Pandemia de coronavírus

Governo gaúcho vai reabrir comércio mesmo com hospitais superlotados e fila por leito de UTI

Governador Eduardo Leite autoriza flexibilização do isolamento social diante da queda do ritmo de infecções, mas desaceleração não se reflete nos hospitais. Há pacientes atendidos nos corredores, enquanto fila por cama de UTI quadruplica e faltam insumos para socorrer pacientes com covid-19

Profissionais de saúde correm contra o tempo para atender pacientes com covid-19 na UPA Moacyr Scliar, em Porto Alegre.
Profissionais de saúde correm contra o tempo para atender pacientes com covid-19 na UPA Moacyr Scliar, em Porto Alegre.Tânia Meinerz

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As cidades do Rio Grande do Sul podem adotar regras mais brandas de contenção da pandemia do novo coronavírus a partir de segunda-feira, 22. Depois de três semanas sob restrição, o comércio está autorizado a reabrir as portas de segunda a sexta. Esse clima de volta gradual à normalidade, entretanto, não condiz em nada com o cenário de colapso vivenciado dentro dos hospitais, pronto atendimentos e até de unidades básicas de saúde no Estado ―o sexto mais populoso do Brasil, com 11,4 milhões de habitantes―, onde a demanda de pacientes com covid-19 levou ao fechamento de serviços de emergência e as taxas de superlotação já ultrapassaram 600% em alguns casos. “Isso é trágico, estamos no pior momento da pandemia, mas pode piorar muito. Ou tomamos atitudes drásticas e rápidas, ou teremos que lidar com uma tragédia muito maior”, alerta a epidemiologista Lucia Pelanda, reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, capital do Estado.

O governador Eduardo Leite (PSDB) justifica a decisão de autorizar a reabertura do comércio ―para os prefeitos que assim desejarem, já que flexibilizar não será uma imposição― com o número de infecções, que diminui gradualmente. Segundo o Governo, em fevereiro, a taxa de transmissão do vírus era de 2,35 (a média de quantas pessoas um paciente com covid-19 pode infectar). Agora estaria em 1,4. O número de novos casos registrados no painel público covid-19 também tem tendência de queda. Mas profissionais da saúde do Rio Grande do Sul afirmam que a desaceleração não é sentida ainda dentro dos hospitais. O RS é o quarto Estado em número de infecções no país, com 771.000 casos e 16.117 mortes por covid-19 confirmadas até a quinta-feira.

Nas ruas da capital gaúcha, carreatas e atos públicos se intensificaram nesta última semana. O Palácio Piratini, sede do Governo estadual em Porto Alegre, tem vivido sob pressão constante de militantes vestidos de verde e amarelo que exigem a retomada das atividades. Um pedido de impeachment foi protocolado na Assembleia Legislativa contra o governador, que é um dos pré-candidatos do PSDB à presidência da República. Assim também cedeu o governador do Amazonas, Wilson Lima, quando teve protestos em dezembro para reabrir o comércio. Semanas depois, Manaus entrava em colapso absoluto.

“Não consigo observar essa redução no total de casos. Na prática, estamos superlotados. Tem doentes internados em consultórios, nas salas de medicação, nos corredores. É temerário reabrir o comércio com esse quadro”, desabafa o coordenador médico da UPA Bom Jesus, em Porto Alegre, Alexandre Bublitz. A unidade em que ele atende chegou a exceder sua capacidade máxima em 628% nesta semana. Na última quinta-feira, 18, a lotação era de 528%. A sobrecarga se dá pela falta de leitos de UTI em hospitais, um gargalo que mantém pacientes aguardando de forma improvisada a liberação de uma vaga para atendimento crítico. Naquele dia eram 305 pessoas nesta situação no Estado, um número quatro vezes maior do que o registrado em 5 de março, quando pela primeira vez o Rio Grande do Sul viu a demanda superar a capacidade instalada de 3.195 leitos de UTI. Desde então, o sistema opera permanentemente com 100% de lotação, tanto na rede pública como na rede privada. Por isso, pacientes que deveriam permanecer no máximo 24 horas na UPA Bom Jesus agora precisam esperar três dias para serem transferidos a um hospital. Alguns aguardam em cadeiras, diante da falta de macas. Muitos morrem durante a espera.

Nas três maiores emergências do Estado, mesmo com todas as adaptações possíveis, a sobrecarga chegou ao limite e foi preciso fechar as portas. A Santa Casa de Porto Alegre, o Hospital de Clínicas e Nossa Senhora da Conceição deixaram de receber pacientes que procuravam espontaneamente atendimento de urgência e agora só podem ser acionadas através do sistema de regulação de leitos do Estado, ou pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). “Hoje temos na emergência quase o mesmo número de pacientes intubados do que a UTI. Só que não somos intensivistas”, alerta Laura Maria Brenner Ceia Ramos Mariano da Rocha, médica emergencista do Conceição ―o maior hospital 100% SUS do Rio Grande do Sul.

