praticamente dobrou a quantidade de leitos deste tipo para atender à demanda durante a pandemia e que isso funcionou por um tempo, mas as taxas de contágio estão tão elevadas agora ―o país vem registrando média móvel superior a 70.000 novos casos por dia― que não há como atender ao elevado volume da demanda por hospitalização. Mesmo nos leitos abertos em hospitais mais estruturados, há dificuldades generalizadas pela falta de medicamentos, de oxigênio, de equipamentos e de profissionais especializados. “Todos os hospitais aumentaram capacidade de atendimento enormemente e sempre corre risco de ter perda de qualidade e de padrão. As taxas de mortalidade nos últimos meses é a maior desde o começo da pandemia no Brasil. Acredito que esta mortalidade maior está relacionada também à abertura desenfreada de leitos, às UTIs com profissionais que não foram adequadamente treinados e ao colapso do sistema”, considera.

Na Estação da Luz, no centro de São Paulo, trabalhadores fazem fila para entrar nos trens lotados, apesar de o Estado viver a fase emergencial.
Na Estação da Luz, no centro de São Paulo, trabalhadores fazem fila para entrar nos trens lotados, apesar de o Estado viver a fase emergencial. CARLA CARNIEL (Reuters)

Fila por leito de covid-19 é cinco vezes maior que outras doenças

O gargalo de leitos hospitalares, especialmente de UTI, é um problema crônico do SUS. Mas, para se ter uma ideia da demanda, a capital paulista tem hoje um fila por leito de covid-19 cinco vezes maior que de outras doenças. O tamanho do problema durante a pandemia também cresceu. A demanda triplicou nas últimas seis semanas, saindo de uma média de 300 pacientes na fila de leitos de UTI ou enfermaria do SUS para mais de 1.000. Isso mesmo com os esforços da prefeitura para expandir o sistema de saúde.

A gestão municipal adotou um “megaferiado” de dez dias para tentar reduzir a circulação de pessoas e também tem mudado os protocolos. Pede agora que pacientes procurem atendimento médico nos postos de saúde aos primeiros sintomas para avaliação. “O protocolo ainda está em fase de adaptação e a predominância dos casos ainda é nos idosos. Contudo, nos pacientes mais jovens, a patologia inicialmente não apresenta sintomas ou tem sintomas leves, depois ela avança tão rapidamente que ao procurar tratamento, precisa ser entubado e de leito de UTI”, explicou na sexta a secretária-executiva de Atenção Básica, Especialidade e Vigilância da SMS, Sandra Maria Fonseca Sabino.

Segundo Rezende, a única saída para a grave crise brasileira é frear o contágio e adotar medidas de distanciamento social em um pacto dos governantes com a população. “Só tem um caminho: parar a circulação de pessoas. Ou não vai controlar o contágio nunca. Abrir leito não vai adiantar. Tem que interromper a circulação do vírus. Três semanas depois de parar, os hospitais reduzem pressão. Sem isso, a expectativa para abril é horrorosa.”

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