A médica comemora “a vitória maravilhosa” de extubarem pessoas que passam todo o período mais grave da doença na emergência porque não conseguem vaga na UTI. Por outro lado, profissionais da saúde relatam mortes de gente saudável e com plenas condições de recuperação porque não foi possível conseguir um respirador que aguentasse o tempo necessário até a reação do organismo. “A doença tem um tempo limitado, o problema são as intercorrências graves que não se consegue driblar”, sintetiza Rocha.

Nem a rede básica de atenção escapa do pesadelo. Na noite de quarta-feira, 17 de março, pelo menos três postos de saúde de Porto Alegre precisaram ficar abertos até quase a madrugada esperando a remoção de pacientes com covid-19, quando o normal é que fechem às 17h, ou, em horário expandido, às 22h. Mas as ambulâncias não chegavam porque não tinham para onde levar os doentes.

“Aqui na nossa cidade, a realidade é que as UBS [Unidade Básica de Saúde] viraram pronto atendimentos, e as UPAs [Unidade de Pronto Atendimento] e emergências viraram UTIs. Nós queremos muito que tenha essa diminuição de que o governador fala, mas ela ainda não chegou para gente”, lamenta o diretor-presidente do Grupo Hospitalar Conceição, Cláudio Oliveira, que inclui três hospitais públicos e mais a UPA Moacyr Scliar em Porto Alegre, cuja lotação atingiu novo ápice na noite de quinta, com 400% de ocupação.

Médicos atendem a um paciente com covid-19 na UPA Moacyr Scliar, em Porto Alegre.
Médicos atendem a um paciente com covid-19 na UPA Moacyr Scliar, em Porto Alegre.Tânia Meinerz

Faltam remédios nas UTIs

No final da manhã desta sexta-feira, a Secretaria Estadual da Saúde confirmou a morte de seis pacientes na cidade de Campo Bom, na região metropolitana de Porto Alegre, ocasionadas por falhas na distribuição de oxigênio. A pasta ainda apura o que ocorreu, mas informou que havia estoque suficiente do insumo ―e que, portanto, o problema não foi a falta de oxigênio. “A secretaria oficiou todas as unidades hospitalares para que fosse mantido um estoque mínimo de oxigênio, suficiente para uma semana”, justificou a pasta, em nota.

A razão pela qual foi preciso adaptar emergências e UPAs para receber os doentes com quadros graves de covid-19 é que nas UTIs essa sobrecarga é impensável. “A minha demanda é controlada pelo número de leitos à disposição. Não vai ter paciente no chão da UTI, mas mesmo aqui os dias parecem cada vez mais difíceis”, relata a médica residente do CTI do Clínicas Laura Bonetti Kirsch, que percebe um aumento na gravidade dos doentes que aportam no seu setor.

“Essa é uma doença em que os pacientes já chegam com demanda de UTI, por isso ela é tão séria. E a mortalidade em UTI é muito alta, entre 66% e 75%. Abrir mais leitos é na verdade enxugar gelo. Então, recomendamos lockdown”, confirma Ricardo Heinzelmann, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, que atua no hospital escola da Universidade Federal de Santa Maria. A diretoria gaúcha da entidade emitiu um comunicado recomendando restrições ainda mais duras do que as atuais. “Essa difícil escolha que os profissionais têm se visto obrigados a tomar, costuma ser necessária em contextos de catástrofes ou guerras, mas já é cotidiana e vem mostrando agravar-se dia a dia”, dizem os médicos de família.

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Agora, uma preocupação extra começa a surgir no horizonte desses profissionais: está começando a faltar equipamentos e insumos para atender inclusive aos casos críticos. Respiradores se tornaram item disputado. Na UTI do Clínicas, as equipes improvisam oxigenação para pacientes que estão melhorando com carrinhos de anestesia. “Alguns insumos estão com ameaça de terminar estoques; não é que não consigam comprar, o mercado não oferece mais. São sedativos, anticoagulantes, remédios para bloquear musculatura. Com isso estamos usando substitutos, mas que não temos prática em aplicar, ou mesmo medicações muito mais caras, onerando o hospital”, revela Kirsch.

Em Pelotas, na região sul do Estado, o comitê científico da Universidade Federal da cidade (UFPel) emitiu nota cobrando um fechamento rigoroso durante 14 dias depois que a capacidade máxima, de 60 pacientes em UTI, foi extrapolada. “Mesmo com a bandeira preta atual, com medidas restritivas, chegamos a 17 pessoas esperando vaga de atendimento crítico. Já colapsamos”, atesta a infectologista Danise Senna Oliveira, que é professora na instituição e atende no hospital escola da cidade. Em Santa Maria, os temidos 100% de ocupação foram alcançados pela primeira vez na quarta-feira. Uma audiência pública na Assembleia Legislativa serviu para que dirigentes das Santas Casas do Rio Grande do Sul fizessem apelo urgente por mais recursos na última quarta. O motivo era a escassez de itens básicos para o tratamento da covid-19, incluindo oxigênio. Mesmo assim, a pressão pela reabertura do comércio aumentou conforme o Governo gaúcho prorrogou as restrições.

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